Neste ano, teremos aquela que talvez seja a mais importante disputa para o Senado desde a redemocratização. O cenário nunca esteve tão conflagrado: o escândalo do Master, que envolve Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, colocou o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no centro do interesse público; na última quarta-feira (29), a rachadura atingiu proporções históricas com a primeira rejeição de nome indicado ao STF por senadores em 132 anos, dividindo Legislativo e Executivo; com dois terços das vagas do Senado em jogo, a projeção de renovação é alta.
O contexto é de isolamento dos Poderes. Com a rejeição do nome de Jorge Messias, indicado por Lula da Silva (PT) para compor o STF, dois recados foram dados pelo Senado. O primeiro é de cisão com o governo, por não acreditar que Lula terá chance de retaliar pois não terá novo mandato em 2026, ou por acreditar que, se for reeleito, será muito dependente do Legislativo. O segundo recado é uma demonstração de força para o STF, um prenúncio da aprovação do projeto de impeachment de ministros em reprimenda às invasões de competência que senadores alegam sofrer por parte do Judiciário.
O capítulo mais recente da crise foi fruto da tentativa e falha do governo de conduzir as negociações, escanteando o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB). A pulverização do poder do Executivo para o Legislativo, promovida pelo aumento das emendas e Codevasfs da vida, é muito diferente daquela lógica centralizadora na figura do presidente da República que Lula encontrou em seus primeiros mandatos. É um processo que começou no próprio Senado, sob a presidência do mesmo Alcolumbre, de 2019 a 2021, e se aprofundou na presidência de Arthur Lira (PP) na Câmara de 2021 em diante.
Agora, para quem quer se tornar senador, o X da questão é: há uma crise entre Legislativo, Executivo e Judiciário que o futuro presidente da República precisará resolver – qual é o preço político para azeitar a articulação entre os poderes? Embora essa charada deva ocupar boa parte do próximo mandato dos senadores, eleitoralmente, é uma questão que muitos candidatos escamoteiam. O leitor atento, entretanto, não deve se enganar sobre o que realmente importa.
Vale a pena observar o exemplo em Goiás. Pesquisa Quaest divulgada na última quinta-feira (30) levantou a primeira e a segunda opção de 1.104 eleitores no estado e teve os seguintes resultados:
- Gracinha Caiado (UB): 22%
- Vanderlan Cardoso (PSD): 12%
- Dr. Zacharias Calil (MDB): 11%
- Gustavo Gayer (PL): 10%
- Delegado Humberto Teófilo (Novo): 8%
- Alexandre Baldy (PP): 5%
- Oséias Varão (PL): 3%
- Iure Castro (Cidadania): 1%
- Humberto Chaves (PSOL): 0%
- Professor Marcelo Moreira (PSOL): 0%
- Indecisos: 16%
- Branco/nulo/não vai votar: 12%
Com essa conjuntura que está dada, é de se esperar que Gracinha Caiado, primeira colocada nas intenções de votos, tenha de se posicionar sobre os acontecimentos recentes. Mais ainda, é de se esperar que, sendo esposa de pré-candidato opositor de Lula, esteja em desajuste com os avanços do Supremo (Lula é associado e identificado pelo eleitor com o STF). Não é o caso. Gracinha é um exemplo de como o cotidiano político às vezes é dissonante das condições eleitorais.
O jornalista Jackson Abrão entrevistou a pré-candidata e questionou-a sobre o impeachment de ministros do STF, ao que Gracinha Caiado respondeu: “Não se pode conduzir a campanha dizendo ‘sou a favor ou contra’, porque o Brasil é muito mais que isso. O Senado é o lugar onde se deve tratar os problemas do Brasil. Ali tem que ter diálogo. Acho que o Supremo tem feito decisões erradas. Estamos carentes de liderança forte porque o presidente da República parece ter medo do Supremo. Eu saberei ler e interpretar, não me acovardo, mas jamais serei injusta, então acho que o assunto não pode ser tratado com populismo.”
A não resposta revela um cuidado de não se comprometer com nenhuma das duas alternativas, não criar atritos com a Corte durante o processo eleitoral, não alienar eleitores simpáticos ao Supremo (mesmo que estes sejam prováveis eleitores de Lula), e não deixar de criticar os ministros. O que explica que a candidata seja premiada por não se posicionar sobre o mais importante balizador do debate para o Senado? O que justifica sua alta intenção de votos mesmo sem acenar para um dos dois eleitorados?
