Um estudo do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás (TCM-GO) estima que serão necessários R$ 2,179 bilhões para eliminar a fila de espera por vagas em creches e pré-escolas no estado. O montante é o custo calculado para a construção de 396 novas unidades e a ampliação de outras 23, necessárias para atender 45.976 crianças de 0 a 5 anos e 11 meses que aguardam uma vaga, segundo dados autodeclarados por 109 municípios ao Ministério da Educação (MEC) até agosto de 2024.
A minuta do TCM-GO, elaborada pelo Ministério Público de Contas e pela Coordenadoria de Educação (Coeduc), detalha a crise. Os quatro municípios com maior demanda – Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis e Santo Antônio do Descoberto – concentram 55,3% do custo total estimado. O cálculo foi baseado nos valores de referência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para 2025 e nos modelos de construção do Programa Proinfância.
O documento alerta para as limitações do estudo, que não considera a distribuição geográfica das crianças nem unidades já em construção. Ainda assim, a estimativa evidencia a dimensão do investimento público necessário para universalizar o acesso à educação infantil, uma obrigação constitucional dos municípios.
Debate no Legislativo enfatiza dificuldade na manutenção
A cifra bilionária e os obstáculos para viabilizá-la foram tema de audiência pública na Assembleia Legislativa de Goiás, promovida pela deputada Bia de Lima (PT). A parlamentar, que também preside o Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sintego), destacou que a solução vai além da construção de prédios.
“Não pode ser só a vaga, estamos falando de oportunidades para essas crianças”, afirmou a deputada. “O mais fácil é a construção da creche, o difícil é a manutenção dessa infraestrutura dentro do orçamento de cada município.”
A secretária de Estado da Educação, Fátima Gavioli, reconheceu a insuficiência do Fundo Estadual de Educação Infantil, criado em 2017. “O fundo é pequeno e limitado”, disse. Ela fez um apelo direto aos deputados: “A minha sugestão é de que haja um consenso entre os parlamentares, para que seja enviado um percentual fixo, por cerca de três anos, para a infraestrutura da Educação Infantil”.
Fabrício Motta, conselheiro do TCM-GO, chamou atenção para a subnotificação do problema. “Nós não temos a cultura das crianças em creches, muitas famílias, inclusive, desconhecem esse direito, por isso, a demanda tende a ser muito maior”, ressaltou.
Alessandra Gotti, coordenadora do Gabinete de Articulação para a Educação (Gaepe-GO), defendeu a corresponsabilidade entre os entes federados. “As crianças pobres não estão na creche, o berço da igualdade está na desigualdade do berço. O tempo das crianças é hoje e não pode ser garantido em outra etapa educacional”, concluiu.
Deputada mobiliza parlamento por destino fixo de emendas para creches
A deputada estadual Bia de Lima (PT) iniciou uma ofensiva no Legislativo para canalizar recursos via emendas parlamentares diretamente para a educação infantil, diante do cenário bilionário necessário para sanar o déficit de vagas. A petista, que preside a Comissão de Educação da Alego, articula um acordo entre os pares para que um percentual fixo das emendas individuais seja destinado à construção e manutenção de creches nos próximos três anos, partindo do seu próprio exemplo, já que destina 100% de suas próprias emendas para a área.
A estratégia conta com duas frentes: a técnica, com um levantamento inédito solicitado à Undime-GO para identificar municípios sem nenhuma vaga em creche e direcionar recursos de forma prioritária; e a política e social, conclamando prefeitos, gestores e a população a enviarem cartas e abaixo-assinados para pressionar os deputados a aderirem ao pacto. O plano busca transformar o montante total de emendas da Alego, de R$ 520 milhões, em uma força-tarefa financeira coordenada para converter o diagnóstico do TCM-GO em ação concreta, com uma nova reunião prevista para dar continuidade à articulação.
De resíduo a tecido: estudante de Goiás transforma bagaço de cana em ‘seda sustentável’
O que para muitos é apenas um resíduo descartado após o preparo de um caldo de cana, para o estudante Thiago Alves dos Santos, de 17 anos, se tornou a matéria-prima para uma inovação promissora. Aluno do Centro de Ensino em Período Integral (Cepi) Osvaldo da Costa Meireles, Thiago desenvolveu um tecido sustentável a partir do bagaço da cana-de-açúcar. O projeto, que alia baixo custo e consciência ambiental, foi selecionado para representar Goiás na II Feira de Bioinovação Territórios do Brasil (FBioT Brasil), em Uruçuca, Bahia, no final de novembro.
A ideia surgiu em sala de aula, durante a eletiva de Biotecnologia, sob a orientação da professora Gabrielle Rosa Silva. “O Thiago trouxe a inquietação de transformar um passivo ambiental em algo de valor. O bagaço da cana, abundante em nossa região, muitas vezes é descartado de forma inadequada. Nosso desafio foi dar uma destinação nobre a esse material”, conta a professora.
O processo de criação é um exemplo de química verde aplicada. Tudo começa com a coleta do bagaço, que passa por uma rigorosa higienização, secagem e trituração. A etapa crucial é a extração da celulose: o material é submetido a uma solução de água e soda cáustica, mantida a 80ºC por três horas, para quebrar as fibras e liberar a celulose pura.
“Após a extração, neutralizamos o pH com vinagre, descartamos o líquido e ficamos com a celulose sólida. Como ela fica com uma coloração escura, realizamos um clareamento com água oxigenada antes de secá-la novamente”, detalha Gabrielle.
Do Béquer ao Tecido: Maciez e Resistência
A transformação da celulose em tecido é a etapa mais delicada. A pasta é dissolvida em uma mistura de água, soda cáustica e ureia, que é então resfriada a -10°C até se tornar uma solução viscosa. “É nesse ponto que a mágica acontece. A solução é manuseada para formar o filamento, que, após secar, se torna o tecido”, explica a orientadora.
O resultado surpreendeu pela qualidade. O material produzido possui toque macio, semelhante à seda, e uma aparência que lembra o algodão cru. Testes preliminares apontaram para uma boa absorção e resistência, além de o tecido ter se mostrado apto para receber tingimentos naturais, ampliando suas possibilidades de aplicação na moda sustentável.
Para o jovem cientista Thiago Alves, a experiência foi transformadora. “Ver uma ideia sair do papel e se tornar algo tangível é incrível. Saber que isso pode ajudar o meio ambiente e ainda representar nossa escola e nosso estado em uma feira nacional é uma honra sem igual”, comemora.
Ciência Cidadã e Futuro
A professora Gabrielle ressalta que o projeto vai além do prêmio ou da classificação para a feira. “Este trabalho é a materialização do que chamamos de ‘ciência cidadã’. Ele mostra para nossos estudantes que eles não precisam de laboratórios ultracomplexos para fazer a diferença. Com criatividade, método e um olhar apurado para os problemas ao nosso redor, é possível criar soluções reais e sustentáveis”, afirma.
O projeto do tecido de bagaço de cana será um dos expostos na II Feira de Bioinovação Territórios do Brasil, que ocorre de 27 a 30 de novembro, no Instituto Federal Baiano, Campus Uruçuca. A iniciativa coloca Goiás no mapa nacional das inovações em bioeconomia, provando que grandes ideias podem brotar em qualquer terreno, até mesmo a partir do que é descartado pela sociedade.















