O Brasil detém a segunda maior área florestal do planeta e uma das mais ricas biodiversidades conhecidas, mas ainda transforma insuficientemente esse patrimônio em conservação, conhecimento, segurança ambiental e desenvolvimento sustentável.
Nesta sexta-feira, 17 de julho, celebrou-se o Dia de Proteção às Florestas, também conhecido como Dia da Floresta. A data foi instituída como instrumento de conscientização sobre a importância da preservação dos ecossistemas florestais, da biodiversidade, dos recursos hídricos e do equilíbrio climático. A celebração também homenageia o Curupira, personagem do folclore brasileiro tradicionalmente reconhecido como guardião das matas e protetor dos animais contra caçadores e exploradores. Segundo o Senado Federal, o objetivo da data é chamar a atenção para os riscos que ameaçam ecossistemas essenciais ao equilíbrio do planeta.
Todavia, para além do simbolismo, há pouco a comemorar.
O Brasil possui a segunda maior área florestal do mundo, atrás apenas da Rússia. A publicação Florestas do Brasil em Resumo 2010, do Serviço Florestal Brasileiro, já estimava aproximadamente 516 milhões de hectares de florestas naturais e plantadas, correspondentes, à época, a mais de 60% do território nacional. A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, estende-se por nove países, mas tem mais de 60% de sua área localizada em território brasileiro.
Não por acaso, o País desperta a atenção permanente da comunidade internacional. A Amazônia é popularmente chamada de “pulmão do mundo” — expressão cientificamente simplificadora, mas simbolicamente reveladora da dimensão global de nosso patrimônio ambiental. O Brasil concentra biodiversidade, água, carbono armazenado, conhecimento genético, espécies vegetais e animais e possibilidades econômicas que poucas nações possuem.
Temos, portanto, muito verde. O que nos falta é iniciativa, planejamento, continuidade administrativa e competência para transformar esse patrimônio em proteção efetiva e desenvolvimento sustentável.
Durante muito tempo, o debate ambiental foi apresentado de forma equivocada, como se existisse incompatibilidade absoluta entre preservação e desenvolvimento econômico. O mundo já demonstrou que ocorre justamente o contrário: florestas preservadas, quando submetidas a manejo responsável, pesquisa científica, inventário, certificação e monitoramento, podem gerar emprego, renda, tecnologia e financiamento.
Há recursos internacionais disponíveis para recuperação de áreas degradadas, preservação da biodiversidade, pesquisa, manejo florestal sustentável, prevenção de incêndios, pagamento por serviços ambientais e redução das emissões de gases de efeito estufa. Entretanto, recursos dessa natureza não são destinados apenas a quem possui árvores. Exigem projetos tecnicamente estruturados, governança, inventário de emissões, segurança jurídica, metas verificáveis, indicadores, mecanismos de controle e capacidade de demonstrar resultados.
É exatamente nesse ponto que o Brasil, os estados e muitos municípios fracassam. Perdem-se oportunidades potencialmente milionárias porque não se concluem inventários, não se regularizam áreas, não se elaboram projetos viáveis e não se assegura continuidade às iniciativas formuladas. O dinheiro internacional não remunera discurso ambiental, fotografia de árvore ou promessa administrativa. Remunera resultados mensuráveis, rastreáveis e certificados.
Enquanto faltam projetos, sobram queimadas, desmatamento, extração ilegal e degradação. Mesmo com a redução registrada nos últimos anos, o sistema Prodes estimou, somente no ciclo de 2025, a supressão de 5.796 km² de vegetação na Amazônia e de 7.235 km² no Cerrado. São milhares de quilômetros quadrados perdidos em apenas um ano. E quando a floresta desaparece, não desaparecem somente árvores. Perdem-se fauna, nascentes, solo, material genético, equilíbrio climático e possibilidades econômicas que sequer chegaram a ser conhecidas. Os dados foram divulgados pelo Governo Federal com base no monitoramento do INPE.
Não é preciso ir até a Amazônia. Não precisamos percorrer milhares de quilômetros para constatar nossa dificuldade em proteger o patrimônio verde. Às margens de Goiânia encontra-se o Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco, uma das mais importantes unidades de conservação da região metropolitana. Ano após ano, especialmente durante o período de estiagem, o parque volta a conviver com o risco de incêndios. Em 2025, a própria Secretaria de Estado de Meio Ambiente realizou a abertura de aproximadamente 13 quilômetros de aceiros no local, reconhecendo a necessidade de prevenção permanente contra o fogo.
A existência de ações preventivas deve ser reconhecida, mas não elimina a crítica central. O combate às queimadas não pode depender de providências sazonais, adotadas às vésperas do período crítico. A recorrência do risco exige planejamento anual, monitoramento tecnológico, brigada permanente, manutenção de aceiros, educação ambiental, fiscalização e responsabilização.
