O ranger das rodas de madeira, o som dos berrantes e o passo lento dos bois anunciaram, mais uma vez, um dos momentos mais emblemáticos da Romaria do Divino Pai Eterno. Na manhã desta quinta-feira (2), milhares de romeiros acompanharam o tradicional Desfile dos Carros de Boi, Cavaleiros e Muladeiros, que percorreu as ruas de Trindade e transformou a Capital da Fé em um cenário de devoção, cultura e memória.
Antes da saída das comitivas, um gesto simboliza o verdadeiro sentido da tradição. Em frente à Igreja Matriz do Divino Pai Eterno, o missionário redentorista padre Dinísio Pereira conduziu a bênção dos carreiros, dos animais e dos carros de boi, rito que abre oficialmente o desfile há décadas.
Segundo o sacerdote, a celebração representa a entrega do trabalho e da caminhada dos romeiros a Deus. “Toda atividade que vamos realizar, seja de trabalho, de lazer ou de descanso, é bom iniciá-la com a oração. Por isso, o desfile começa com esse momento de bênção para os carreiros, os carros de boi e também para os animais, que fazem parte dessa grande manifestação de fé”, afirmou.
A ligação de padre Dinísio com a Romaria vai além da missão religiosa. Devoto desde a adolescência e filho da zona rural de Luziânia, ele acompanha a festa há quase quatro décadas. “Desde os 16 anos participo da Romaria. Vivi grande parte da minha vida na roça e conheço de perto essa tradição. Hoje, como Missionário Redentorista, poder conceder essa bênção tem um significado muito especial”, disse.
O desfile reúne centenas de carros de boi, cavaleiros e muladeiros vindos de diferentes municípios de Goiás e de outros estados. Mais do que uma manifestação cultural, o cortejo representa uma herança transmitida entre gerações.
Entre os participantes está Laila Scarlet, que há anos conduz os bois à frente da comitiva. Para ela, ocupar essa posição é motivo de orgulho e emoção. “É uma emoção muito grande. Venho há muitos anos e cada vez que participo sinto uma gratidão enorme. Existe uma responsabilidade grande em conduzir os bois, mas é uma alegria que não tem explicação”, contou.
Quem também faz questão de manter viva essa tradição é o carreiro Samuel Gonçalves Moreira, de Anápolis. Ele enfrentou dez dias de viagem para chegar a Trindade e participa do desfile pelo oitavo ano consecutivo. “O que me traz aqui é a tradição. A gente não pode deixar isso acabar. Meu irmão começou primeiro e depois eu continuei. Hoje faço questão de manter essa história”, afirmou.

A caminhada deste ano também foi marcada pela superação. Samuel revelou que iniciou a viagem com fortes dores no joelho e chegou a acreditar que não conseguiria concluir o percurso. “Saí de casa com o joelho muito inchado. Pensei que não fosse aguentar, mas consegui chegar. Estar aqui é especial demais. É uma graça de Deus.”
Ao longo do percurso, moradores e visitantes se reuniram nas calçadas para acompanhar a passagem das comitivas. Crianças, idosos e famílias inteiras registraram o desfile e aplaudiram cada carro de boi, em uma demonstração de respeito por uma tradição que atravessa gerações.
Reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com registro no Livro das Celebrações desde 2017, a Romaria dos Carros de Boi também é Patrimônio Cultural Imaterial de Goiás, conforme a Lei Estadual nº 22.174/2023, e Patrimônio Cultural do Município de Trindade, por meio da Lei nº 2.410/2025.
Mais do que preservar costumes do meio rural, o desfile reafirma a identidade do povo goiano e mantém viva uma manifestação em que fé e tradição caminham lado a lado. A cada carro de boi que cruza as ruas de Trindade, renova-se uma história construída pela devoção de milhares de romeiros que fazem da Romaria do Divino Pai Eterno um dos maiores símbolos da religiosidade popular do Brasil.












