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O jantar e o fantasma de 2018

O Judiciário não precisa apenas ser imparcial. Precisa preservar perante a sociedade a aparência objetiva de independência


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 07/08/2026 - 07:28

jantar Lula e Alcolumbre

Há encontros políticos que dizem mais pelo local, pelos participantes e pelo momento em que acontecem do que pelo conteúdo oficialmente divulgado. O jantar realizado na residência do ministro Alexandre de Moraes, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, reunindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o próprio Moraes e o ministro Cristiano Zanin pertence exatamente a essa categoria.

Depois de meses de distanciamento entre Lula e Alcolumbre, a reconstrução dessa interlocução ocorreu não no Palácio do Planalto, no Congresso Nacional ou em qualquer ambiente institucional próprio ao diálogo entre Executivo e Legislativo, mas na residência de um ministro do STF.

E talvez esse seja o aspecto mais revelador do episódio, pois demonstra que Brasília parece ter perdido até mesmo o constrangimento com determinadas aproximações.

Não há, evidentemente, qualquer ilegalidade presumível no fato de autoridades jantarem juntas. O problema é institucional. Por que a reconciliação política entre o presidente da República e o presidente do Senado necessita da intermediação informal de integrantes da Suprema Corte?

O Judiciário não precisa apenas ser imparcial. Precisa preservar perante a sociedade a aparência objetiva de independência. Afinal, os mesmos ministros que participam dessas articulações poderão amanhã julgar questões envolvendo diretamente o Executivo, o Congresso e seus principais dirigentes. É exatamente essa fronteira que parece cada vez mais tênue.

O encontro ocorre, ademais, em momento particularmente sensível para seus protagonistas. Lula enfrenta o desgaste produzido por controvérsias e investigações que alcançam pessoas de seu entorno político, com notícias envolvendo Lulinha e personagens próximos ao Palácio do Planalto. Davi Alcolumbre tenta reorganizar sua posição depois do embate com o governo em torno da indicação de Jorge Messias ao STF e, sobretudo, em um ambiente no qual as emendas parlamentares permanecem sob intensa fiscalização e sucessivas decisões do ministro Flávio Dino.

Alexandre de Moraes, por sua vez, convive com questionamentos decorrentes das revelações sobre o Banco Master e o contrato celebrado pela instituição financeira de Daniel Vorcaro com o escritório de advocacia de sua esposa.

É necessário registrar que a existência do contrato, por si só, não comprova qualquer ilícito praticado pelo ministro. Tampouco há demonstração pública de que esses assuntos tenham integrado a conversa do jantar. Transformar especulação em fato seria irresponsável.

Mas política também é percepção. E a percepção produzida é desconfortável: três personagens centrais da República, cada qual submetido a diferentes pressões políticas ou institucionais, encontram-se privadamente justamente quando interesses relevantes exigem recomposição, estabilidade e redução de conflitos.

Nesse contexto surge uma especulação inevitável nos bastidores de Brasília: independentemente das diferenças existentes entre eles, a preservação do atual equilíbrio de poder pode interessar aos três. Não porque exista prova de algum pacto, mas porque uma alternância profunda no Executivo sempre reorganiza relações, prioridades, investigações, alianças parlamentares e centros de influência.

O jantar, portanto, pode ter sido apenas uma tentativa de reconstrução institucional. Mas sua fotografia política é muito maior. Principalmente para o Supremo.

Há alguns anos o STF vem deixando de ser percebido exclusivamente como tribunal constitucional para ocupar espaço cada vez maior no cotidiano da política. Seus ministros arbitram questões parlamentares, eleitorais e administrativas de enorme repercussão e tornaram-se personagens permanentes do debate público.

Quando integrantes dessa mesma Corte passam a atuar informalmente como pontes entre Executivo e Legislativo, o problema deixa de ser jurídico e passa a ser institucional. Quanto maior a proximidade política percebida, maior a dificuldade futura de convencer a sociedade de que decisões envolvendo aqueles mesmos atores decorrem exclusivamente da Constituição e das leis.

Enquanto Brasília janta, porém, a oposição parece estar escolhendo outro caminho para 2026. A definição do deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro talvez seja uma das decisões mais reveladoras sobre a estratégia eleitoral do PL.

Gaspar não foi escolhido apenas por pertencer ao partido ou por sua trajetória na segurança pública. Foi relator da CPMI do INSS e acumulou, durante meses, enorme quantidade de documentos, depoimentos e informações relacionados a um dos temas potencialmente mais explosivos da campanha, a corrupção.

A escolha consolidou uma chapa puro-sangue depois das dificuldades de composição com outros partidos e ocorreu mesmo diante de críticas internas sobre a conveniência de indicar uma mulher para tentar reduzir a resistência existente entre parte do eleitorado feminino. O próprio material reunido nos bastidores da semana evidencia essa controvérsia e a centralidade atribuída à passagem de Gaspar pela CPMI.

A decisão parece revelar uma aposta. O PL aparentemente acredita que a eleição presidencial poderá ser deslocada para o terreno da corrupção. Se essa leitura estiver correta, Alfredo Gaspar poderá exercer função muito diferente daquela normalmente reservada aos candidatos a vice. Poderá transformar-se em uma espécie de operador temático da campanha, utilizando politicamente o conhecimento e o acervo informacional acumulados durante a CPMI do INSS.

