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Não é apenas a Seleção Brasileira. Torcedor brasileiro também vive crise de identidade

Apesar da expressiva melhora, Seleção Brasileira ainda não tem uma identidade de jogo e para além das quatro linhas, nem mesmo o torcedor brasileiro sabe exatamente o que quer


Danilo Santana Por Danilo Santana em 29/06/2026 - 10:34

Começa hoje, às 14h00 (horário de Brasília), a fase de mata-mata para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo 2026. Após embates seguros na fase de grupos, com destaque para atuações respostas de Vinicius Júnior, o Brasil encara o compactado, rápido e incansável Japão.

Para o torcedor mais desavisado, pode parecer um simples jogo quando na verdade, o Brasil está prestes a encarar uma seleção perigosa, que sabe jogar contra super favoritos e que sai muito bem no contra-ataque. O Japão esteve em um grupo com duas seleções de mesmo nível, Holanda e Suécia, e desempenhou bom futebol em ambas oportunidades.

Além disso, os japoneses têm a casa mais arrumada. Fizeram um ótimo ciclo e foram dominantes nas eliminatórias. Confiam em seus jogadores e admiram seus astros. Estão completamente seguros a respeito de seu treinador, Hajime Moriyasu, tratando o próprio como um astro do time e um décimo segundo jogador. E além de tudo isso, vêm de uma boa Copa do Mundo, tendo sido eliminada pelo mesmo carrasco do Brasil, a Croácia.

Neymar não é mais o mesmo", afirma atacante do Japão na Copa | CNN Brasil
Kento Shiogai, atacante do Wolfsburg da Alemanha, deu entrevista polêmica em véspera de confronto contra o Brasil. (Foto:

A história do confronto, no entanto, ganhou outros ares quando o atacante japonês Kento Shiogai (jogador do tradicional Wolfsburg, da Alemanha) deu declarações inesperadas – pelo menos vindas do Japão, seleção que sempre demonstrou carinho e respeito pelo Brasil. Shiogai disse que o Brasil “não é mais favorito” e que Neymar Jr. não era mais o mesmo.

As falas chegaram aos ouvidos de Carlo Ancelotti que, por sua vez, preferiu não comentar. Porém, quando o capitão brasileiro, Marquinhos, foi perguntado sobre o tema, a resposta foi irredutível: “É bom que continuem falando para continuar motivando nosso time. Estamos há um mês nos Estados Unidos, trabalhando com muita humildade. Deixamos essa fala para os adversários, que continuem falando bastante para motivar a gente.

A réplica de Marquinhos gerou reações da mídia brasileira que se dividiu entre apoiador o capitão e em criticar por expor fomos impactados pelas falas. Essa reação mista se soma ao mar de críticas e descrença do torcedor brasileiro que parece assumir, pela primeira vez, que nos últimos anos, o Brasil nunca chegou tão descrente a uma Copa do Mundo como agora.

A repercussão de falas como a de Marquinhos evidencia que não apenas a Seleção Brasileira, mas o próprio torcedor brasileiro vive uma crise de identidade nos tempos atuais. Acostumado com o favoritismo nas competições, os últimos anos pediram um pouco mais de parcimônia nesta postura de maior seleção de todos os tempos.

Primeiro gol do 7 a 1 foi combinado com apenas três jogadores
Gol de Muller, o primeiro da maior derrota brasileira em Copas (Foto: Facebook)

Brasileiro se desconectou da Seleção

A rachadura definitiva nesta identidade foi o episódio do 7 a 1 para Alemanha em pleno solo brasileiro, em plena Copa do Mundo no Brasil. Ali, criou-se uma crise de imagem que a CBF, doze anos depois, ainda não conseguiu superar.

Talvez por isso a frase do atacante japonês ecoe tanto nas paredes do subconsciente brasileiro – principalmente entre os jogadores – eles sabem que os japoneses estão certos. Somos os maiores – fazemos questão de dizer -, mas não somos mais como antes. Ainda é difícil debater que exista uma seleção maior que o Brasil, tanto em questão de títulos, como também em conexão com o futebol e história no esporte. Mas isso não é mais o suficiente. Os menores e mais remotos países do mundo do futebol aprenderam a jogar o esporte e dão trabalho para qualquer um que ousar contar apenas com o próprio favoritismo.

