Manoel Messias Rodrigues e Maria José Rodrigues
Rede estadual de educação volta sua atenção para as competências socioemocionais dos alunos, focando na formação integral do indivíduo
Educar da melhor forma possível é um desafio permanente para toda sociedade, pois pressupõe uma escola capaz de formar o indivíduo enquanto ser social e também prepará-lo para o mundo do trabalho. Tem-se como consenso que a educação é indissociável da formação profissional, seja em nível técnico ou acadêmico, porém a formação do indivíduo em sentido amplo, englobando aspectos sociais, psicológicos e emocionais, ficou meio que a reboque, praticamente esquecida na grade escolar. Essa realidade finalmente está sendo mudada no país, a partir do reconhecimento de que desenvolver as habilidades socioemocionais é tarefa da escola. A razão é: um indivíduo equilibrado social e emocionalmente tem melhor rendimento nos estudos e grande possibilidade de se desenvolver plenamente, o que é o grande objetivo do sistema educacional.
“Muito embora quatro séculos antes de Cristo o filósofo grego Aristóteles já alertava para a importância do desenvolvimento pleno da personalidade humana dentro do processo de educar, ainda hoje esse é um dos grandes desafios do ensino brasileiro. Esse tema também está presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e também aparece na Constituição brasileira, nos artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e das Diretrizes Curriculares da Educação Básica, e mais recentemente na legislação do novo Ensino Médio”, afirma Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper.
Ele foi um dos palestrantes do Seminário Internacional de Habilidades Socioemocionais, realizado na terça-feira, 15, no auditório do Centro Universitário Alfa, em Goiânia, especialmente para uma plateia composta de superintendentes, coordenadores regionais e gestores educacionais de toda a rede pública estadual de ensino.
Um dos coordenadores do Edulab21, laboratório do Instituto Ayrton Senna criado com o objetivo de produzir e organizar conteúdos científicos para apoiar as políticas públicas de educação integral, Ricardo destacou em sua palestra que o desenvolvimento pleno de um ser humano passa inevitavelmente por todos os aspectos que envolvem as competências socioemocionais que, no ambiente educacional, devem ser trabalhadas simultaneamente às competências cognitivas.
Nesse contexto, Ricardo destacou que, se tem uma coisa que a escola precisa estar atenta, diz respeito à autonomia dos alunos para que eles possam fazer escolhas seguras a partir do seu próprio autoconhecimento.
“Esse é o principal desafio que a educação do século 21 coloca aos nossos educadores. Eles têm a missão de fazer o estudante sonhar e dar as condições para que eles possam ter a coragem de buscar a realização de seus sonhos”, disse.
Conforme Ricardo, quatro pontos básicos estão relacionados diretamente às competências socioemocionais: empatia, diálogo, colaboração e assertividade.
“Não tem como haver empatia sem diálogo, não tem como existir diálogo sem colaboração, não há colaboração sem assertividade e não há assertividade se não trabalharmos o autoconhecimento com os alunos”, explicou.
Palestrantes
O Seminário Internacional de Habilidades Socioemocionais reuniu cerca de 600 diretores de escolas estaduais. Como palestrantes, além de Ricardo Paes de Barros, estavam a ex-secretária de Educação, Cultura e Esporte de Goiás, professora Raquel Teixeira; e Filip de Fruit, psicólogo do Instituto Ayrton Senna e professor da Universidade de Grent, na Bélgica. A abertura contou com a presença do titular da Seduce, Marcos das Neves.
Entenda as Competências socioemocionais
Habilidades ou competências socioemocionais são um conjunto de capacidades individuais do ser humano que dão base para que ele mobilize, articule e coloque em prática conhecimentos, valores, atitudes e habilidades para se relacionar com os outros e consigo mesmo; estabelecer e atingir objetivos; e enfrentar desafios de maneira criativa e construtiva. São manifestadas em pensamentos, sentimentos e comportamentos, e seu desenvolvimento se dá ao longo da vida, com base nas experiências formais e informais que o indivíduo vivencia.
Estudos internacionais e nacionais ressaltam a relevância das competências socioemocionais para a vida escolar e futura dos estudantes. Essas pesquisas apontam a existência de correlação entre algumas competências e a melhoria do aprendizado e do ambiente escolar. O desenvolvimento dessas competências favorece, por exemplo, o aprendizado em disciplinas como Língua Portuguesa e Matemática, e tem influência na permanência do aluno na escola, na diminuição de ocorrências de violência e de bullying nas escolas, e em uma série de outras conquistas e realizações ao longo da vida. As pesquisas também destacam efeitos positivos do desenvolvimento de competências sobre aspectos sociais, como empregabilidade, saúde, diminuição da violência, entre outros.
Existem diferentes modelos que visam a organização operacional das competências socioemocionais. No caso do Instituto Ayrton Senna e do Diálogos Socioemocionais, a matriz de fundamentação são cinco macrocompetências que resumem, de modo abrangente, a variação de competências socioemocionais existentes e identificadas em diversos contextos, localidades e culturas, como mostram pesquisas empíricas feitas a partir da década de 1960.
Essas cinco macrocompetências são: abertura ao novo, autogestão, engajamento com os outros, amabilidade e resiliência emocional.