Há, naturalmente, uma vulnerabilidade nessa escolha. Gaspar também enfrenta grave acusação apresentada em notícia-crime, que nega integralmente, afirmando possuir elementos capazes de afastá-la. O tema certamente será explorado pelos adversários. O material encaminhado registra tanto a acusação quanto a negativa do parlamentar. Ainda assim, a mensagem política da escolha permanece.

Flávio Bolsonaro poderia procurar um vice destinado a ampliar regionalmente sua candidatura, agregar outro partido ou enfrentar especificamente sua rejeição entre mulheres. Preferiu um parlamentar identificado nacionalmente com uma comissão parlamentar de investigação.

Isso dificilmente é casual. E essa opção pode produzir consequências para outra candidatura: a de Ronaldo Caiado.

O governador de Goiás construiu seu principal ativo nacional em torno da segurança pública. Depois de oito anos de governo, é nesse terreno que possui resultados concretos para apresentar e onde consegue estabelecer diferenciação mais clara em relação aos adversários. Caiado não tem razão para temer o debate sobre corrupção. O problema é outro, eleitoralmente, interessa-lhe que segurança pública permaneça entre os assuntos centrais da campanha.

Se o PL conseguir deslocar a eleição para o eixo corrupção, INSS, relações empresariais com o poder, emendas parlamentares e eventuais investigações envolvendo pessoas próximas ao governo, Flávio Bolsonaro passará a disputar exatamente o espaço de oposição que Caiado também pretende ocupar, porém utilizando uma pauta na qual escolheu para vice justamente o ex-relator da CPMI.

Nesse cenário, a dificuldade de Caiado será fazer prevalecer o tema em que possui sua maior vantagem comparativa. Mas a consequência mais importante dessa estratégia recai sobre Lula e o PT. A eleição de 2026 começa a apresentar um elemento conhecido.

Em 2018, a corrupção não era apenas mais um assunto da campanha. Depois de anos de Lava Jato, prisões, delações e escândalos, havia se transformado em ambiente político. O antipetismo encontrou ali combustível decisivo para a derrota da esquerda. O Brasil de 2026 evidentemente não é o Brasil de 2018. Bolsonaro já não representa novidade política, a Lava Jato perdeu a centralidade institucional daquele período e o eleitor atravessou experiências suficientes para desenvolver desconfiança em relação a praticamente todos os grupos políticos.

Mas campanhas eleitorais não precisam reproduzir fatos históricos. Basta conseguirem reconstruir sensações. É justamente esse o risco para o PT. Se a oposição conseguir reunir episódios distintos — INSS, controvérsias envolvendo pessoas próximas ao governo, Banco Master, emendas parlamentares e suspeitas sobre relações entre poder político e interesses privados — dentro de uma única narrativa sobre corrupção e deterioração institucional, poderá tentar reconstruir parte do ambiente eleitoral de 2018.

Ainda não é possível afirmar que corrupção tenha superado economia, saúde ou segurança pública entre as maiores preocupações do eleitor brasileiro. O que parece existir é uma estratégia para fazer com que isso aconteça durante a campanha. E é precisamente nesse ponto que o jantar na casa de Alexandre de Moraes e a escolha de Alfredo Gaspar acabam politicamente conectados.

Enquanto os principais personagens de Brasília procuram reconstruir pontes e estabilizar relações, a oposição prepara uma campanha que poderá questionar exatamente a excessiva proximidade entre poder político, instituições e interesses privados. De um lado, articulação. Do outro, narrativa. Por isso o jantar pode custar politicamente muito mais do que seus participantes imaginam.

Para Lula, porque oferece à oposição uma imagem poderosa de aproximação com personagens centrais do Congresso e do Supremo. Para Alcolumbre, porque ocorre justamente quando as emendas parlamentares estão submetidas a intenso escrutínio judicial. E para Alexandre de Moraes — talvez sobretudo para ele — porque reforça uma questão que acompanha o STF há algum tempo: até que ponto ministros de uma Corte constitucional podem participar do ambiente político sem comprometer a percepção pública de sua independência?

Não se questiona o direito de conversar. Questiona-se a conveniência institucional. O Supremo será chamado durante a campanha e depois dela a decidir questões extremamente sensíveis envolvendo governo, Congresso, partidos, candidatos e autoridades. Sua força não está apenas na Constituição, mas na confiança social de que atua acima das disputas que julga.

Essa confiança começa a sofrer quando o árbitro passa a ser visto frequentando o vestiário dos jogadores. Brasília parece entrar na eleição de 2026 com uma curiosa inversão. Enquanto parte do establishment político trabalha pela estabilidade, a oposição aposta na indignação. Enquanto Lula tenta reconstruir pontes, Flávio Bolsonaro escolhe como vice um ex-relator de CPMI. Enquanto Caiado pretende discutir segurança pública, o PL parece querer discutir corrupção.

E, no meio desse tabuleiro, está novamente o STF.

Se corrupção realmente se transformar no grande eixo eleitoral, Lula enfrentará um fantasma conhecido; Flávio Bolsonaro tentará recuperar a atmosfera política que favoreceu seu campo em 2018; Caiado precisará impedir que seu principal ativo eleitoral seja empurrado para segundo plano.

E o Supremo terá talvez a tarefa mais difícil de todas, a de convencer o país de que continua sendo apenas o árbitro de uma partida cujos principais jogadores, vez ou outra, são convidados para jantar na casa de seus ministros. Em política, alguns jantares terminam quando os convidados deixam a mesa.

Outros começam a produzir seus efeitos exatamente no dia seguinte.

Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: [email protected].

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