Olhando de forma pragmática, é óbvio que o Brasil não é o mesmo. Assim como a Alemanha não é mais a mesma de 2014, inclusive sofrendo derrota para o Japão na fase de grupos da Copa do Catar, em 2022. O futebol é inevitavelmente cíclico e está mais próximo de se comportar como safras de uvas – que alteram o gosto de vinhos conforte o clima fica mais quente ou frio, mais úmido ou seco – do que de uma mística de soberania que se sustenta apenas de história, matemática estatística e peso da camisa.

O resultado destes constantes choques de realidade que o torcedor brasileiro vem tendo ao longo dos últimos anos não é apenas a desconfiança perante a seleção canarinho. O torcedor brasileiro deixou de compreender o que realmente espera dos seus jogadores. Por um lado, alguns esperam que a seleção realmente se comporte de forma mais austera, sem tanta marra, com pés no chão e demonstração constante de comprometimento e trabalho profissional. Por outro, torcedores mais nostálgicos pedem que os jogadores joguem mais bonito e sintam o peso de vestir a camisa da Seleção Brasileira.

Romário e Raphinha
Romário entrevistou Raphinha no primeiro semestre de 2025, antes do confronto contra a Argentina.

“Porrada neles, sem dúvida”

Esse vai e vem de opiniões deixa claro que não sabemos, como torcida, o que esperar do Brasil. Fica ainda mais claro quando relembramos de episódios como aquela fatídica entrevista em que Raphinha, perguntado por Romário se “daria porrada” nos argentinos, responde sem pestanejar: Porrada neles, sem dúvida.

A declaração do atacante do Barcelona repercutiu no mundo inteiro, principalmente no vestiário dos argentinos. Deu no que deu, 4 a 1 para os hermanos. Mas nenhuma porrada foi maior do que a crise interna que a fala de Raphinha gerou dentro do próprio Brasil.

Como esperado, a imprensa chegou a classificar a declaração de Raphinha como uma “infelicidade”, mas o surpreendente foi o coro de torcedores brasileiros na internet que reagiram contra o atacante. O mesmo torcedor brasileiro que ama compartilhar vídeos de declarações polêmicas e marrentas de Ronaldo, Romário, Ronaldinho e Renato Gaúcho, detestou a declaração de… Raphinha.

Será que Ronaldo teria sido criticado se tivesse dito “porrada neles” antes da final da Copa de 98′ contra a França? Será que episódio marrento seria motivo de saudosismo nas redes sociais hoje em dia? Difícil dizer. Mas uma coisa é verdade, os japoneses estão certos, a Seleção Brasileira não é mais a mesma e os jogadores, no léxico da geração Z, não tem mais a mesma “aura”.

O que o Brasil quer nessa Copa do Mundo?

A missão brasileira nesta Copa me parece não ser a conquista do título mundial, no final das contas. É claro que o hexa seria algo incrível, mas talvez perpetuasse uma ilusão de que, no final, a camisa realmente pesa.

Acredito que a missão do Brasil nesta Copa seja, finalmente, começar a tratar da crise de imagem e identidade gerada após tantos anos de ações inconsequentes de seus comandantes.

É hora tomar o remédio ruim, entender que apesar de ter a maior história, estamos suscetíveis a reveses contra equipes menores. É hora de definir um time, quem são seus craques, qual a nossa identidade de jogo e deixar fantasmas para trás para que realmente, ao final do próximo ciclo, possamos dizer que é hora – porrada neles.

Onde assistir a Brasil x Japão?

Assim, com tudo isso dito e com o forno pré-aquecido, resta entender o reflexo disso em campo em partida disputa logo mais no NRG Stadium, em Houston. A partida será transmitida pela CazéTV no YouTube e serviços de Streaming e também pelos canais Globo (SporTV, geTV, e Globo) e SBT.

Leia mais: Alma, técnica e organização, é o que o Brasil precisa para avançar

Danilo Santana

Jornalista e produtor audiovisual baseado em São Paulo. Escreve sobre cultura e esporte.

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