Referência para todos os demais juros da economia brasileira, a taxa Selic encontra-se hoje em 15% ao ano, patamar definido na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada em 30 de julho de 2025. Esse número, por si só, traduz o abismo entre a política monetária nacional e a realidade internacional, tornando-se símbolo de uma escolha que aprisiona o Brasil em um modelo caro, ineficiente e distante das práticas de outros países.
Os elevados juros, ao se prolongarem, tendem a provocar um colapso na economia brasileira a médio e longo prazo, expondo de forma ainda mais clara a vulnerabilidade estrutural do país quando projetado no mercado internacional de exportações.
Enquanto os Estados Unidos projetam uma taxa básica em torno de 3% até 2027, a União Europeia mantém juros próximos de 4%, países da América do Sul como Chile e Colômbia operam entre 6% e 8%, e na América Central diversas economias convivem com patamares próximos a 5% anuais, o Brasil persiste com uma Selic de 15%. Essa discrepância não apenas impressiona em números absolutos, mas evidencia a distância entre a política monetária nacional e as práticas internacionais.
A manutenção de juros tão elevados não é fruto do acaso, mas de um conjunto de fatores recorrentes, tais como descontrole fiscal, ausência de reformas estruturais, endividamento público crescente e políticas populistas que, ao invés de atacar a raiz da inflação, alimentam a instabilidade. Economistas apontam que a insistência em expandir gastos públicos, aliada à falta de credibilidade no arcabouço fiscal, cria um ambiente de incerteza que força o Banco Central a sustentar juros altíssimos como defesa contra pressões inflacionárias.
O resultado é um verdadeiro círculo vicioso, posto que juros elevados encarecem o crédito, inibem o consumo, desestimulam investimentos e retraem a produção. Com menos empresas ousando empreender, o desemprego aumenta, a renda diminui e a médio e longo prazo a inflação volta a subir — agora não por excesso de demanda, mas pela deterioração da capacidade produtiva. Soma-se a isso o aumento dos custos dos insumos, como fertilizantes, e a queda no preço internacional de commodities e temos um cenário perturbador. A soja, por exemplo, registrou recuo superior a 20% no último ano, pressionando produtores que já operam no limite.
A busca por emprego formal com CTPS assinada, a qual reflete o mercado, diminuiu nos últimos anos, os dados de 2025 indicam que o Brasil tem enfrentado um cenário onde o número de pessoas que buscam trabalho formal diminuiu, indicando migração e preferência por trabalho por conta própria ou com a flexibilidade ganhando força, especialmente entre os jovens, impulsionada pela busca por autonomia, descontentamento com o modelo tradicional da CLT aliado ao receio de perder benefícios sociais.
A criação de novos postos de trabalho formal diminuiu em junho de 2025, registando um aumento de apenas 166,6 mil vagas, contra 206,3 mil no mesmo mês de 2024, o que representa uma queda de 19,2%. Este resultado foi o pior para um mês de junho desde 2023, indicando uma desaceleração na criação de emprego formal, apesar dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostrarem uma taxa de desemprego em queda para 6,2% e um recorde de ocupação com carteira assinada para o trimestre encerrado em maio.
Em paralelo, a política de pseudo distribuição de renda, via programas como o Bolsa Família, gera efeitos colaterais perversos. Longe de promover inclusão sustentável, cria dependência, desestimulando parte da população a retornar ao mercado de trabalho formal.
Outro ponto negligenciado é a inevitável deterioração do sistema previdenciário, consequência direta da queda na formalização de empregos. Sem arrecadação suficiente, a Previdência Social tende a caminhar para o colapso, ampliando ainda mais a vulnerabilidade fiscal do país. Trata-se de um problema estrutural grave, que exige soluções imediatas, mas que segue sendo empurrado para o futuro — tema que, por si só, mereceria uma análise aprofundada.
O paradoxo é cruel: há desempregados, mas não há quem aceite abandonar as benesses do assistencialismo para retomar sua dignidade laboral. Essa distorção agrava a falta de mão de obra disponível em setores produtivos, prejudicando a competitividade, reforçando o estancamento econômico e aumentando os custos de produção, alie-se tais fatores à juros desproporcionais e temos um cenário preocupante no Brasil.
No cenário externo, o impacto é igualmente grave. Juros tão altos atraem capital especulativo de curto prazo, valorizam artificialmente a moeda e encarecem as exportações. O Brasil perde competitividade, vê seus produtos encalharem no mercado interno — onde os preços caem a ponto de inviabilizar a atividade de produtores — e não consegue competir em igualdade com parceiros internacionais que oferecem condições de financiamento mais baratas.
Ao invés de enfrentarmos de frente os problemas estruturais que paralisam e amarram o Brasil, insistimos em desperdiçar energia e capital político em pautas menores ou meramente diversionistas. Há mais de 20 anos a política econômica permanece intocada, incapaz de gerar reformas profundas que impulsionem crescimento sustentável.
Enquanto isso, o debate público é sequestrado por temas como anistias oportunistas, PEC da impunidade, fraudes bilionárias contra o INSS, processos penais recheados de nulidades e o eterno balcão de negócios das emendas impositivas. É o retrato de um país que troca o estratégico pelo imediato, o essencial pelo acessório, e continua a girar em círculos enquanto o mundo avança.
As soluções estão postas: controle rigoroso de gastos, reformas tributária e administrativa, construção de um arcabouço fiscal crível, estímulo à produção e ao investimento produtivo, programas de qualificação e encaminhamento ao mercado de trabalho. Contudo, a prática política insiste no caminho oposto, priorizando medidas paliativas e populistas em detrimento da responsabilidade fiscal e soluções sérias.
Manter juros em patamares tão discrepantes do mercado internacional significa condenar o país a uma lenta erosão de sua competitividade global.
A médio e longo prazo, a economia brasileira corre o risco de estagnar, com níveis crescentes de desemprego, retração produtiva e dependência assistencial.
Em suma, enquanto o mundo busca equilíbrio entre estímulo ao emprego, geração de renda, consumo e produção para controle da inflação, o Brasil insiste em uma política de juros que aprisiona sua economia em um ciclo de estagnação e perda de relevância internacional.
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