Dentro de Goiânia, a situação também exige reflexão. O Bosque dos Buritis, o Parque Areião e o Jardim Botânico representam parte relevante da identidade ambiental da cidade. Entretanto, essas áreas ainda não estão plenamente integradas a projetos permanentes de pesquisa, educação ambiental, turismo, conservação da fauna, monitoramento arbóreo e geração de receitas sustentáveis. Problemas relacionados ao lixo, às queimadas, à degradação, à manutenção irregular e à pressão urbana reaparecem continuamente.
Parques não podem ser tratados apenas como locais de passeio ou espaços disponíveis para intervenções esporádicas. Constituem infraestrutura ambiental urbana. Reduzem ilhas de calor, absorvem carbono, protegem nascentes, favorecem a drenagem, abrigam fauna, melhoram a qualidade do ar e contribuem diretamente para a saúde da população.
Árvores também cumprem um ciclo de vida. Goiânia possui um dos maiores patrimônios de arborização urbana do Brasil. Estudos municipais mais antigos já apontavam cerca de 950 mil árvores plantadas em vias públicas, e estimativas recentes indicam que esse conjunto supera um milhão de exemplares distribuídos entre ruas, praças, parques e bosques. Contudo, possuir muitas árvores não significa administrá-las corretamente.
Parte expressiva da arborização goianiense está envelhecida, inadequadamente posicionada ou submetida a condições urbanas desfavoráveis. Há árvores em fim de ciclo, espécies incompatíveis com calçadas e redes elétricas, raízes comprometidas, troncos ocos e exemplares que representam risco concreto à vida e ao patrimônio.
A discussão pública, entretanto, permanece frequentemente rasa. Toda substituição é tratada como devastação e toda retirada tecnicamente indicada é apresentada como ataque ao meio ambiente. Essa compreensão ignora uma premissa elementar: a árvore é um ser vivo. Nasce, cresce, desenvolve-se, reproduz-se, adoece, envelhece e morre.
Preservar a arborização não significa manter indefinidamente cada árvore, independentemente de sua condição. Significa inventariar, monitorar, tratar, podar adequadamente, substituir quando necessário e replantar de forma planejada. A retirada tecnicamente fundamentada de um exemplar condenado, acompanhada da reposição adequada, não constitui inimiga da preservação. É parte da própria gestão responsável da floresta urbana.
Em 2022, Goiânia chegou a estruturar o denominado Projeto Voluntário de Créditos de Carbono das Florestas Urbanas do Município, vinculado a um programa de gestão de emissões. A iniciativa representava a possibilidade de inventariar o patrimônio ambiental da capital, mensurar o carbono armazenado, certificar resultados e inserir as áreas verdes municipais no mercado voluntário de carbono. O documento de mobilização e planejamento foi publicado pela Prefeitura em junho de 2022.
Contudo, não foram localizados resultados públicos proporcionais à proposta originalmente apresentada: créditos certificados, receitas obtidas, áreas registradas ou investimentos financiados pelo programa. Em novembro de 2025, a Câmara Municipal voltou a discutir a criação de um programa municipal de créditos de carbono associado ao chamado “ISS Neutro”, registrando, na justificativa da proposta, a inexistência, naquele momento, das atividades que se pretendia incentivar. A própria discussão legislativa demonstra que o potencial continuava sem conversão efetiva em política econômica estruturada.
Enquanto projetos permanecem no papel, a cidade deixa de gerar recursos que poderiam ser reinvestidos na recuperação de parques, substituição planejada de árvores, implantação de novos espaços verdes, pesquisa, educação ambiental, prevenção de incêndios e manutenção do patrimônio arbóreo.
Crédito de carbono não nasce simplesmente porque há árvores. Exige metodologia, adicionalidade, mensuração, verificação, permanência, governança e transparência. Sem inventário e projeto, a floresta permanece ambientalmente valiosa, mas economicamente invisível.
O Dia da Floresta não deve servir apenas para homenagens protocolares, campanhas publicitárias ou fotografias diante de árvores centenárias. A data precisa provocar uma pergunta incômoda: o que estamos efetivamente fazendo com o maior patrimônio ambiental que recebemos?
O Brasil ainda perde florestas, biodiversidade e oportunidades econômicas. Goiás ainda convive com incêndios recorrentes em suas unidades de conservação. Goiânia, embora reconhecida por sua arborização, ainda carece de inventário atualizado, manejo contínuo, integração dos parques e estruturação efetiva de projetos de financiamento climático.
Não falta floresta. Não falta mercado. Não falta interesse internacional. Não falta tecnologia. Faltam projetos consistentes, capacidade técnica, continuidade administrativa e decisão política.
Portanto, o Dia da Floresta deve ser menos comemorativo e mais reflexivo. O verde brasileiro não pode continuar sendo apenas motivo de orgulho abstrato. Deve ser protegido, estudado, manejado e convertido em qualidade de vida, conhecimento e financiamento para sua própria preservação.
Temos muito verde. O que ainda nos falta é iniciativa.













