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O palanque e o país

A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro inaugura oficialmente uma nova etapa da reorganização da direita brasileira


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 31/07/2026 - 09:49

eleições
A utilização de um vídeo criado por inteligência artificial para representar Jair Bolsonaro também reforça essa sensação de transição incompleta (Reprodução redes sociais)

A oficialização da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República para as eleições de 2026 era um movimento aguardado por quem acompanha a reorganização da direita brasileira. O que poucos esperavam, entretanto, é que o fato político mais comentado da convenção não fosse propriamente o lançamento da candidatura, mas aquilo que ocorreu ao seu redor: a ausência de Michelle Bolsonaro e a utilização de um vídeo produzido por inteligência artificial simulando a participação de Jair Bolsonaro.

Na política, gestos costumam falar mais alto do que discursos. A ausência de Michelle Bolsonaro em um evento dessa magnitude dificilmente pode ser tratada como um detalhe protocolar. Ainda que explicações oficiais possam ser apresentadas, o simbolismo é inevitável. Em um grupo político que sempre cultivou a imagem de unidade familiar como elemento central de sua identidade, a cadeira vazia produz um efeito político imediato: alimenta a percepção de que existem divergências internas sobre o futuro da liderança do movimento conservador.

Há muito tempo circulam especulações acerca da sucessão do espólio eleitoral de Jair Bolsonaro. Michelle Bolsonaro consolidou-se como uma liderança nacional, ampliou sua popularidade junto ao eleitorado feminino e passou a ser vista por parcela significativa da direita como uma candidata potencialmente mais competitiva em determinadas circunstâncias. Flávio Bolsonaro, por sua vez, representa a continuidade política mais direta do projeto iniciado pelo pai. Quando um evento destinado a demonstrar força acaba evidenciando a ausência da principal figura feminina do grupo, inevitavelmente surgem questionamentos sobre o grau de consenso existente dentro do próprio núcleo familiar.

A utilização de um vídeo criado por inteligência artificial para representar Jair Bolsonaro também reforça essa sensação de transição incompleta. A tecnologia permitiu que sua imagem permanecesse presente, mas ao mesmo tempo evidenciou uma realidade política incontornável: nenhum recurso tecnológico substitui a presença física e o protagonismo de um líder que, durante anos, concentrou em torno de si a identidade de um campo político inteiro.

O efeito visual impressiona, mas também simboliza uma direita que procura reorganizar sua liderança sem a figura que lhe conferia unidade.

Independentemente das disputas internas, um fato parece consolidado. A partir do lançamento da pré-candidatura, o cenário eleitoral brasileiro começa a reassumir sua configuração mais previsível: a polarização entre esquerda e direita. Antes mesmo do início oficial do processo eleitoral, o debate político tende novamente a concentrar-se na disputa ideológica, reproduzindo um modelo que domina a vida pública brasileira há quase uma década.

O problema é que essa antecipação permanente da campanha eleitoral produz um custo elevado para o país. Enquanto lideranças organizam convenções, disputam narrativas e testam posicionamentos para uma eleição ainda distante, o Brasil enfrenta desafios imediatos que exigem coordenação institucional, planejamento econômico e capacidade diplomática.

Entre esses desafios destacam-se as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, medida que afeta diretamente setores produtivos, reduz competitividade internacional, compromete investimentos e repercute sobre empregos e crescimento econômico. Trata-se de uma questão que transcende preferências partidárias e deveria mobilizar esforços conjuntos do governo, da oposição, do setor produtivo e do Congresso Nacional.

Entretanto, como tantas vezes ocorreu na história recente, os problemas concretos acabam cedendo espaço ao espetáculo político. A discussão pública passa a girar em torno das ausências em uma convenção, das mensagens implícitas, das disputas familiares e das estratégias eleitorais, enquanto temas estruturais permanecem relegados a um segundo plano.

Isso não significa que a sucessão presidencial seja irrelevante. Ao contrário. A definição das lideranças políticas influencia diretamente os rumos do país. O risco está em transformar cada movimento partidário em um fim em si mesmo, reduzindo o debate nacional à lógica da disputa permanente pelo poder.

A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro inaugura oficialmente uma nova etapa da reorganização da direita brasileira. A ausência de Michelle Bolsonaro, porém, sugere que esse processo talvez esteja longe de alcançar a unidade que seus organizadores pretendiam demonstrar. Ao mesmo tempo, a esquerda também se prepara para defender seu espaço político, consolidando um cenário de confronto que tende a dominar os próximos meses.

Enquanto isso, os desafios econômicos, fiscais, comerciais e sociais continuam exigindo respostas imediatas. O país parece novamente caminhar para uma longa campanha eleitoral iniciada muito antes do calendário oficial. E, como tantas vezes ocorreu, existe o risco de que a política passe a discutir prioritariamente quem ocupará o Palácio do Planalto em 2027, quando talvez a pergunta mais urgente seja outra: quem está efetivamente governando e enfrentando os problemas do Brasil hoje?

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Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: [email protected].

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