Talvez Toquinho tenha traduzido o nosso tempo décadas antes de ele chegar. Em Aquarela, o futuro é retratado como uma espécie de nave difícil de conduzir — veloz, implacável e indiferente ao ritmo humano. A metáfora parece ainda mais atual hoje, pois enquanto tentamos compreender as mudanças do presente, o amanhã já acelera diante dos nossos olhos, sem pedir licença e sem esperar que estejamos prontos.
A velocidade assustadora das mudanças que transformaram nossa vida — e o futuro, que talvez ainda não estejamos prontos para compreender, não espera nem é complacente.
Há uma geração inteira que ainda consegue sentir o cheiro do álcool do mimeógrafo antes mesmo da prova começar. O papel ainda úmido chegava às mãos enquanto a professora distribuía as folhas recém-impressas, como se aquilo fosse um ritual silencioso entre ansiedade e aprendizado. Quem viveu sabe: o cheiro do mimeógrafo não era apenas tinta, era infância, expectativa e memória.
Hoje, uma criança dificilmente saberia explicar o que foi um mimeógrafo, assim como talvez não compreenda o significado de um disquete, fita VHS, papel carbono, máquina de escrever, secretária eletrônica, lista telefônica ou mesmo o indefectível orelhão, aquele companheiro das ligações urgentes e dos bolsos cheios de fichas telefônicas.
A verdade é que vivemos uma era em que objetos, hábitos e até profissões desaparecem quase sem aviso prévio, substituídos com a mesma rapidez com que aplicativos são atualizados. Não houve um “último dia oficial” do fax, nenhuma despedida nacional ao cheque, nenhuma homenagem pública ao balconista da locadora que recomendava filmes melhor do que qualquer algoritmo. Apenas aconteceu. E quando percebemos, já estávamos pagando pastel na feira com Pix, QR Code ou cartão por aproximação. O drama de décadas — “o senhor tem troco?” — praticamente desapareceu. O medo mudou, antes era faltar moedas; hoje é a internet cair.
Mudou a forma de consumir, trabalhar, estudar e até lembrar. Viajar com três filmes fotográficos de 36 poses era quase símbolo de prosperidade. Cada fotografia precisava valer a pena, porque errar custava dinheiro. Hoje, um almoço qualquer gera mais imagens do que uma viagem inteira dos anos 1990. As fotografias deixaram os álbuns de couro e passaram a habitar nuvens digitais invisíveis. Fotografamos tudo, armazenamos tudo, mas talvez lembremos menos. Registramos compulsivamente e vivemos distraidamente.
O conhecimento também sofreu mutação radical. Enciclopédias que ocupavam salas inteiras deram espaço ao Google, à Wikipédia e agora às inteligências artificiais. A resposta, antes fruto de horas de leitura e pesquisa, passou a caber em poucos segundos. Ganhamos velocidade, embora talvez tenhamos perdido parte da paciência para aprender. O mesmo aconteceu com jornais e revistas impressas, outrora protagonistas das manhãs e dos finais de semana, hoje substituídos por notificações instantâneas e vídeos curtos que disputam atenção em telas cada vez menores.
A música não escapou dessa transformação. Houve um tempo em que sucesso artístico significava vender milhões de discos e conquistar discos certificados de ouro ou platina. Hoje, o streaming substituiu as prateleiras, os CDs praticamente desapareceram dos carros e a indústria percebeu que o verdadeiro ouro está nos shows, experiências presenciais e monetização digital. Até o rádio mudou: o velho locutor, antes dono da voz da cidade, do anúncio das horas, divide espaço com podcasts, playlists personalizadas e algoritmos que conhecem nossas preferências musicais melhor do que nós mesmos.
Talvez nenhuma revolução, contudo, tenha sido tão silenciosa e profunda quanto a das comunicações. O orelhão tornou-se peça decorativa urbana, a telefonia fixa residencial agoniza e os números de telefone, antes decorados na memória, passaram a viver armazenados na nuvem. Com internet via satélite, como a expandida por empresas ligadas a Elon Musk, praticamente não existem mais regiões isoladas. O planeta ficou menor. Em compensação, perdemos algo precioso: o direito à desconexão. Antes, sair de casa significava ficar temporariamente fora do alcance do mundo; hoje, algumas horas sem responder mensagens já despertam preocupação, ansiedade ou estranhamento.
