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Lula reeleito terá Congresso de direita como primeiro desafio

PL será a maior bancada da Câmara e do Senado; propostas do novo mandato dependerão de negociação, orçamento e apoio parlamentar


Por Carlos Nathan Sampaio em 25/10/2026 - 21:37

Lula reeleito terá Congresso de direita como primeiro desafio
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha no Rio de Janeiro: o evento "Lula em São Paulo: O Brasil Pronto Pra Mais", realizado na Avenida Paulista, São Paulo (SP). (Foto: Ricardo Stuckert)

Com 97,69% das urnas apuradas às 21h09min deste domingo (25), o anúncio foi da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno com 51,74% dos votos válidos, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro (PL). Reeleito pela quarta vez como presidente, o petista terá um novo mandato diante de uma correlação de forças desfavorável no Congresso: a Câmara tem maioria de direita e o PL é a maior bancada; no Senado, o partido do adversário será a força individual mais numerosa. O Orçamento será parte da disputa.

Na Câmara, o PL elegeu 121 dos 513 deputados, enquanto o PT terá 70. A direita somará 303 cadeiras, ante 124 da esquerda e 86 do centro. Isso não significa que o PL controle sozinho a Casa: a bancada não alcança os 257 votos necessários para maioria absoluta. O governo terá de negociar com partidos de centro e do Centrão para formar maiorias em votações específicas.

No Senado, o PL deverá começar 2027 com 28 das 81 cadeiras. A federação União Progressista terá 12, o PT, nove, e o MDB, oito. O PL será a maior bancada da Casa, mas não terá maioria sozinho. Também cabe ao Senado aprovar indicações ao STF e votar propostas de emenda à Constituição.

Promessas passam por etapas diferentes

O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral prevê medidas em trabalho, educação, saúde, segurança e economia. Algumas podem ser encaminhadas pelo Executivo, com previsão orçamentária; outras precisam de aprovação legislativa. Entre as propostas trabalhistas estava o fim da escala 6×1 e a jornada de 40 horas semanais. O Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141 em 16 de outubro; a regra começa a valer em 16 de dezembro, com redução inicial para 42 horas e chegada às 40 horas em dezembro de 2027. Portanto, se reeleito, Lula terá de executar uma mudança já aprovada, enquanto a regulamentação do trabalho por aplicativos, também prevista no programa, ainda dependerá de negociação legislativa.

Na educação, Lula prometeu ampliar o Pé-de-Meia para estudantes universitários. Será preciso definir critérios de acesso e fonte de recursos, além de prever a despesa no Orçamento. Na segurança, o plano prevê criar um Ministério da Segurança Pública e ampliar a coordenação da União com estados e municípios. A criação do ministério depende do Executivo; repasses exigirão verba e, conforme o desenho, aval do Congresso.

Outra promessa de campanha é a tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana. Lula disse que enviaria uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e propôs destinar parte das emendas parlamentares ao financiamento. A proposta exigiria negociação com deputados e senadores porque envolve recursos sob controle do Congresso e sistemas de transporte de estados e municípios. PECs precisam ser aprovadas em dois turnos em cada Casa, com três quintos dos votos: 308 deputados e 49 senadores.

A promessa de ampliar a tributação sobre altas rendas também dependerá do Legislativo caso exija mudanças em impostos. Já a continuidade de programas sociais e o reajuste real do salário mínimo terão de caber no Orçamento e nas regras fiscais. Emendas parlamentares obrigatórias limitam a margem de decisão do Executivo sobre gastos, e a proposta de reservar parte delas à tarifa zero pode ser um primeiro teste da relação com o Congresso. A disputa não será apenas sobre aprovar projetos, mas também sobre quem define a aplicação de recursos públicos.

Indicações ao STF exigirão apoio no Senado

O Supremo começa o próximo mandato com uma cadeira vaga desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso. Em abril, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias por 42 votos a 34. Se reeleito, Lula poderá enviar outro nome. A Constituição exige que o indicado tenha mais de 35 e menos de 70 anos, notável saber jurídico e reputação ilibada. Depois de sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, a indicação precisa de ao menos 41 votos favoráveis no plenário. A nomeação presidencial, portanto, não garante a posse.

Outras três aposentadorias compulsórias são previstas até 2030: Luiz Fux, em 2028; Cármen Lúcia, em 2029; e Gilmar Mendes, no fim de 2030. Se o calendário se mantiver, Lula poderá indicar nomes para até quatro vagas durante o mandato, sempre sujeitos ao aval do Senado. Lula afirmou que pretende criar um conselho técnico para sugerir nomes, sem substituir a prerrogativa presidencial de indicar nem o poder do Senado de aprovar ou rejeitar.

A rejeição de Messias mostrou que a negociação começa antes da sabatina, na relação com a presidência do Senado, líderes partidários e integrantes da CCJ. Uma nova indicação pode se tornar uma das primeiras provas de articulação do governo, sobretudo porque a vaga está aberta e o PL terá bancada ampliada na Casa. Lula terá de buscar apoio sem a garantia de que acordos partidários se convertam em votos favoráveis.

Governabilidade será construída voto a voto

A vitória presidencial não altera o Congresso eleito no primeiro turno. Lula assumiria diante de uma oposição numerosa, do PL fortalecido e de partidos de centro com poder de negociação. Para aprovar projetos de lei, o Planalto precisará reunir maioria em cada pauta; para mudanças constitucionais, a barreira é maior. A relação com os presidentes das duas Casas, a composição de comissões, a execução do Orçamento e a negociação de emendas estarão entre as prioridades do início do mandato.

As promessas não entram todas em vigor automaticamente com a reeleição. Benefícios que dependem de orçamento podem ser escalonados; mudanças trabalhistas e tributárias terão de passar pelo Congresso; a tarifa zero dependerá de uma PEC e de acordo sobre financiamento. No STF, cada indicação precisará de maioria absoluta no Senado. O novo mandato começaria, assim, com uma agenda extensa e instrumentos presidenciais relevantes, mas sujeito a limites institucionais que obrigam o governo a negociar para transformar propostas em decisões.

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