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A extinção dos tigres-dentes-de-sabre pode ter sido causada pela escassez de presas

A descoberta, feita por pesquisadores da Unicamp, traz novas luzes sobre a complexa relação entre predadores e presas na escala da macroevolução


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 22/07/2025 - 16:56

esqueleto de Smilodon — o famoso tigre-dente-de-sabre — exibido no Museu Nacional de História Natural de Paris

A queda na oferta de presas ao longo de milhões de anos pode ter sido o fator determinante para a extinção dos temidos tigres-dentes-de-sabre. A descoberta, feita por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), traz novas luzes sobre a complexa relação entre predadores e presas na escala da macroevolução. Os estudos foram apoiados pela Fapesp e divulgados pela Agência.

Os resultados surpreendentes foram publicados em dois periódicos científicos de prestígio — Journal of Evolutionary Biology e Evolution — e ajudam a explicar por que os tigres-dentes-de-sabre, conhecidos por seus icônicos caninos alongados, desapareceram da Terra. Mais do que mudanças climáticas ou ação humana, a redução na diversidade e abundância de presas ao longo de milhões de anos foi um elemento-chave nesse processo. “Nosso estudo mostra que as extinções de algumas espécies de dentes-de-sabre coincidem com períodos de baixa diversidade de presas”, explica João Nascimento, doutorando no Instituto de Biologia da Unicamp e primeiro autor dos estudos.

Predadores em queda, presas também

Ao cruzarem dados de fósseis, variações climáticas e estimativas de tamanho corporal de animais da América do Norte e da Eurásia, os cientistas observaram que os tigres-dentes-de-sabre surgiram há cerca de 12 a 14 milhões de anos e conviveram com até oito espécies distintas. No entanto, sua diversidade começou a declinar há cerca de 6 milhões de anos, muito antes da extinção da megafauna no final do Pleistoceno, que sempre foi tida como a principal causa do desaparecimento desses predadores.

Além disso, mudanças no clima — como o aumento da aridez e a transformação de florestas em savanas — afetaram diretamente as populações de herbívoros. Menos presas folívoras significava menos alimento disponível para predadores especializados.

Um único sobrevivente: o veloz antílope-americano

O segundo estudo foca nos antilocaprídeos, grupo de herbívoros outrora diversos na América do Norte, mas hoje representados apenas pelo antílope-americano (Antilocapra americana). A pesquisa sugere que o aumento da diversidade de predadores, como o guepardo-americano (Miracinonyx), pressionou essas espécies ao ponto da extinção.

A subfamília Merycodontinae, por exemplo, desapareceu há cerca de 6 milhões de anos, coincidindo com a chegada de grandes mamíferos como os proboscídeos (grupo dos elefantes). Já os Antilocaprinae sobreviveram por mais tempo, mas entraram em declínio à medida que surgiam predadores mais velozes e eficientes.

Interações predador-presa moldam a evolução

De acordo com o professor Mathias Pires, que orientou os trabalhos sobre a extinção dos tigres-dentes-de-sabre, os estudos mostram como interações ecológicas podem ter impacto direto nos padrões evolutivos em grande escala. “Estamos mostrando como o aumento de predadores pode reduzir a disponibilidade de presas, o que por sua vez reduz a abundância de predadores. Isso ajuda a entender como essas dinâmicas moldam a biodiversidade ao longo do tempo”, destaca Pires.

Essa descoberta também é um alerta: o que está acontecendo hoje, com a perda acelerada de espécies, pode alterar profundamente o equilíbrio ecológico e evolutivo do futuro.

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