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Quase 60% dos pacientes com hipertensão não seguem tratamento no Brasil

Estudos mostram baixa adesão ao tratamento entre pacientes hipertensos e diabéticos, enquanto cardiologista alerta que a ausência de sintomas pode levar ao abandono dos cuidados


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 26/09/2026 - 09:10

Foto: Magnific
Hipertensão no Brasil preocupa especialistas devido à baixa adesão ao tratamento e ao risco de infarto, AVC e outras doenças cardiovasculares. Foto: Magnific

A hipertensão no Brasil continua como um dos principais desafios para a prevenção de doenças cardiovasculares. Dados de um estudo multicêntrico com 2.578 pacientes mostram que quase 60% dos brasileiros com hipertensão não seguem de forma adequada o tratamento prescrito. Em outro levantamento, feito pela Universidade de São Paulo (USP), exames de urina também revelaram uma diferença expressiva entre o que os pacientes afirmam fazer e o que os testes indicam: embora 90,1% tenham relatado uso regular dos medicamentos, apenas 32,4% apresentaram sinais da medicação nas amostras analisadas.

Os dados ganham relevância durante o Setembro Vermelho, período dedicado à conscientização sobre a prevenção das doenças cardiovasculares. O cenário também aparece no estudo SNAPSHOT-Brazil, que avaliou pacientes com hipertensão e diabetes tipo 2. Apenas 12,7% dos participantes mantinham as duas doenças controladas. Entre eles, 76,1% estavam classificados em uma faixa de risco cardiovascular muito alto.

Para a cardiologista Lorena Rebouças, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, um dos principais obstáculos está na própria característica da hipertensão. Como a doença costuma não apresentar sintomas, muitos pacientes interpretam a melhora da pressão como sinal de cura e interrompem o tratamento.

“Como a hipertensão geralmente não causa sintomas, a pessoa começa a tomar o remédio, a pressão melhora, ela pensa que está bem e abandona o tratamento. Mas, muitas vezes, ela está bem justamente porque o tratamento está funcionando”, destaca a cardiologista.

A médica também chama atenção para pacientes que concentram os cuidados apenas nos números apresentados pelo aparelho de pressão. Segundo ela, o controle da doença exige uma abordagem mais ampla, que inclua alimentação, atividade física, peso corporal, consumo de álcool e qualidade do sono.

“Hipertensão controlada por medicamento continua sendo hipertensão. Precisamos entender que controlar a pressão não é apenas tomar um comprimido. É reduzir o risco de infarto, AVC, doença renal e outros problemas ao longo da vida”, ressalta Lorena.

Doença pode evoluir sem sintomas

A hipertensão arterial é caracterizada pela elevação persistente da pressão sanguínea e pode permanecer durante anos sem provocar sinais perceptíveis. Essa característica dificulta o diagnóstico e favorece a interrupção do acompanhamento médico.

“A pessoa pode passar anos com a pressão alta, sentindo-se bem, enquanto a doença vai prejudicando os vasos, o coração, os rins e o cérebro. Por isso, não devemos esperar sentir alguma coisa para medir a pressão”, alerta a cardiologista.

Segundo Lorena, quando surgem complicações, como um acidente vascular cerebral (AVC) ou um infarto, o organismo pode já ter sofrido danos acumulados ao longo de anos.

“Quando aparece um sintoma ou uma complicação, como um AVC ou um infarto, muitas vezes a doença já vinha evoluindo há bastante tempo. A hipertensão não costuma avisar. A única forma de saber se a pressão está alta é medir”, afirma.

A recomendação de acompanhamento não se restringe à população idosa. Embora o risco aumente com a idade, adultos jovens também podem desenvolver hipertensão. Excesso de peso, sedentarismo, alimentação inadequada, apneia do sono, doença renal e histórico familiar estão entre os fatores associados ao surgimento precoce da doença.

“O risco aumenta com a idade, mas jovens com excesso de peso, sedentarismo, alimentação inadequada, apneia do sono, doença renal ou histórico familiar também podem desenvolver pressão alta mais cedo. Por isso, medir a pressão deve fazer parte da avaliação de saúde, mesmo quando a pessoa se sente bem”, orienta Lorena.

Histórico familiar aumenta o risco

A genética também influencia a possibilidade de desenvolver hipertensão. Pessoas com familiares hipertensos apresentam maior predisposição, mas a ausência de casos na família não elimina o risco.

“Genética é predisposição, não destino. Mesmo quem tem histórico familiar pode reduzir bastante o risco cuidando dos fatores que podem ser modificados. A hipertensão é uma doença multifatorial, depende de idade, alimentação, excesso de peso, consumo de álcool, sedentarismo, sono ruim, estresse e doenças renais”, explica a cardiologista.

A pressão elevada por períodos prolongados pode provocar sobrecarga do coração e danos às artérias. Entre as complicações associadas estão AVC, infarto, insuficiência cardíaca, doença arterial periférica, fibrilação atrial e doença renal crônica. Alterações nos olhos também podem ocorrer em casos mais graves.

A médica destaca ainda possíveis impactos sobre a saúde cerebral.

“Também existe uma relação com problemas de memória e demência. Controlar a pressão é cuidar do cérebro. Quando tratamos a hipertensão não estamos apenas baixando um número no aparelho, mas protegendo o coração, o cérebro, os olhos, os rins e os vasos sanguíneos”, pontua.

Mudança de hábitos faz parte do tratamento

A prevenção e o controle da hipertensão dependem de mudanças na rotina. Entre as principais recomendações estão manter o peso adequado, praticar atividade física regularmente, moderar o consumo de sal, reduzir alimentos ultraprocessados e controlar a ingestão de açúcares e carboidratos.

A alimentação deve priorizar frutas, verduras e legumes. Também são recomendados o abandono do cigarro, a moderação no consumo de bebidas alcoólicas e cuidados com o sono.

“Também precisamos prestar atenção à gordura abdominal. Obesidade, resistência à insulina e síndrome metabólica costumam estar associadas à hipertensão. E não é preciso esperar a pressão subir para começar a se cuidar. Quanto mais cedo mudamos esses hábitos, maior a chance de prevenir ou adiar a doença”, afirma Lorena.

Quando as mudanças de estilo de vida não são suficientes ou quando o risco cardiovascular exige intervenção medicamentosa, o tratamento pode incluir remédios específicos. A escolha depende das características de cada paciente.

“Hoje existem remédios eficazes e seguros e, às vezes, precisamos combinar mais de um para controlar melhor a pressão. O tratamento é individualizado, de acordo com a idade, o risco cardiovascular, a função dos rins e outras doenças que a pessoa possa ter”, explica a especialista.

Os estudos reforçam, portanto, que controlar a hipertensão não depende apenas de receber uma prescrição médica. A continuidade do tratamento, o acompanhamento periódico e a adoção de hábitos saudáveis são fatores importantes para reduzir o risco de complicações cardiovasculares.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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