A casa de Mariano Soria, líder da Esquerda Socialista em Rosário, foi alvo de operação da Polícia Federal argentina, que apreendeu obras de Ilan Pappé e Abraham León. A acusação de antissemitismo tem como base uma denúncia de um empresário sionista e pode levar à condenação de até três anos de prisão.
A Polícia Federal Argentina allanou, em 30 de setembro de 2026, os domicílios do dirigente da Esquerda Socialista em Rosário, Mariano Soria, e de sua companheira, também militante da organização. O objetivo era recolher folhetos, revistas, computadores e celulares para embasar uma acusação de conduta antissemita. A ordem foi assinada pela fiscal federal Federica Tiscornia, vinculada ao Departamento Unidade de Investigação Antiterrorista.
O que foi apreendido
Entre os itens confiscados na operação estavam o livro A Questão Judaica, do autor marxista judeu Abraham León, assassinado em Auschwitz em 1944. Também foram levadas obras do historiador israelense Ilan Pappé, autor de A Limpeza Étnica da Palestina, e publicações sobre a Revolução Palestina de 1936 a 1939.
Segundo o relato de Soria ao jornal Página/12, os policiais buscavam materiais políticos, publicações, bandeiras e dispositivos eletrônicos. A operação apreendeu ainda uma pistola calibre .22 pertencente à família do professor, um telefone celular, uma notebook, uma computadora e um pendrive. Os agentes também se interessaram por uma camiseta do Club Deportivo Palestino, do Chile, embora não a tenham confiscado.
Quem é Mariano Soria
Mariano Soria é professor de História na Universidade Nacional de Rosário e delegado sindical da AMSAFE. Ele integra a Assembleia Ação pela Palestina de Rosário e é dirigente da Esquerda Socialista, partido que compõe a Frente de Esquerda. Sua atuação pública é marcada pela solidariedade ao povo palestino e pela condenação do genocídio em Gaza.
Soria afirmou que nunca havia sido notificado de nenhuma causa antes do allanamento. “Eu nunca havia sido notificado de nenhuma causa”, declarou ao Página/12. Ele também negou as acusações de antissemitismo e sustentou que suas críticas são dirigidas à política do Estado de Israel, não ao povo judeu.
A denúncia que originou a investigação
A causa foi iniciada a partir de uma denúncia apresentada pelo empresário Gustavo Tenenbaum, titular de um comércio na peatonal Córdoba, em Rosário. Tenenbaum integra organizações da coletividade judaica, como a Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas e a Unión Sionista Argentina de Rosário. Ele alegou ter sido agredido com expressões vinculadas à sua religião.
Com base nessa apresentação, a fiscal Federica Tiscornia solicitou que o Departamento Unidade de Investigação Antiterrorista realizasse diligências. Os investigadores monitoraram publicações em redes sociais até identificar Soria como suspeito de compartilhar textos e imagens considerados prejudiciais à comunidade judaica. A investigação pode resultar em condenação de um mês a três anos de prisão, conforme o artigo 3º da Lei 23.592, que tipifica a incitação à discriminação.
Reação e defesa
A Esquerda Socialista divulgou nota repudiando a operação e classificando-a como perseguição política. “O objetivo foi recabar folhetos, revistas, computadoras e celulares para endilgar-lhes uma conduta antissemita, pelo só fato de condenar o genocídio que se está perpetrando em Gaza”, afirmou a organização. A nota também sustenta que condenar o sionismo não é antissemitismo.
As advogadas da Asamblea Permanente por los Derechos Humanos solicitaram acesso ao expediente, mas não conseguiram conhecer as atuações completas. A defesa de Soria questiona a validade da ordem de allanamento e pretende apresentar impugnação formal. O professor deve prestar depoimento nos Tribunais Federais de Rosário no próximo dia 13 de outubro.
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