A eleição de 2026 deve empurrar as campanhas políticas em Goiás para um ambiente político mais acelerado e menos previsível do que aquele que organizou disputas anteriores. Rádio, televisão, imprensa tradicional, partidos e lideranças regionais continuam centrais, mas já não operam sozinhos. O crescimento de influenciadores políticos, páginas hiperlocais e conteúdos digitais de forte circulação começa a mudar a velocidade com que desgaste público, pressão política e construção de narrativa acontecem no estado.
O caso envolvendo o influenciador Wesley Suspencar, em Rio Verde, ilustra este cenário e ajuda a traduzir essa percepção entre grupos políticos. Preso após gravar transmissões denunciando supostas irregularidades no cemitério municipal, Wesley rapidamente mobilizou redes sociais, lideranças estaduais e atores da oposição.
O ex-governador Marconi Perillo percebeu rapidamente o potencial político do caso e foi a Rio Verde gravar vídeos ao lado da família do influenciador, classificando a prisão como tentativa de intimidação. Filiado ao PSDB, Wesley passou a ser visto por setores políticos como um possível ativo eleitoral após a repercussão do episódio.
Em entrevista à Tribuna, o secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, Coronel Renato Brum, refuta a ideia de que a prisão tenha mérito político (páginas 4 a 6).
Nos bastidores, o tema deixou de ser tratado apenas como fenômeno de internet e passou a entrar no cálculo eleitoral, com a percepção dentro de diferentes grupos políticos de que episódios antes limitados ao ambiente local agora conseguem ganhar dimensão estadual em poucas horas, especialmente quando encontram linguagem simples, apelo emocional e circulação simultânea em vídeos curtos, transmissões ao vivo e grupos de WhatsApp.
A lógica interessa aos QGs políticos especialmente porque revela uma mudança importante no ambiente eleitoral, em que personagens digitais passaram a produzir pressão pública, pautar debate e gerar desgaste mesmo sem mandato parlamentar ou estrutura partidária tradicional.
Goiânia
Em Goiânia, essa dinâmica apareceu associada à fiscalização pública transformada em conteúdo político. O influenciador Índio Injustiçado passou a participar de agendas com o deputado estadual Clécio Alves (PSDB) e o vereador Igor Franco (Podemos) como no acesso a uma área da Comurg, imediatamente convertidas em transmissões para redes sociais.
A reação da Prefeitura de Goiânia e da própria companhia, que classificaram a ação como invasão de área restrita e judicializaram o episódio, ampliou ainda mais o alcance político do caso.
Parte da oposição já começa a entender que vídeos curtos, lives e fiscalizações públicas conseguem funcionar simultaneamente como instrumento de denúncia, mobilização e construção de imagem política.
Métrica eleitoral
Como publicado pela coluna Tribuna Política na última edição, alcance digital passou a ser tratado nos bastidores do poder goiano como ativo político mensurável. O deputado Clécio Alves afirmou ter chegado a 27 milhões de visualizações em conteúdos de forte confronto político com o prefeito da capital, Sandro Mabel (UB).
O vereador Igor Franco também passou a explorar vídeos de fiscalização e embate com a Prefeitura de Goiânia, afirmando ter ultrapassado 3 milhões de visualizações em conteúdos contra o prefeito.
Mais do que vaidade digital, os números ajudam a mostrar uma mudança de comportamento dentro da própria política profissional. O discurso institucional continua relevante, mas passou a conviver com métricas de engajamento, alcance e viralização tratadas cada vez mais como demonstração de força política e capacidade de mobilização.
Ao mesmo tempo, campanhas políticas observam com mais atenção o crescimento de páginas de bairros e perfis hiperlocais administrados por lideranças comunitárias, militantes e atores políticos regionais. Em muitos casos, esses perfis misturam denúncia, prestação de serviço, opinião e notícia, alcançando públicos específicos com velocidade maior do que canais institucionais tradicionais.
O resultado é um ambiente político mais pulverizado e difícil de controlar, em que microcrises passam a ganhar escala rapidamente e episódios antes restritos a uma cidade ou bairro conseguem circular simultaneamente em dezenas de perfis, grupos e transmissões digitais. Assim, as campanhas tendem a operar cada vez menos em ciclos organizados por propaganda eleitoral e mais em fluxo contínuo de monitoramento, reação e contenção de desgaste.
QGs devem montar estruturas para monitorar crises digitais
A tendência é que campanhas em Goiás passem a incorporar estruturas permanentes de monitoramento digital durante a eleição de 2026. A lógica já utilizada em disputas nacionais e internacionais começa a entrar no cálculo político regional diante da velocidade com que vídeos, cortes e episódios locais conseguem ganhar repercussão.
Campanhas terão de acompanhar continuamente influenciadores regionais, páginas hiperlocais, grupos de WhatsApp e conteúdos capazes de produzir desgaste político em poucas horas. Mais do que criar propaganda, o desafio passa a envolver capacidade de detectar crises rapidamente, responder narrativas negativas e impedir a ampliação de desgaste.
Esse modelo se aproxima dos chamados “war rooms digitais”, estruturas voltadas ao acompanhamento permanente de redes sociais, análise de engajamento e reação quase instantânea a conteúdos de forte circulação. Em campanhas políticas presidenciais recentes, equipes passaram a operar praticamente em tempo real diante da velocidade de circulação de vídeos e narrativas nas plataformas digitais.
Em alguns casos, o desgaste nasce de episódios aparentemente pequenos. O ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao governo de Pernambuco, João Campos (PSB), precisou reagir rapidamente após viralizar nas redes um vídeo em que retirava e guardava um cordão antes de entrar em agenda num bairro popular da cidade. Adversários passaram a sustentar a narrativa de que o gesto demonstraria receio de assalto em uma comunidade periférica.
Posteriormente, João explicou que o acessório possuía valor afetivo ligado à memória do pai, Eduardo Campos, e que costuma retirá-lo durante gravações porque o contato com o microfone de lapela prejudica o áudio. Ainda assim, o episódio mostrou como gestos isolados passaram a ser rapidamente reinterpretados, recortados e transformados em disputa de narrativa nas redes sociais.
O ambiente digital tende a alterar inclusive a forma como candidatos passam a circular em agendas públicas. Situações antes consideradas secundárias começam a carregar potencial de desgaste, interpretação política e viralização instantânea. Em Goiás, a eleição de 2026 começa a empurrar campanhas políticas para uma lógica menos baseada apenas em propaganda eleitoral e mais próxima de gerenciamento contínuo de exposição, narrativa e reação pública.















