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“Ou é aterro sanitário ou é lixão”

Em entrevista, a secretária Andréa Vulcanis apresenta os avanços do programa Lixão Zero, explica a concessão estadual inédita para a gestão de resíduos


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 01/02/2026 - 07:31

“O nosso Cerrado em pé, sobretudo aqui em Goiás, tem que ter um valor intrínseco que deve ser maior que a soja ou que o boi para que ele possa continuar em pé.” Foto: Deivison Moura

Por Andréia Bahia e Lucas de Godoi

À frente da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Andrea Vulcanis defende rigor técnico na gestão dos resíduos sólidos e afirma que não há meio termo na legislação ambiental: ou o empreendimento cumpre todos os requisitos e é considerado aterro sanitário, ou permanece como lixão. Na entrevista, a secretária detalha o avanço do programa Lixão Zero, a modelagem inédita de concessão estadual dos resíduos sólidos, o papel do BNDES, os impasses envolvendo Goiânia e Padre Bernardo, além de rebater críticas e expor os desafios finais da política ambiental goiana.

TRIBUNA DO PLANALTO – A senhora participou da COP 30 em Belém este ano e a ONU ficou satisfeita com os resultados, mas entende que precisa de ações mais contundentes para frear o avanço das mudanças climáticas. O que a senhora traz de balanço da participação da Semad na COP 30 e como a senhora avalia os encaminhamentos?

ANDRÉA VULCANIS – A participação dos estados nas COPs sempre é uma participação lateral. As negociações que ocorrem no âmbito das mudanças do clima são feitas pelo governo federal. Os estados nem têm acesso às negociações, às discussões e tudo mais. A manifestação da ONU e dos participantes diz respeito à participação dos países, Itamaraty, Governo Federal, Ministério do Meio Ambiente, que participam dessas negociações. Os estados participam dos eventos paralelos à negociação central da COP, sempre levando as nossas ações e mostrando para os outros participantes da COP quais os avanços que os entes subnacionais têm feito. No caso de Goiás, foi uma participação muito intensiva, a gente pôde mostrar muitos resultados, sobretudo fazer parcerias e estabelecer com outros entes subnacionais de outros países que também participam, troca de informações, troca de modelos, de processos que nos ajudam na construção dessas metas que dizem respeito às mudanças do clima. É bem importante dizer que o Brasil não participa com 4% das emissões mundiais de gases de efeito estufa e Goiás não chega nem a 5% das emissões brasileiras. A nossa ação diz muito mais respeito à efetividade das políticas públicas de meio ambiente como um todo, do que voltadas à redução de emissão de gases de efeito estufa, porque praticamente não tem representação nenhuma quando se considera o que Goiás está fazendo em relação aos efeitos das mudanças do clima, em razão de baixíssimo percentual com que a gente contribui para as emissões mundiais. O Brasil tem um caminho pela frente na liderança, mas mais do que se apresentar como um país que quer reduzir suas emissões, deve se apresentar como um país que tem soluções para as mudanças climáticas provocadas pelos países desenvolvidos. Nós temos território, temos capacidade de regenerar ecossistemas, temos ações necessárias de regeneração, de plantios, de ganhar com as nossas áreas ainda florestadas um estoque de carbono importante que deve ser reconhecido e valorizado. O nosso Cerrado em pé, sobretudo aqui em Goiás, tem que ter um valor intrínseco que deve ser maior que a soja ou que o boi para que ele possa continuar em pé. São oportunidades que o Brasil está colocando e Goiás se mostrou de forma muito bem nesse processo, uma vez que a gente teve uma redução muito importante nos níveis do desmatamento do Cerrado, estamos pagando por serviços ambientais para o Cerrado em pé, ações propositivas e que mostram como exemplo para o Brasil como é que a gente pode trabalhar com mudança do clima, ao mesmo tempo oferecendo território como território de oportunidades.

No caso do desmatamento do Cerrado, apesar da redução mais recente, o Cerrado perdeu enormes áreas de vegetação ao longo das últimas décadas. Entre 1985 e 2024, o bioma perdeu cerca de 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa, o que representa cerca de 28 % de sua cobertura original. A Semad trabalha para recompor essas áreas degradadas ou para pausar o desmatamento?

