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Partidos sem rumo, candidatos sem preparo: uma ideia para salvar a democracia brasileira


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 14/05/2026 - 10:24

democracia

Anos atrás, quando o Brasil assistiu à eleição de Francisco Everardo Oliveira Silva para deputado federal com mais de um milhão de votos, muita gente tratou aquilo como uma piada nacional. E talvez tenha sido exatamente esse o problema. Tiririca, figura conhecida da televisão e do humor popular, sempre teve talento para a comédia — e nisso ninguém pode negar sua habilidade. Mas sua estreia na política veio embalada por frases curtas, de impacto imediato e carregadas de desprezo pela própria atividade política: “Pior que tá não fica” e “Chegando lá em Brasília eu descubro o que faz um deputado”. O brasileiro riu. A campanha viralizou antes mesmo da palavra “viralizar” dominar o vocabulário político. Só que por trás da caricatura existia algo muito menos engraçado. Tiririca não surgiu do nada. Sua candidatura foi construída e impulsionada por dirigentes partidários experientes, que enxergaram naquela figura midiática um gigantesco potencial eleitoral.

No Brasil, eleições proporcionais não são apenas disputas individuais. São operações matemáticas de poder. Quando um candidato extremamente popular alcança uma votação gigantesca, ele ajuda a puxar outros nomes da chapa que, sozinhos, dificilmente seriam eleitos. É aí que entram os verdadeiros estrategistas do sistema: dirigentes partidários que negociam vagas, ampliam bancadas, aumentam influência política, fortalecem espaços de poder e ampliam acesso ao fundo partidário e ao fundo eleitoral.

Por trás do personagem engraçado, havia uma engrenagem profissional funcionando com absoluta racionalidade política.

Agora, em mais um ciclo de esgotamento da política brasileira, surge outro fenômeno semelhante: o “Caneta Azul”. Conhecido nacionalmente por músicas cômicas, frases repetitivas e um jeito espontâneo — quase folclórico — de existir publicamente, o cantor entra no radar eleitoral repetindo um roteiro já conhecido. Em entrevista ao jornalista Paulo Mathias, em São Paulo, demonstrou novamente total despreparo para qualquer debate minimamente sério sobre vida pública, administração do Estado ou democracia.

Mas seria ingenuidade imaginar que tudo isso nasce apenas do acaso ou da irreverência popular. Não nasce.

Tal qual ocorreu com Tiririca, existem grupos políticos atentos ao capital eleitoral dessas figuras. Os lobos da política se escondem vestidos de cordeiros. Não estão interessados necessariamente na capacidade administrativa, intelectual ou política desses candidatos. Estão interessados nos votos. Nos coeficientes eleitorais. Na engenharia do poder. Nos mandatos indiretos que uma candidatura popular pode gerar dentro de uma chapa proporcional.

Não há absolutamente nada de ingênuo nisso.

E talvez esteja na hora de o Brasil discutir seriamente uma reforma política profunda — não apenas eleitoral, mas partidária.

Hoje, o sistema partidário brasileiro se transformou numa verdadeira salada de frutas ideológica. Partidos surgem sem identidade clara, sem programa consistente, sem formação política e, muitas vezes, sem qualquer compromisso intelectual com o país. Na prática, muitas legendas funcionam como empresas privadas abastecidas por dinheiro público. Registram candidaturas aleatórias, improvisadas e completamente desconectadas da história, dos valores e até da suposta ideologia que afirmam representar.

Falo isso como alguém que dedicou grande parte da vida à militância partidária.

Fui filiado ao PSDB por quase vinte anos. Exerci funções de secretário e presidente da juventude partidária, participei de executivas, diretórios e atividades internas da legenda. Tive uma breve passagem pelo PT e hoje estou formalmente filiado ao PSB, embora sem qualquer atuação cotidiana dentro do partido.

Essa trajetória me permitiu compreender uma verdade fundamental: partidos políticos são essenciais para a democracia.

São eles que organizam o debate público, estruturam projetos de poder, formam lideranças e traduzem interesses da sociedade em programas políticos. Quando os partidos deixam de exercer esse papel, a democracia enfraquece. E quando os partidos viram um território sem ordem, sem identidade e sem responsabilidade, o resultado inevitável é a instabilidade democrática.

O Brasil vive exatamente isso.

Os partidos precisam voltar a representar setores reais da sociedade. Precisam recuperar sua essência histórica. Precisam voltar a disputar eleições defendendo projetos políticos claros, coerentes e alinhados aos seus programas e estatutos.

Hoje, a política brasileira vive aprisionada numa simplificação grotesca entre “direita” e “esquerda”. Nesse reducionismo permanente, as ideologias reais desapareceram. Os partidos viraram um grande balaio de gato: joga-se um grupo inteiro de um lado, outro tanto do outro, e pronto. Como se pensamento político pudesse ser resumido a hashtags e guerras culturais de internet.

A política é muito mais complexa que isso.

Talvez esteja na hora de repensarmos o funcionamento interno dos partidos.

Uma pessoa que desejasse ingressar numa legenda deveria, antes de tudo, passar por formação política. Estudar a história do partido, sua ideologia, seu programa econômico, social e institucional. Deveria frequentar aulas, debates, encontros e atividades voltadas à compreensão dos problemas nacionais sob a ótica daquela corrente política.

Depois disso, deveria existir uma avaliação séria sobre sua capacidade para a vida pública. Não apenas capacidade eleitoral, mas preparo intelectual, equilíbrio emocional, compromisso democrático e alinhamento programático.

Os partidos deveriam funcionar como verdadeiras escolas de líderes públicos.

Faculdades de formação política.

Hoje, isso praticamente não existe.

Em seguida, caso desejasse disputar eleições, esse filiado deveria apresentar um programa de campanha ao partido. Esse programa seria analisado por uma comissão técnica e política da legenda, responsável por verificar se aquelas propostas estão em consonância com os princípios partidários e com a visão de sociedade defendida pelo partido.

Somente após essa análise o projeto político — e não apenas a popularidade individual do candidato — seguiria para convenções partidárias e, posteriormente, para as urnas.

Parece rígido? Talvez.

Mas democracia séria exige responsabilidade séria.

Isso tudo é apenas uma ideia. Uma provocação. Uma reflexão em tempos de profundo esgotamento institucional. Mas os partidos políticos brasileiros precisam urgentemente de um choque de realidade.

Porque da forma como muitos dirigentes partidários conduzem suas legendas hoje, os partidos deixaram de fortalecer a democracia brasileira — e passaram, lentamente, a corroê-la de dentro para fora.

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