O Homem Aranha de Tom Holland chega ao seu quarto filme, patamar que nenhum dos antigos aranhas conseguiu alcançar. Sob o título Um Novo Dia, acompanhamos um homem aranha mais solitário após os acontecimentos de Sem Volta Para Casa (2021).
No terceiro filme da série, a audiência foi surpreendida pela presença dos heróis de outros universos, o que mexeu severamente na linha do tempo do herói e trouxe consequências irreversíveis para o cabeça de teia.
Este quarto filme então promete ser um pouco mais sombrio e introspectivo, pedido comum entre os fãs do herói desde que Tom Holland assumiu o uniforme. Entretanto, mesmo sob essa postura mais madura e séria, Um Novo Dia ainda encontra muito espaço para piadas e para o crescimento de Peter Parker como pessoa.

Um Novo Dia tem a missão de fazer Peter Parker crescer
Com seus ex-amigos agora formados na faculdade e afrontado pela dura realidade do trabalho como vigilante de Nova York, Peter se desdobra para conseguir combater os vários vilões que assolam sua cidade. Em trabalho conjunto com a polícia e com a opinião publica controlada, o Homem Aranha começa agora viver um parasitismo em seu organismo. Sob efeitos desenvolvidos do DNA aracnídeo, Peter passa a sofrer com os colaterais de seus sensos apurados.
E assim, passamos boa parte deste longa-metragem acompanhando Peter Parker renegando sua própria evolução, como se não tivesse aceitando crescer. Chega ser violenta a forma como o herói dedica tempo e recursos para se ater ao presente e evitar pensar entrar em uma nova fase da sua vida como herói.
Porém, assim como o título do último filme evidenciava, não há retorno e de fato passamos a enxergar agora uma nova fase do herói.

Arco de Jean Grey
Um dos pontos mais interessantes do filme é que o protagonismo de Peter é muito – e sim, muito – dividido com o antagonismo da mutante Jean Grey. Conhecida nos quadrinhos como a mais poderosa telepata que se tem conhecimento, a Marvel utiliza Um Novo Dia para introduzir a história da heroína de X-Men.
Jean Grey surge inicialmente como uma vilã misteriosa, mas em determinado momento, o roteiro nos entrega sua motivação e backstory.É justamente aí que o filme perde um pouco da força. Durante anos, uma das críticas aos vilões do Homem-Aranha no MCU foi a falta de desenvolvimento, mas Um Novo Dia parece responder a essa reclamação de maneira quase literal: Jean tem tempo de tela, conflitos próprios e uma história que não depende exclusivamente do protagonista. Ainda assim, quantidade não significa necessariamente profundidade.
Sadie Sink, por outro lado, aproveita muito bem o material que recebe. A atriz consegue fazer Jean transitar entre a ameaça e a vulnerabilidade sem transformar a personagem em uma caricatura de vilã. Há uma tentativa clara de apresentar uma Jean que ainda está tentando entender os próprios poderes e o lugar que ocupa naquele universo. O problema está menos na atuação e mais na maneira como o roteiro organiza esse arco. A revelação de sua história chega carregada de informações, mas nem sempre produz o impacto emocional que o filme parece esperar (talvez por que Homem Aranha não fosse o lugar correto para fazer isso?).
Isso cria uma situação curiosa: Jean Grey é, ao mesmo tempo, uma das melhores novidades de Um Novo Dia e um dos elementos que mais evidenciam suas limitações. Ao dividir tanto espaço com Peter Parker, a personagem ajuda a ampliar o universo do filme e abre uma porta importante para os X-Men dentro do MCU. Porém, também rouba do Homem-Aranha parte da intimidade que poderia tornar esta nova fase mais interessante. O filme quer apresentar uma nova Jean Grey, aprofundar Peter Parker e ainda preparar terreno para histórias maiores. Nem sempre consegue equilibrar as três coisas.

Futuro da saga e contratos de Tom Holland
Embora os detalhes do novo contrato de Holland com o estúdio não tenham sido divulgados, a Sony trabalha com a possibilidade de transformar Um Novo Dia no primeiro capítulo de uma nova trilogia do personagem. O quinto filme, portanto, já aparece no horizonte, mas ainda depende de algumas definições.
A continuidade da franquia envolve negociações entre diferentes partes. Além da Sony, responsável pelos direitos cinematográficos do personagem, Marvel e Disney também participam das decisões relacionadas ao Homem-Aranha no MCU. Holland, por sua vez, passou a ter maior influência criativa sobre os filmes.
Por isso, apesar do interesse em seguir com a história, ainda existem questões criativas e administrativas que precisam ser resolvidas antes do início oficial do desenvolvimento do próximo longa.
“Nós adoraríamos [fazer mais um filme juntos]. Está nos planos”, afirmou Holland. O ator também adotou cautela ao falar sobre o futuro do personagem: “As coisas estão um pouco incertas no momento, mas tenho certeza de que, aconteça o que acontecer com o Homem-Aranha, o futuro será brilhante”.

O melhor Homem Aranha
Apesar de já ter vestido a máscara do teioso mais vezes, Tom Holland ainda vive a sombra do Homem Aranha de Tobey Maguire. Isso porque há uma diferença importante entre longevidade e identidade. A trilogia de Sam Raimi tinha uma cara muito própria: era exagerada, melodramática, às vezes estranha e, sobretudo, tinha a assinatura de um diretor por trás.
Raimi levou para Nova York parte da experiência que havia desenvolvido no terror de Evil Dead, usando movimentos bruscos de câmera, enquadramentos inclinados e uma montagem que transformava o herói em uma espécie de criatura de filme de horror.
Nos filmes de Holland, a situação é outra. O personagem funciona bem, o ator tem carisma e No Way Home mostrou que ainda existe muito afeto pelo Homem-Aranha, mas seus filmes estão presos a uma engrenagem maior. Peter Parker é uma peça do MCU, cercado por Vingadores, referências e consequências de outras histórias. Isso inevitavelmente diminui um pouco sua autonomia.
Nos filmes de Raimi, por outro lado, havia tempo para acompanhar o cotidiano de Peter, seus problemas financeiros, Mary Jane, Harry Osborn e aquela sensação de que ser o Homem-Aranha era tanto um sonho quanto um peso.
Talvez o maior desafio de Tom Holland como Homem Aranha seja se desvincular do que fez dele o mais diferente entre seus antecessores: ser uma peça de um universo muito maior. É hora de olhar ainda mais para dentro, focar ainda mais em Nova York e em seus dramas. Está aí a fórmula do sucesso e este quarto filme nos dá um vislumbre disso.