Nós trabalhamos com ações múltiplas, olhando para o território e olhando para o processo de desenvolvimento do Estado. Nós somos o Estado que mais reduziu o desmatamento no Brasil, considerando todos os biomas. Considerando o Cerrado, fomos o que mais conseguiu reduzir o desmatamento. A gente vinha em uma curva ascendente e, nos últimos três anos, baixamos a curva do desmatamento e fomos o que mais conseguiu resultados positivos na contenção do desmatamento. Esse é o primeiro passo de uma vertente que trabalha com a redução efetiva do desmatamento. Numa segunda vertente, a gente trabalha com a manutenção do Cerrado em pé. Aí, estamos falando do Pagamento por Serviço Ambiental, da valorização desse Cerrado. Temos no Nordeste goiano, que concentra a maior parte do Cerrado, um programa de desenvolvimento e valorização do Cerrado em pé com iniciativas que vão da gastronomia com elementos do Cerrado até processos de experiências com sociobiodiversidade, incentivo às cadeias produtivas da sociobio, considerando os extrativistas, todo mundo que produz no território, como uma forma de que o Cerrado tenha um valor intrínseco em si mesmo, e esse valor se reverta em recurso e financiamento. E numa terceira vertente, a gente trabalha com a restauração do Cerrado. Aí estamos falando de projeto de recuperação ambiental, como é o caso do Juntos Pelo Araguaia, que já tem mais de 1,2 mil hectares efetivamente restaurados; estamos falando da nossa Declaração Ambiental do Imóvel, onde se avalia o passivo ambiental dos imóveis e determina desde já a recuperação daquelas áreas que foram desmatadas irregularmente, como é o caso das áreas de preservação permanente e de reserva legal, com compromissos assinados, firmados com prazo de entrega pelos usuários. Temos aí uma frente bastante importante que atua no controle do desmatamento, na preservação e na valorização do Cerrado em pé e na restauração do Cerrado. São frentes e políticas públicas que caminham em paralelo de forma bastante efetiva e o conjunto delas é que gera esses resultados que temos produzido, como o relatório do ano passado dizendo que Goiás já é Goiás carbono positivo, não é nem neutro, ou seja, tem indicadores que dizem que Goiás mais captura carbono do que emite.

A situação hídrica dos rios de Goiás é considerada preocupante, sobretudo nos últimos anos, por causa da irregularidade das chuvas. Quais medidas são adotadas pela Semad para reverter essa situação ou pelo menos não deixá-la se agravar? 

A água é um elemento central do processo de gestão pública do Estado de Goiás por conta do processo das mudanças do clima. Para que a gente possa se desenvolver, a gente precisa de água. E água vale para a cidade, para o abastecimento público das casas, dos domicílios; para os comércios, nem um pequeno restaurante ou um salão de beleza; uma barbearia funciona sem água; vale também para a indústria; vale para a agricultura; e para qualquer tipo de atividade humana. Todo o monitoramento climático indica que o Centro-Oeste brasileiro tem, na curva de tendência, a tendência para ter problema com água, com escassez hídrica. O que a gente vem vendo é uma curva de aumento de temperatura, ao mesmo tempo que há redução da disponibilidade de água. Isso porque temos um regime modificado climático. Se no passado havia muita chuva, aquela chuva que ia caindo aos poucos e infiltrando no solo, hoje há um outro modelo: aquela chuva torrencial, que vem de uma vez só e o solo não tem tempo para absorver. Essa chuva corre para o rio e do rio ela vai embora, vai para o mar e não é absorvida. A recarga dos nossos lençois freáticos tem um nível de comprometimento. Por causa disso, os nossos rios têm baixado a vazão. Se aquela chuva que choveu não infiltrou, na hora de sair tem menos água para sair lá nos cursos d’ água superficiais. Partindo desse pressuposto, o que é o trabalho que a gente fez? Todo o monitoramento, fizemos todo o enquadramento dos rios goianos, pelo menos a metade do estado já está pronto e a outra metade em andamento, dizendo onde tem rio poluído, onde não tem, onde precisa descontaminar para que tenha de fato e efetivamente a água disponível para as atividades econômicas, não só para o abastecimento público. Essa ação mostra onde tem hoje água disponível para crescimento da indústria, do agro e tudo mais. Está tudo no site, é tudo online, tudo eletrônico, qualquer pessoa que queira fazer uso de água no estado, quer montar aqui uma indústria, vai no nosso site. Isso norteia o desenvolvimento, porque se a pessoa já sabe que ali não vai ter água disponível, nem instala ali; vai procurar um local mais adequado. Com isso a gente distribui melhor o movimento de desenvolvimento estadual. Recursos hídricos é chave, tem um olhar muito cuidadoso nosso, nós avançamos enormemente na gestão de recursos hídricos, mas é fato: a cada ano que passa, o regime climático vai mostrando que aumenta o número de municípios em risco de abastecimento e vem muito dessa ação que é um problema climático mundial, do planeta, mas a nossa ação só pode ocorrer em nível local. 

