O cortisol tem ganhado cada vez mais o status de vilão na mídia e na internet nos últimos anos, principalmente ligado ao treino, já que, frequentemente chamado de “hormônio do estresse”, passa a ideia de responsável por sintomas como inchaço no rosto, acúmulo de gordura abdominal, fadiga e cansaço constante. Entre as recomendações mais difundidas por influenciadores está a ideia de que treinos intensos, como musculação pesada, corrida de longa distância e HIIT (treinamento intervalado de alta intensidade), deveriam ser evitados por supostamente elevarem o cortisol de forma prejudicial.
No entanto, especialistas alertam que essa interpretação simplifica excessivamente o funcionamento do organismo e pode gerar um receio injustificado em relação à prática de atividade física. É o que afirma o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, ao destacar que o aumento do cortisol durante exercícios de maior intensidade representa uma resposta fisiológica esperada e necessária.
“O cortisol é um hormônio essencial para o funcionamento do organismo. Durante exercícios de maior intensidade, ele desempenha um papel importante no fornecimento de energia aos músculos, favorecendo a mobilização das reservas de glicose e auxiliando o corpo a responder ao esforço físico. Esse aumento transitório não significa que a pessoa esteja adoecendo ou desenvolvendo excesso de cortiso”, explica o especialista.
Produzido pelas glândulas suprarrenais, o cortisol participa de diversas funções importantes do organismo. Além de ajudar na resposta ao estresse, ele contribui para o controle da pressão arterial, da glicemia, do metabolismo, da resposta imunológica e do ciclo natural do sono.
Os níveis desse hormônio variam naturalmente ao longo do dia. Eles costumam ser mais elevados pela manhã, facilitando o despertar, e diminuem gradativamente durante a noite, preparando o corpo para o descanso.
Apesar da popularidade do tema nas redes sociais, distúrbios relacionados ao excesso de cortisol são relativamente raros. Mesmo pessoas submetidas ao estresse emocional contínuo geralmente apresentam níveis que permanecem dentro da faixa considerada normal.
De acordo com José Israel, um dos principais equívocos é acreditar que qualquer elevação do cortisol seja necessariamente prejudicial. “É fundamental diferenciar o aumento fisiológico, observado durante o exercício físico, do excesso crônico decorrente de doenças específicas ou de um estado prolongado de estresse sem recuperação adequada. São situações distintas e que não devem ser confundidas”, ressalta.
Estudos mostram que, embora o cortisol aumente durante exercícios intensos e permaneça elevado por algumas horas após o término da atividade, os níveis retornam ao normal conforme o organismo se recupera. Com a prática regular e adequada de exercícios, o corpo se adapta e pode até reduzir seus níveis basais de cortisol ao longo do tempo, tornando-se mais resistente ao estresse.
Ainda segundo o nutrólogo, para que esse benefício aconteça, o treino precisa ser acompanhado de hábitos saudáveis. “A prática de exercícios intensos exige recuperação adequada. Dormir bem, manter uma alimentação equilibrada, consumir carboidratos em quantidade suficiente para reposição energética e respeitar os períodos de descanso são medidas fundamentais. Quando há excesso de treinamento, privação de sono e alimentação inadequada, o organismo pode apresentar maior dificuldade para restabelecer o equilíbrio hormonal”, completa.
José Israel ressalta que isso não significa abandonar os exercícios de maior intensidade, mas compreender e respeitar os limites individuais. “Cada pessoa apresenta uma capacidade de recuperação diferente. Em determinados momentos, um treino mais leve, uma caminhada, Pilates ou ioga podem ser opções mais adequadas. O mais importante é manter uma rotina consistente de atividade física, sem receio do cortisol, porque, quando o exercício é bem planejado, ele se torna um dos principais aliados na redução do estresse ao longo da vida”, conclui.













