A área que serviu de palco para a recente disputa política entre o deputado estadual Clécio Alves (PSDB) e o vereador Igor Franco (Podemos), em embate com a Prefeitura de Goiânia, é um dos ativos da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) sem uso operacional e em processo de reestruturação, segundo informou a própria companhia. A área, com cerca de 48 hectares, está localizada na GO-020, saída para Bela Vista de Goiás, em região conhecida como Fazenda Vau das Pombas.
O terreno já foi utilizado como estação de transbordo de lixo, mas a atividade foi interditada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) ainda durante a gestão do ex-prefeito Rogério Cruz (SD).
Sem destinação definida após o embargo ambiental e inserida em uma região de crescente valorização imobiliária, a área passa por avaliação imobiliária completa, ao custo de R$ 15 mil, realizada por dispensa de licitação, pela empresa SIMKADI Engenharia e Negócios Imobiliários Ltda., com o objetivo de atribuir valor técnico e de mercado ao imóvel.
Apesar do caráter técnico declarado, a medida ocorre após trâmite interno iniciado em outubro de 2025. A formalização se deu por meio da Portaria nº 74/2026, assinada pelo presidente da companhia, Cleber Aparecido Santos, e publicada no final de janeiro.
Nos bastidores, a avaliação imobiliária é vista como etapa comum em processos de reorganização patrimonial, podendo anteceder decisões sobre alienação, permuta, concessão de uso ou outras formas de destinação econômica de bens públicos, ainda que a portaria não trate diretamente de nenhuma dessas medidas.
Área interditada
Desde que foi interditada, em fevereiro de 2024, a área deixou de ter uso operacional para a Comurg e passou a ser utilizada para guarda de veículos fora de uso. No local, estão caminhões de coleta, ônibus e outros equipamentos da administração municipal classificados como inservíveis, muitos deles já destinados a descarte ou com impedimentos judiciais.
A situação motivou a entrada do deputado estadual Clécio Alves e do vereador Igor Franco no espaço, sob o argumento de fiscalização. Os parlamentares afirmam ter atuado dentro das prerrogativas do mandato e dizem ter encontrado veículos com potencial de uso parados no local.
Já a Companhia de Urbanização de Goiânia classificou a ação como invasão, alegando uso de estrutura da Assembleia Legislativa e coação a servidores, além de apontar a ausência de procedimento técnico de fiscalização. Segundo a companhia, a área passa por processo de encerramento das atividades no local após embargo ambiental.
Terreno tem porte para condomínio com 300 residências
A área de 48 hectares da Comurg, na GO-020, tem dimensão semelhante à de um loteamento aprovado pela Prefeitura de Goiânia na mesma Fazenda Vau das Pombas, conforme decreto publicado no Diário Oficial do Município da última quinta-feira (16), o que evidencia o potencial urbanístico do terreno.
Conforme projeto aprovado, o loteamento residencial denominado Citàge 01, da City Urbanismos, possui área total de cerca de 51 hectares. O projeto prevê 309 unidades imobiliárias, sendo 268 lotes residenciais e 41 comerciais, além de áreas destinadas a sistema viário, áreas verdes e preservação ambiental.
O empreendimento estabelece um padrão típico de expansão urbana na região, com aproximadamente 74% da área destinada ao parcelamento e o restante dividido entre áreas de preservação permanente, espaços públicos e infraestrutura viária. Também estão previstas obras de urbanização como pavimentação, drenagem, redes de água, esgoto e energia, com prazo de até quatro anos para implantação.
A proximidade territorial e a equivalência de escala permitem uma comparação direta com a área da Comurg. Embora nem toda a gleba pública seja integralmente aproveitável, devido a restrições ambientais e exigências legais, o parâmetro adotado no loteamento aprovado indica que o terreno pode comportar um projeto de porte semelhante, na faixa de 300 unidades.
Inserida em um dos principais vetores de expansão de Goiânia, ao longo da GO-020, a região da Fazenda Vau das Pombas vem concentrando novos empreendimentos voltados a condomínios fechados, com alto padrão urbanístico e infraestrutura completa.
Procurada pela Tribuna do Planalto nesta sexta-feira (17), a Comurg não respondeu sobre os planos para utilização futura da área da Fazenda Vau das Pombas, incluindo a destinação pretendida e as possibilidades de uso do espaço.
Em janeiro, informou à reportagem que a contratação da avaliação imobiliária integra o “processo de reestruturação” da companhia. Segundo a nota, o objetivo é “determinar o tamanho real da estatal, tanto na capacidade operacional quanto patrimonial”, sendo a avaliação do patrimônio e do passivo “um procedimento comum e necessário para ações que visam a competitividade comercial e visão de mercado.” A empresa também afirmou que o processo sob acesso restrito no SEI segue normas legais de proteção de dados e que as informações relevantes são publicadas oficialmente.












