Um novo medicamento se mostrou capaz de fazer algo que parecia impossível: combater o câncer de pâncreas, o mais letal e o mais difícil de tratar entre todos os tipos de câncer . O anúncio foi feito durante um encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), com milhares de médicos presentes. A notícia foi aplaudida de pé pela plateia. Alguns oncologistas chegaram a chorar.
Embora não seja uma cura definitiva, o remédio consegue retardar a progressão da doença e dobrar a sobrevida dos pacientes com casos graves. O tratamento é considerado revolucionário por cientistas e tem potencial de se tornar o padrão nos próximos anos.
O medicamento em questão é o daraxonrasib, da farmacêutica americana Revolution Medicines. Ele atua bloqueando uma proteína que induz as células a se multiplicarem descontroladamente, gerando tumores agressivos e de difícil tratamento .
Como funciona o estudo
O novo estudo foi publicado no periódico The New England Journal of Medicine (NEJM). A pesquisa contou com a participação de 500 pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo de câncer de pâncreas mais comum, responsável por mais de 90% dos casos .
Todos os voluntários tinham câncer com metástase, um estágio avançado da doença, quando o tumor começa a se espalhar pelo corpo. Todos também já haviam passado por quimioterapia, o atual padrão para esses casos .
Metade dos pacientes continuou a ser tratada com quimioterapia. A outra metade recebeu o daraxonrasib na forma de comprimidos orais diários. Essa foi a fase 3 do ensaio clínico, a última e mais importante. Antes, o medicamento já havia se mostrado seguro e promissor em outras duas etapas de estudo .
Resultados expressivos
Os resultados mostraram que quem recebeu apenas a quimioterapia teve uma sobrevida média de 6,7 meses. Já os pacientes tratados com o daraxonrasib apresentaram uma sobrevida de 13,2 meses – quase o dobro . Também houve melhora na qualidade de vida e redução da dor .
Ou seja: a pílula está longe de ser uma cura, mas, após décadas de pesquisas, essa é a primeira estratégia que combate o tumor mais letal e agressivo de todos .
Atualmente, apenas 3% dos pacientes com câncer de pâncreas metastático vivem mais de 5 anos após o diagnóstico . Quimioterapia e outras intervenções podem ajudar, mas com resultados limitados. Após a divulgação do estudo, espera-se que o daraxonrasib seja incluído no combate à doença .
Por que o câncer de pâncreas é tão letal
O câncer de pâncreas é considerado o mais letal de todos por dois motivos principais. O primeiro é que ele costuma ser silencioso: quando os primeiros sintomas aparecem e o diagnóstico é feito, ele pode já estar avançado .
O segundo motivo é que mais de 90% dos casos desse câncer envolvem uma mutação no gene KRAS, que codifica uma proteína de mesmo nome . Em situação normal, as proteínas KRAS funcionam como um interruptor celular: ligadas, elas induzem as células a se dividirem. Na maior parte do tempo, porém, elas estão desligadas .
Uma mutação nesse gene, no entanto, pode fazer com que esse interruptor fique acionado permanentemente. Isso resulta na multiplicação desenfreada de células e na formação de tumores .
Por décadas, cientistas tentaram criar fármacos que neutralizassem a ação da KRAS, sem sucesso. Por causa da estrutura única dessa proteína, nenhuma molécula conseguia se encaixar nela. Por isso, esse tipo de câncer de pâncreas ficou conhecido como intratável .
Estratégia inovadora
O daraxonrasib traz uma estratégia nova. Ele não tenta se ligar diretamente à KRAS, como nas tentativas anteriores frustradas . Em vez disso, ele se liga primeiro a uma molécula chamada cyclophilin A, que está envolvida no processo de formação de proteínas. É a combinação do medicamento com essa molécula, por sua vez, que consegue neutralizar a ação da KRAS .
Efeitos colaterais e próximos passos
O estudo também mostrou que o medicamento tem efeitos colaterais, como erupções cutâneas, diarreia e vômitos . No entanto, eles são menores e menos frequentes do que os registrados na quimioterapia .
No estudo, apenas 1% dos pacientes do grupo do daraxonrasib abandonaram o tratamento por causa dos colaterais. No grupo controle, que recebeu apenas quimioterapia, esse índice foi de 11% .
A droga experimental ainda não foi aprovada por nenhuma agência regulatória no mundo. Ela também não está disponível para uso fora de ensaios clínicos . Espera-se que a FDA (agência reguladora americana) analise os dados da farmacêutica nos próximos meses .
Outros estudos ainda devem mostrar como a pílula age em diferentes pacientes e estágios do câncer de pâncreas .
Impacto para outros tipos de câncer
O daraxonrasib pode abrir portas para uma nova era de medicamentos contra tumores . Vários cânceres, incluindo o de pulmão e o colorretal, também podem ser causados por mutações no gene KRAS ou em genes parecidos. O novo estudo indica um caminho para avanços científicos também nessas áreas.
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