País registrou 26 homicídios, mais que o dobro dos 12 contabilizados em 2024, segundo relatório da Global Witness. Rondônia e Pará concentram metade das mortes, ligadas principalmente a disputas por terra.
O Brasil registrou 26 assassinatos de defensores ambientais em 2025, mais que o dobro dos 12 homicídios contabilizados no ano anterior. Com isso, o país saltou da 4ª para a 2ª posição no ranking global da ONG Global Witness, atrás apenas da Colômbia. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (16) no relatório anual da organização, que documenta a violência contra ativistas em todo o mundo.
Quase todos os casos no Brasil tiveram como causa principal a disputa por terra. Sete mortes foram ligadas a territórios indígenas e 14 a agricultores familiares. Os estados de Rondônia e Pará respondem, juntos, por metade dos assassinatos, pressionados pelo avanço das fronteiras agrícola e extrativista.
A falta de resolução sobre os direitos fundiários deixa povos indígenas e pequenos agricultores expostos à grilagem de terras, intimidação e violência, afirma Gabriella Bianchini, chefe de parcerias da Global Witness.
Retrocesso no ano da COP30
O aumento da violência ocorre no mesmo ano em que o Brasil sediou a COP30, em Belém (PA). O evento teve participação indígena recorde e incluiu compromissos sobre direitos territoriais. A Global Witness denuncia a aplicação desigual desses compromissos no país.
Para Carlos Lima, da Comissão Pastoral da Terra, a impunidade é o que sustenta a violência. Pode-se matar as pessoas, porque há certeza de que ficará impune. É quase uma licença para matar, disse ele à AFP.
América Latina concentra 85% das mortes
No mundo todo, a ONG documentou 124 homicídios de ativistas ambientais em 2025. O número representa uma queda de 15% em relação a 2024, quando foram registradas 142 mortes, e de 37% em relação a 2023, com 196 casos.
A América Latina segue como a região mais perigosa, com 105 mortes, quase 9 em cada 10 do total mundial. A Colômbia lidera o ranking pelo quarto ano consecutivo, com 39 homicídios, quase metade deles de indígenas. Honduras e Filipinas aparecem em terceiro lugar, com 12 mortes cada, seguidas por México (10) e Guatemala (8).
Na região, a maioria das vítimas são indígenas (36%) e agricultores (40%), principalmente aqueles que vivem em áreas remotas com pouca presença do Estado. A violência é agravada pelo crime organizado. A ONG identificou possíveis vínculos com organizações criminosas nos seis países que lideram a lista: Colômbia, Brasil, Filipinas, Honduras, México e Guatemala.
Cenário de violência no Centro – Oeste

A ponta de um iceberg
A Global Witness alerta que os números reais provavelmente são muito maiores, já que muitos casos deixam de ser denunciados em contextos de conflito e repressão. A organização destaca ainda que os homicídios são apenas a ponta de um iceberg oculto de ataques não letais, como campanhas de difamação, criminalização e ameaças contra os ativistas.
Mais de três quartos das vítimas em todo o mundo eram camponeses, indígenas ou afrodescendentes. As disputas territoriais estiveram associadas a mais da metade dos assassinatos documentados. Interesses minerários e extrativistas foram vinculados a 11 mortes, os madeireiros a oito e a agroindústria a seis. Mais de um terço dos casos envolveu crime organizado ou assassinos de aluguel.
Fique atento, denúncias de ameaças, violência ou assassinatos de defensores ambientais podem ser feitas ao Ministério Público Federal pelo telefone 0800 000 5640 ou pelo site da instituição. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) também recebe relatos de conflitos no campo e mantém canais de apoio às comunidades. Em situações de risco iminente, a orientação é acionar a Polícia Federal ou as polícias estaduais. O relatório completo da Global Witness está disponível no site oficial da organização.
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