Ao lado das chaves e do celular, eles se tornaram itens obrigatórios de quem se prepara para uma festa: os chamados remédios para ressaca. Esses comprimidos combinam analgésicos, antiácidos e cafeína e prometem um escudo contra os efeitos indesejados do álcool. No entanto, o hábito de consumir essas substâncias antes ou logo após beber pode transformar um alívio momentâneo em um problema grave de saúde.
Segundo a gastroenterologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Perla Oliveira Schulz Mamone, um dos principais riscos dos remédios para ressaca é a falsa sensação de que o álcool não está fazendo efeito no corpo. “Ao tomar um comprimido preventivo, o indivíduo cria a falsa sensação de que está imune à bebida, o que o encoraja a beber além do limite. A cafeína presente nessas fórmulas mascara a embriaguez e o cansaço, retardando os reflexos naturais do corpo que indicam a hora de parar”, explica a médica.
Outra preocupação ocorre em nível metabólico. O álcool exige esforço do fígado para ser processado e, quando alguém adiciona medicamentos nessa equação, o cenário se agrava. “Muitos kits caseiros anti-ressaca contêm paracetamol. Quando combinado com o álcool, a metabolização dessa substância gera compostos tóxicos para o fígado, podendo levar à hepatite medicamentosa ou à falência hepática”, comenta a gastroenterologista.
Kits que apostam em anti-inflamatórios não esteroides, como o ácido acetilsalicílico (AAS) ou o ibuprofeno, também oferecem perigo. Como a bebida alcoólica irrita a mucosa gástrica, a adição desses medicamentos aumenta o risco de gastrite, úlceras e sangramentos no estômago e intestino. “O álcool é diurético e causa desidratação, afetando os rins. O uso de medicamentos obriga o órgão a trabalhar dobrado em um momento de falta de líquidos”, afirma a médica.
A especialista reforça que a ressaca é um mecanismo de defesa do corpo e não uma doença. É a forma que o organismo encontra para sinalizar que foi intoxicado e precisa de tempo para se recuperar. “Mascarar a dor não acelera a eliminação do álcool do sangue, apenas anestesia os sinais do corpo. Apesar dos kits existirem, a ciência aponta que não há pílula mágica contra a ressaca”, comenta Perla.
A gastroenterologista ressalta que a prevenção segura continua sendo a mais tradicional: intercalar bebida alcoólica e água, alimentar-se bem e respeitar os limites do corpo. “No dia seguinte, os cuidados envolvem hidratação abundante, repouso e alimentação leve. Se a dor de cabeça for insuportável, a orientação é buscar um analgésico de uso habitual, preferencialmente após o álcool já ter saído completamente do organismo, e nunca de forma preventiva”, finaliza a médica. O alerta sobre os riscos dos remédios para ressaca serve como lembrete para que as pessoas priorizem a saúde em vez de atalhos perigosos.