Em relação às outorgas, o campo e as indústrias consomem muita água. O monitoramento da captação de água dos rios é eficiente?

100%. Nosso cenário hoje é de controle de todo o uso de recursos hídricos. Está tudo disponível também. As outorgas são analisadas conforme a disponibilidade hídrica, a gente atualizou a nossa base de dados, tornando ela 1000% mais técnica, para saber quanto efetivamente tem de água para que ela possa ser outorgada. A gente já olha para o Estado sabendo que onde tem problema de disponibilidade, onde tem água sobrando, onde dá para distribuir e onde já está correndo risco. Isso para nós hoje é muito claro, informação e dado é o que mais temos, e a gestão acontece nessa perspectiva, de forma muito cuidadosa e muito técnica.

O Novo PAC, a revitalização das bacias, o Pacto pela Governança da Água  alcançam o Estado e há um intercâmbio entre o governo federal e o do estado?

O intercâmbio com o governo federal, sobretudo na gestão de recursos hídricos, acontece com a Agência Nacional de Águas (ANA), com quem temos parcerias inclusive no monitoramento de recursos hídricos, mas recurso público dirigido para políticas públicas de conservação, preservação e recuperação: zero. Não recebemos nenhum tipo de apoio do governo federal, a não ser alguns pequenos convênios de R$ 1 milhão, R$ 2 milhões para gestão. Tem um programa chamado Pró-Gestão, a ANA repassa recursos para atingir as metas de gestão. Mas dinheiro voltado para melhoria do sistema hídrico? Nenhum. É uma parceria mais teórica, mais no nível institucional e muito menos um nível prático. A gente não vê ações do governo federal pensando  Goiás como um território que precise de um olhar mais cuidadoso para a gestão de recursos, isso não existe.

Em relação aos resíduos sólidos, no dado mais recente, cerca de 20% dos municípios goianos ainda não iniciaram o processo de formalizar a destinação correta dos resíduos sólidos. Qual é o prazo para que isso efetivamente se resolva no contexto estadual?