A resposta está em outras manchetes. O deputado federal Ismael Alexandrino (PSD) disse que apoiará Gustavo Gayer (PL)… e Gracinha Caiado. O principal líder evangélico de Goiás, Bispo Oídes, declarou apoio a Vanderlan Cardoso… e Gracinha Caiado. O deputado estadual Gugu Nader (PSDB) afirmou que vai apoiar o ex-governador Marconi Perillo (PSDB)… e a ex-primeira-dama Gracinha Caiado (ela é casada com o maior adversário de Marconi).
Em outras palavras, Gracinha Caiado está em primeiro lugar porque é a curinga do governismo. Em Goiás, onde a lógica política ainda lembra aquela que Lula encontrou no início dos anos 2000, muito do poder passa pela centralidade do governador. Não há Davi Alcolumbre – Bruno Peixoto (UB) é um aliado. Isso pode ser um atestado a favor de Ronaldo Caiado (PSD), que poderá dizer nas eleições que a crise não chegou a Goiás; Legislativo e Executivo se entendem bem. Afinal, o eleitor pode compreender que o que falta para resolver o atrito entre os Poderes é a articulação de um líder com autoridade moral.
Gracinha Caiado entra como parte da solução dessa equação, e a construção de sua imagem política passa pelas ideias de apoio e suporte. Ressoa com o eleitorado a necessidade de “azeitar a articulação entre os poderes”. É tarefa complicada transmitir essa mensagem sem soar fraca e submissa ao projeto de um outro político, mas Gracinha de alguma forma tem cumprido bem o papel.
Talvez por ter sido durante sete anos a presidente de honra da Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) e Coordenadora do Gabinete de Políticas Sociais, sua imagem esteja associada ao amparo. Seu trabalho na área social rende frutos eleitorais agora, com recall forte (talvez tenha tanto recall quanto Vanderlan Cardoso, atual senador e sempre presente em eleições).
Cabe a crítica à prática de nomear parentes que pretendem concorrer a cargos eletivos para fazer “estágio” nos altos escalões do governo. O mesmo ocorreu com outros nomes, como Adriano Rocha Lima, primo de Caiado, possível pré-candidato a vice-governador, e assessor na Secretaria de Relações Institucionais – embora esse posto tenha menos destaque que o de Gracinha. Mas o período no governo rende recall e preparo para fazer campanhas. Diz-se que Gracinha tem fôlego para percorrer municípios em jornada, e vai precisar. Além da própria campanha, terá de percorrer Bahia, Sergipe e Alagoas em busca de apoio para Ronaldo Caiado.
Vale a pena ainda projetar outros cenários: se Lula for eleito, como encontrará o Senado? Hostil, no mínimo. Em Goiás, nem um pré-candidato a senador de esquerda tem sequer 1% das intenções de voto, e mesmo aqueles que atualmente compõem com o governo, como Vanderlan Cardoso, devem pensar duas vezes antes de negociar com o PT que tentou atalhar a presidência do Senado.
A presidência da Codevasf em Goiás tem indicação de Vanderlan Cardoso, e, com a ruptura, o Executivo ameaça retirar as moedas de troca que deu por seu apoio como forma de retaliação. Portanto, outros pré-candidatos a senador em Goiás não encontrarão a mesma tolerância que o eleitor tem com Gracinha quando o assunto for a crise com o STF. Gustavo Gayer é alvo de processo no STF por injúria contra Lula e será o mais cobrado a se posicionar.
Em entrevista coletiva concedida logo após uma das maiores derrotas do governo federal no Senado no século, Flávio Bolsonaro (PL) disse: “Eu não participei de articulação política, não pedi votos contra, apenas dei minha opinião”. É uma postura curiosa do maior adversário do presidente. Capitalizaria eleitoralmente se tripudiasse da demonstração de fraqueza de Lula, mas acabaria ferindo a teia de dependências em que está envolto. Na direita, quem ganha capitaneando a ofensiva contra o STF é Romeu Zema (Novo), que cresce ao custo das intenções de voto de Ronaldo Caiado.















