Manifestações contra superlotação, falta de professores e prédios degradados se espalham pelo país. Governo aponta violência e propõe responsabilizar pais por danos.
A França enfrenta uma das maiores mobilizações estudantis das últimas décadas. O movimento começou em 21 de setembro, com uma manifestação de apoio a professores em greve em uma escola de ensino médio no subúrbio de Paris. Em poucos dias, o protesto se espalhou por todo o país, de Lille a Marselha, e transformou-se em uma crise nacional.
Estudantes de centenas de escolas bloquearam entradas, ergueram barricadas e entraram em confronto com a polícia. O governo francês anunciou o fechamento de mais de 400 escolas de ensino médio. As imagens de lixeiras incendiadas e confrontos dominaram o debate público.
As causas da revolta
Os estudantes denunciam um sistema educacional superlotado e mal equipado. No setor público, 70% das salas de aula têm mais de 30 alunos. As escolas de ensino médio contam com menos professores do que em 2008, apesar de haver 250 mil alunos a mais matriculados. Entre 7,5% e 10% das horas de aula são perdidas por falta de substituição de professores.
Os prédios também estão em estado de degradação. Vídeos mostram salas com carteiras insuficientes e estudantes sem aulas quando um professor falta. A situação é ainda mais grave em territórios ultramarinos, como Mayotte, onde algumas escolas recebem até três vezes mais alunos do que a capacidade prevista.
Os números da repressão
Mais de 2.000 pessoas foram detidas desde o início dos protestos. Segundo o Ministério da Justiça francês, 90% delas são adolescentes. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, classificou a situação como uma “escalada de violência” e afirmou que o movimento se expandiu para além das escolas.
Pelo menos 215 estudantes ficaram feridos, alguns em confrontos com a polícia. Dois casos graves chamaram atenção: um estudante em Lens perdeu a mão após pegar uma granada, e outro em Tours perdeu a visão de um olho. Os danos às escolas na região metropolitana de Paris são estimados em 7 milhões de euros.
A resposta do governo
O governo francês tem adotado um discurso de condenação à violência e de apontamento da extrema-esquerda como responsável pela escalada. O presidente Emmanuel Macron criticou políticos do partido França Insubmissa (LFI) por “legitimar a violência”. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, propôs que os pais paguem pelos danos causados pelos filhos, ideia classificada como “absurda” pela oposição.
O ministro da Educação, Édouard Geffray, reuniu-se com líderes estudantis na sexta-feira (2), mas não houve acordo. O governo também criou uma plataforma online para que estudantes apresentem suas demandas. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu determinou que os ministros apresentem propostas até o fim de outubro.
Violência policial e críticas
Estudantes e organizações de direitos humanos acusam a polícia de uso excessivo de força. Um policial foi filmado aplicando um golpe de “mata-leão” em uma jovem em Alençon, técnica proibida por lei. A polícia afirma que atua de forma “necessária e proporcional”.
Líderes estudantis, como Manès Nadel, da organização La Voix Lycéenne, criticam a postura do governo. “A resposta do governo tem sido irresponsável e confirma exatamente por que os estudantes estão revoltados: porque nunca são ouvidos”, declarou. “Eles estão respondendo apenas com repressão.”
Próximos passos
Líderes estudantis convocaram uma mobilização em massa para esta terça-feira (6). Sindicatos e organizações estudantis devem se juntar aos protestos, com mais de 200 manifestações previstas em todo o país. A crise ocorre às vésperas das eleições presidenciais francesas, marcadas para a primavera de 2027, e embaralha o cenário político.
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