Temos na etapa de resíduos sólidos um programa chamado Lixão Zero, que é dividido em dois tempos, que a gente chama de fase provisória, intermediária e fase final. A fase final envolve a concessão do serviço público de destinação adequada de resíduos sólidos para o estado como um todo. Fazemos isso dentro das microrregiões do saneamento básico, que são três microrregiões, e contratamos o BNDES para modelar todo esse processo de concessão. É um processo único no Brasil, não tem nenhum estado fazendo isso, ou seja, é um ataque de uma vez só e envolve os 246 municípios de Goiás. É uma modelagem do ponto de vista de um serviço público que nunca foi concessionado, salvo um ou outro caso, mas nessa escala que estamos fazendo é inovação total, e ao mesmo tempo ele está cumprindo o cronograma. O nosso cronograma está em dia e até o mês de novembro deste ano tem  leilão para selecionar quais empresas serão as concessionárias do serviço público de resíduos sólidos. Isso é bastante inovador, estamos avançando largamente com esse processo e essa é a etapa definitiva. Pretendemos  resolver com um operador, como tem um operador de água, que a Saneago, de energia, que a Equatorial, vamos ter um operador de resíduos sólidos para o estado de Goiás, ou vários, dependendo das microrregiões e como isso está sendo estabelecido. Na fase intermediária, estamos promovendo a regularização de todos os lixões do estado de Goiás. Os municípios têm a obrigação de fazer a destinação adequada do seu resíduo, levar para aterros licenciados, a depender da distância, eles são obrigados desde já, e os municípios pequenos, que têm a maior dificuldade, estamos operando com aterros de pequeno porte, então são aterros controlados de pequeno porte até que a fase definitiva possa abranger esse serviço. Dentro das metas, os municípios têm implementação de coleta seletiva, fortalecimento das cadeias de resíduos sólidos com as cooperativas, com os catadores, com a logística reversa, também as empresas que são obrigadas a promover a logística reversa, todas ativas, com metas e obrigações a serem atingidas. Estamos trabalhando nas duas frentes, e nessa frente provisória 20% dos municípios ainda não tomaram providências. E o que a gente faz? Conversa com o prefeito, multa, embarga o lixão e vai forçando a obrigação de que eles entrem definitivamente no programa. Ainda há uma baixa cultura voltada à gestão pública, sobretudo nos municípios, para a resolução adequada de resíduos sólidos. Mas a gente avançou muito, saiu de 96% dos municípios em situação irregular para 20%, uma redução fantástica na perspectiva de pouco tempo de programa, e eu não tenho dúvida que vamos sair desse mandato do governador Ronaldo Caiado com a questão dos resíduos sólidos resolvidos.

Qual o papel do BNDES nesse processo de encerramento dos lixões?

O BNDES dividiu o estado em várias regiões e para cada conjunto de municípios que está em uma dessas regiões vai ter uma uma solução tecnológica. Nesse vai ter um aterro sanitário, neste município só vai ter uma estação de transbordo, este município leva até a estação de transbordo, do transbordo vai para o aterro final; aqui vai ter uma solução tecnológica, por exemplo, como produção de energia. Isso tudo o BNDES está produzindo. A gente ainda não tem exatamente a conclusão do trabalho, está bem avançado. As regiões já foram divididas e em cada uma delas está sendo feito nesse momento, a rota tecnológica. A partir disso, quando for licitado, o concessionário vai assumir e vai construir, fazer os investimentos para toda a operação.

A senhora trabalha com qual cronograma para licitação?

Novembro deste ano. Depois que o concessionário ganhar, vai ter todo um cronograma de implantação. Ele não vai ganhar e no dia seguinte já está operando.

O programa prevê a implementação dessas soluções em quantos anos? 

Esse número ainda não tem, mas o concessionário vai ter no contrato a modelagem que está em desenvolvimento. Quando sair no final do ano o leilão, já vai estar claro, implanta aqui, implanta ali, tem tanto prazo, a tarifa que vai poder cobrar vai estar tudo desenhado. Como está em processo, eu não tenho o número ainda.

A senhora disse que é uma inovação do Estado. São políticas inspiradas onde? 

Tudo criação nossa. Temos em alguns lugares do Brasil, consórcios de municípios, regiões que foram integradas; aqui não vai ser uma solução cada município com seu aterro, isso é inviável do ponto de vista econômico. A gente entendeu pela regionalização e pelo agrupamento de municípios. O modelo é inovador nessa perspectiva? Não, porque agrupamento de municípios já acontece, já se sabe qual é a logística, quanto é que um transporte viabiliza o aterro. A questão da grande inovação é fazer isso em escala, em 246 municípios. Isso não existe no Brasil. O que a gente está fazendo é uma grande inovação com a concessão do serviço público.

Padre Bernardo foi o maior desastre ambiental dos últimos anos relacionado à gestão dos resíduos sólidos, quando uma grande quantidade de lixo acumulado deslizou e contaminou um córrego local. Como está a fase de responsabilização e correção do passivo ambiental?

