Dado representa dois terços da população do território; cerca de 200 mil estão em situação de emergência alimentar, segundo o Programa Mundial de Alimentos
Mais de 1,4 milhão de pessoas na Faixa de Gaza enfrentam atualmente níveis agudos de insegurança alimentar. O número equivale a dois terços de toda a população do território palestino. Desse total, aproximadamente 200 mil pessoas estão em situação de emergência alimentar, o nível mais crítico antes da catástrofe humanitária.
Os dados são do Programa Mundial de Alimentos (PMA) e de agências da ONU que atuam na região. A crise persiste mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2025, que trouxe melhorias pontuais, mas não reverteu o quadro de fome generalizada.
O Ministério da Saúde palestino em Gaza divulgou nesta sexta-feira (16/10) um informe indicando que ao menos 466 pessoas morreram por inanição e desnutrição desde outubro de 2023, quando Israel iniciou sua ofensiva militar e o bloqueio à entrada de ajuda humanitária. A divulgação do relatório foi programada para coincidir com o Dia Mundial da Alimentação. De acordo com o ministério, o objetivo foi denunciar as consequências das restrições impostas por Tel Aviv aos palestinos que vivem no enclave.
Crianças e idosos concentram as mortes
Do total de 466 mortes, 157 foram de crianças. Esse número representa cerca de um terço de todas as vítimas fatais ligadas à fome. Entre 2024 e agosto de 2026, as equipes médicas registraram 158.001 casos de desnutrição aguda em crianças menores de cinco anos. Desses, 28.716 foram classificados como graves e com risco de morte.
A taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos subiu de 13,6 mortes por mil nascidos vivos em 2022 para 33,4 em 2025. Além disso, 12,2% das crianças apresentam nanismo, condição associada à desnutrição prolongada. A estimativa é que 74.200 crianças precisem de tratamento para desnutrição aguda até abril de 2027.
Os idosos representam a maior parcela entre os grupos etários identificados pelo ministério. Foram 189 mortes, o equivalente a 40,5% do total. Levantamentos de campo citados no informe mostram que 11% dos idosos passaram um dia inteiro sem comer. Outros 48% reduziram as próprias porções de alimento para que os familiares pudessem comer. Além disso, 68% pararam ou reduziram a dose de medicamentos diários porque os remédios não estavam disponíveis.
Impacto sobre gestantes e recém-nascidos
A crise também atinge gestantes e bebês. A anemia entre grávidas subiu para 61% em 2026, contra 41% antes da guerra. Quase 4 mil perdas gestacionais foram registradas no primeiro semestre deste ano, mais que o triplo do número contabilizado nos seis meses anteriores. Uma em cada três gestações é classificada como de alto risco.
O ministério afirma que a desnutrição e a fome atingiram níveis catastróficos. A pasta projeta que mais de 1,4 milhão de palestinos, cerca de 67% da população de Gaza, devem enfrentar insegurança alimentar de nível de crise ou pior até o fim de 2026.
Contexto humanitário
A fome foi oficialmente declarada na província de Gaza em agosto de 2025. Desde então, a situação humanitária se deteriorou com o bloqueio e as restrições à entrada de suprimentos essenciais. Em maio de 2025, os pontos de distribuição de alimentos caíram de cerca de 400 para apenas quatro, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras.
Em outubro de 2026, o Escritório de Mídia do Governo de Gaza alertou para as consequências catastróficas da interrupção da ajuda humanitária a meio milhão de pessoas por falta de financiamento. O Programa Mundial de Alimentos (WFP) também anunciou o fim da assistência alimentar a mais de 500 mil palestinos no território pelo mesmo motivo.
Um relatório do UNICEF divulgado na mesma semana apontou que o aumento da assistência humanitária e o cessar-fogo ajudaram a reduzir a ameaça de fome. A agência, no entanto, advertiu que os ganhos são frágeis e podem ser revertidos sem um fluxo contínuo e previsível de bens comerciais e humanitários. Cerca de 800 mil crianças seguem deslocadas, muitas vivendo em tendas ou em construções inseguras com a aproximação do inverno.
O Ministério da Saúde palestino pediu que a comunidade internacional e a ONU garantam acesso seguro, sustentado e irrestrito a alimentos, suplementos nutricionais terapêuticos e medicamentos. A pasta também defendeu prioridade para crianças, gestantes, lactantes e idosos, além de apoio para retomar a produção local de alimentos em Gaza.
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