Essa transformação atingiu inclusive a política. Campanhas eleitorais deixaram de depender exclusivamente de palanques, comícios, santinhos e horário eleitoral. Hoje, disputam-se votos por meio de vídeos curtos, impulsionamentos, memes e estratégias digitais. Um celular, uma câmera e um algoritmo podem ter mais impacto do que estruturas partidárias milionárias. As redes sociais democratizaram vozes, mas também ampliaram radicalismos, fake news e julgamentos instantâneos. A praça pública tornou-se digital — e nela todos falam ao mesmo tempo.
No Judiciário, talvez esteja um dos exemplos mais claros de como a tecnologia pode efetivamente melhorar a vida das pessoas. Poucos anos atrás, advogados enfrentavam filas em fóruns, realizavam carga física de autos, transportavam pilhas de processos e conviviam com um problema hoje quase inimaginável: o desaparecimento de autos processuais, muitas vezes seguido da traumática reconstituição processual. Peticionar significava deslocamentos físicos, carimbos, autenticações, custos postais e demora. Hoje, os sistemas eletrônicos aproximaram a Justiça do cidadão, aumentaram a celeridade, fortaleceram a segurança documental e eliminaram práticas que pareciam imutáveis. Não há mais carga de processo em secretaria, desaparecimento de volumes ou dependência do papel como antes.
Hoje, o advogado rompeu as fronteiras físicas da profissão. Sem sair do escritório em Goiânia, peticiona em processos que tramitam na Bahia, atende um cliente no Rio Grande do Sul, realiza sustentação oral telepresencial em São Paulo e despacha virtualmente com um Ministro do STJ, em Brasília. O que antes exigia aeroportos, pilhas de papel e dias de deslocamento, agora acontece entre uma audiência e outra, diante de uma tela.
As comunicações com o Poder Público e grandes empresas também passaram por uma revolução silenciosa. O que antes dependia de cartas registradas, Aviso de Recebimento (AR), longos prazos, passivos ambientais e altos custos, hoje é realizado em segundos por sistemas digitais como o Domicílio Judicial Eletrônico (DJE) e o Domicílio Eletrônico Tributário (DET), que transformaram profundamente a relação institucional entre empresas, contribuintes e administração pública. Custos diminuíram, a eficiência aumentou e o papel perdeu protagonismo.
Aliás, talvez o papel seja um dos grandes derrotados dessa transformação. O papel carbono virou peça de museu, convites migraram para aplicativos, comprovantes impressos parecem desnecessários e até a assinatura ganhou forma digital. O mundo se desmaterializou.
Mas há algo curioso nisso tudo, pois cada geração acredita ter vivido a maior transformação da história. Talvez nossos avós tenham pensado isso quando viram a televisão chegar.
Talvez nossos pais tenham sentido o mesmo diante dos computadores. A diferença é que, desta vez, talvez estejamos diante de algo qualitativamente distinto. Porque tudo o que vivemos até aqui — o fim do mimeógrafo, do fax, do cheque, do VHS, das locadoras, do papel carbono, do orelhão e da burocracia analógica — pode parecer brincadeira de criança diante do que está por vir.
A inteligência artificial já escreve textos, cria imagens, revisa contratos, traduz idiomas, produz campanhas publicitárias, desenvolve softwares, realiza atendimentos, diagnostica doenças e começa, silenciosamente, a substituir trabalhadores e redefinir profissões inteiras. Empregos desaparecem, outros surgem e muitos talvez sequer tenham sido imaginados ainda. Ninguém consegue prever, com honestidade intelectual, onde estão os limites dessa revolução — nem Elon Musk, nem governos, nem cientistas, nem as maiores empresas do planeta.
Por isso, a nostalgia é bonita e necessária. Lembrar do cheiro do mimeógrafo, da fita VHS sendo rebobinada, da máquina de escrever ou das ligações rápidas no orelhão possui um valor quase afetivo, quase humano. Mas há um alerta inevitável escondido nessas memórias, se não pararmos para observar, compreender, aceitar e aprender a viver as mudanças, correremos o risco de ficar parados no tempo, incapazes de entender o presente
e completamente despreparados para acompanhar o futuro.
E o futuro, ao que tudo indica, já começou.