Em o Padre Bernardo era um lixão operado com autorização judicial, nunca teve licença para operar e foi um acidente gravíssimo na perspectiva do impacto ambiental. As condições de operação daquele aterro eram muito precárias, porém, fizemos todo o acompanhamento, e continuamos a fazer o monitoramento, e a empresa responsável tem respondido à altura na seguinte perspectiva: minimizar o impacto, que foi tirar todo o lixo do curso d’água. Com o período chuvoso, já se esperava que houvesse alguma situação e de fato aconteceu, mas muito menor; cedeu novamente uma parte, mas eles estão trabalhando com as dificuldades do período chuvoso. Saiu inclusive uma decisão judicial, que tínhamos 24 horas para entregar um plano. A gente já estava fazendo o máximo que podia ser feito. Houve uma intervenção, na minha opinião, muito equivocada do Ministério Público pedindo essa ação emergencial no período chuvoso E o Judiciário, na véspera do final do ano, acabou concedendo uma liminar completamente esdrúxula, a gente conseguiu reverter parcialmente no Tribunal Regional Federal, porque está sendo feito o que é possível, minimizando o máximo que dá em razão daquele acidente. Sobretudo ali, acho que o grande equívoco foi uma tentativa do Ministério Público de trazer como obrigação do Estado solucionar um problema que é do empreendedor, e que ele vem, de certa forma, fazendo isso. Eu penso que o dinheiro público não deve ser destinado, porque vem dos tributos da população, para resolver problema de entidade privada que agiu de forma ilegal e criminosa. Esse talvez seja o maior equívoco desse processo, mas a situação de Padre Bernardo está sob controle. É uma situação complexa, difícil, porque são milhares de toneladas que estão depositadas lá, só o custo de remoção do chorume, ou o custo de remoção daquele lixo estratosférico, é coisa de R$ 100 milhões, R$ 200 milhões para fazer uma gestão mínima. Quando há uma intervenção do Poder Judiciário equivocada, como foi nesse caso, permitindo isso (operar sem a licença ambiental), depois sobrar para o Poder Executivo ter que investir recursos para poder minimizar um problema que não deveria ter acontecido por decisão judicial. É muito complexo tudo isso, não só do ponto de vista institucional, jurídico, mas também técnico, porque depois que o problema acontece, a intervenção tem que ser realizada. Do ponto de vista de controle, porque tinha muito vetor, chorume no rio, tudo isso foi contornado, foi resolvido da melhor forma possível, não é a ideal, mas a melhor forma possível.

Como a senhora classifica hoje a situação na capital? Ambientalmente existe um lixão ou um aterro sanitário em fase de licenciamento?

A situação de Goiânia ainda é bastante crítica e temos hoje, na legislação brasileira, dois modelos: ou é um aterro sanitário, e para ser um aterro sanitário tem que atender uma série de requisitos, que uma vez validados, é emitida uma licença ambiental. Nesse caso temos um aterro sanitário; fora disso é lixão, porque não atende os requisitos mínimos, ambientais, sociais e institucionais que são requeridos. Isso não é uma questão de opinião, é uma questão legal, ou é aterro ou é lixão. Enquanto não cumprir todos os requisitos técnicos não pode ser chamado de aterro. ‘Ah, você quer diminuir o esforço?’  Não, é porque ou é uma coisa ou é outra, não existe meio termo. Esse requisito técnico não diz respeito à poluição, diz respeito a combate a vetores, aqueles animais, a lançamento e risco de lançamento de chorume em curso d’água, na contaminação de solo, na gestão da pilha de lixo, para que não tenha risco de explosão, risco de desmoronamento, é uma série de requisitos técnicos que um aterro sanitário precisa atender para ser chamado de aterro. Infelizmente, até onde a gente conseguiu acompanhar, porque estava sob a nossa competência até o ano passado, antes da decisão judicial, a gente não tinha como atestar que a situação de Goiânia poderia ser chamada de aterro sanitário. A gente perdeu o controle e a fiscalização por ordem judicial.

A prefeitura conseguiu na Justiça a prerrogativa de licenciar o aterro, mas pediu ajuda para os técnicos da Semad. Sabe em que estágio está o licenciamento?

O auxílio que a prefeitura pediu foi de capacitação. O que a gente fez e está em curso é a capacitação dos técnicos da prefeitura para licenciar o aterro de Goiânia. Não foi solicitado para que a gente avaliasse impacto ambiental, nada disso; é capacitação, e a gente se comprometeu. A resposta que tem que ser dada é o controle ambiental efetivo da situação dos resíduos sólidos de Goiânia e de qualquer outro município. O que a gente puder fazer para apoiar, a gente vai fazer.

É tecnicamente possível resolver os problemas estruturais e transformá-lo em um aterro sanitário, observados os padrões legais?

Tecnicamente possível sempre é, mas isso envolve muito investimento. É um aterro que está em fase final de vida útil, não comporta mais receber por muitos anos resíduo, tem uma gestão que vai acontecer ao longo de muitos anos e envolve uma série de questões que precisam acontecer. Em meio ambiente tudo pode melhorar,  mas tem que fazer o investimento e atender aos requisitos técnicos necessários.

O prefeito Sandro Mabel classificou a Semad como um câncer dentro do governo e falou que a senhora atuava junto de uma máfia do lixo. A senhora atua num campo político melindroso, mas essa fala causou algum estranhamento na senhora?

Essa fala é um absurdo, é uma verdadeira… nem que nome que a gente dá para um ataque de um prefeito, como é o caso do Sandro Mabel, com relação a isso. Primeiro, me acusar de qualquer tipo de interferência que não seja absolutamente republicana é um absurdo. Eu tenho 29 anos de serviço público, eu sou servidora pública de carreira, eu não tenho uma mácula no meu nome, eu não admito esse tipo de acusação do prefeito Sandro Mabel, nem dele, nem de ninguém. Eu não atuo como máfia, eu não atuo de forma irregular, nunca farei isso. Ele não tem o menor elemento para me acusar. É uma situação de indignação com esse tipo de fala. Indignação, isso é uma verdadeira aberração do prefeito Sandro Mabel, isso eu falo em meu nome, não estou nem aí se a questão política é mais sensível, menos sensível, mas é inadmissível que um gestor público que já está há mais de um ano no cargo  não consiga dar solução para o aterro dele e queira fazer essa cortina de fumaça, de acusações e tudo mais, sem ter apresentado um único avanço no aterro sanitário de Goiânia até então. Então isso é importante dizer. Com relação a Semad ser um câncer, esse é o maior absurdo de toda a história. Veja só, no final do ano passado o governo Caiado foi avaliado pela população, por institutos de pesquisa, como o melhor do Brasil na gestão de meio ambiente. E eu faço aqui um desafio nesse momento:  qual órgão de meio ambiente do país tem mais resultados e mais efetividade que a Semad. Falando de aterro, saímos de 96% de lixões em situação irregular para 20%, um avanço é significativo; e não é só em aterro, temos avanço no controle do desmatamento, no licenciamento ambiental, na emissão das outorgas, no pagamento de serviços ambientais, ou seja, qualquer política pública ambiental hoje estabelecida na legislação brasileira, a gente está nas primeiras colocações do Brasil. Falar que a Semad, que está fazendo o controle, promovendo a segurança ambiental e de saúde pública da população, é um câncer, é o mesmo que dizer: me deixe continuar fazendo errado, porque não tem dinheiro para investir nem capacidade técnica para gerir. Ao mesmo tempo, a culpa passa a ser de quem aponta o erro. Isso é um equívoco da gestão pública brasileira. Infelizmente, nesse ponto, eu tenho minhas críticas flagrantes ao prefeito Mabel por fazer um tipo de ataque totalmente desnecessário. Bastaria ele fazer o que tem que fazer no aterro e parar de atacar quem está só apontando o problema. E é um problema existente, não é um problema fictício, é um problema real. Eu desafio qualquer um a dizer que aquele aterro está em condição de operar como aterro sanitário.

A Semad determinou, no final do ano passado, a suspensão da destinação do chorume para a Saneago. Houve nova judicialização com decisão favorável ao município. Essa liminar ainda está em vigor? 

Essa é mais uma questão técnica do aterro. O aterro sanitário produz chorume, um resíduo líquido cheio de contaminantes, com metais pesados, coisas que provocam doenças e contaminação, uma série de resultados muito negativos, tanto ambientais quanto para a saúde pública. O tratamento desse tipo de resíduo é muito específico, precisa ter uma estação de tratamento que faça a separação daquilo que é contaminante, que não deixe isso ir para a natureza, nem para nada. A gente descobriu, enquanto a Semad ainda estava responsável pelo controle e fiscalização do lixão de Goiânia, que havia um desvio desse chorume para tratamento na estação de esgoto da Saneago. Uma estação de esgoto é preparada para tratar o esgoto, que não é o mesmo resíduo do chorume. O esgoto humano, basicamente, são produtos orgânicos, tem um tipo de bactérias que faz o processamento e o tratamento. Não é, e não tem como ser o mesmo do chorume, porque o chorume tem metal pesado, é outro tipo de tratamento. Há um equívoco absoluto do ponto de vista técnico do envio do chorume para tratar na estação da Saneago. O que estava acontecendo na verdade: não trata e lança o chorume diluído lá no rio Meia Ponte, aqui no caso. Do ponto de vista técnico, isso é inadequado, entretanto, de novo, porque o lixão de Goiânia não tem o tratamento, o que começou a acontecer? No período de chuva, as lagoas começaram a ter risco de transbordamento. O Judiciário fez a seguinte leitura: se transbordar é ruim, se mandar para Saneago é ruim, vamos ficar com menos ruim, deixa ir para Saneago. Mas na verdade o que vai acontecer é o lançamento de chorume sem tratamento no curso d’água.

A Tribuna do Planalto mostrou que a prefeitura já emitiu ordem de serviço para a nova empresa que vai fazer o tratamento. Isso no início do mês de janeiro. Do ponto de vista da Semad, esse seria um problema resolvido?

A ordem judicial deu um prazo para o município deixar de mandar o chorume para a Saneago. Nosso controle é sobre a Saneago, porque a Saneago é licenciada por nós. Quando der o prazo, a Saneago não pode mais receber.

Quais são as prioridades da Semad para este último ano da atual gestão?

Prioridade é encerrar esse mandato do governador Ronaldo Caiado, de forma a entregar todas as propostas e tudo que vem sendo desenvolvido, já entregamos quase tudo; é um ano de finalização, de encerramento de algumas estratégias. Por exemplo, tornar os nossos processos, pedidos e requerimentos de licenciamento, outorga, declaração ambiental do imóvel, cadastro ambiental rural, não só informatizado, porque todo já foi. Era papel quando a gente chegou. Informatizatizamos tudo, garantindo um prazo e eficiência muito maior. Mas a gente chega a esse ano com uma inovação que é a inteligência artificial. Esses sistemas estão sendo desenvolvidos para que a gente já entre com a inteligência artificial na análise dos processos, ganhe mais efetividade, ganhe mais, inclusive, otimização da nossa força de trabalho. Programas como o Programa de Serviços Ambientais, saímos de 8 municípios para 15 ou 16,  houve um incremento em mais municípios abrangidos pelo projeto. Temos  propostas importantes, como a venda de crédito de carbono, que também é uma inovação. Este ano a gente ainda não consegue vender os créditos, mas ele estará pronto para entrar em processo de venda. É uma inovação nossa para atrair recursos para fazer investimentos no Estado com relação às políticas de meio ambiente. O programa estadual do Cadastro Ambiental Rural que também vai entrar no ar com análise automatizada para que a gente vire essa página do Código Florestal no Estado. Ainda tem muitos programas que a gente precisa completar e tudo já está andando, tudo está funcionando. Estamos colocando a cereja no bolo em alguns programas e é isso que a gente pretende entregar esse ano, tudo liquidado, e talvez o maior desafio seja os resíduos sólidos, chegar com o leilão concluído no final deste ano.

 

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