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Bolívia: prisão de procurador-geral acende alerta de golpe de estado e interferência dos EUA na América Latina

Procuradoria da Bolívia denuncia "sequestro" de procurador-geral e alerta para golpe de estado; ex-presidente Gustavo Petro afirma que há um golpe em curso e associa ação à interferência dos EUA na América Latina


Fábio Prado Por Fábio Prado em 01/10/2026 - 16:18

Bolívia: prisão de procurador-geral acende alerta de golpe de estado e interferência dos EUA na América Latina
Bolívia: prisão de procurador-geral acende alerta de golpe de estado e interferência dos EUA na América Latina - Foto: Alzar Rades/AFP

Procuradoria denuncia sequestro de Roger Mariaca, detido dois dias após Washington cancelar seu visto. Gustavo Petro afirma que há um golpe em curso na Bolívia e alerta para o risco de o mesmo ocorrer no Brasil.

A prisão do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, e do procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos, na noite de quarta-feira (30), acendeu um alerta sobre a democracia boliviana e reacendeu o debate sobre a interferência dos Estados Unidos na América Latina. A detenção ocorreu no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz, apenas dois dias depois de o governo de Donald Trump ter cancelado o visto de Mariaca por supostos vínculos com o narcotráfico.

A Procuradoria-Geral da Bolívia classificou a ação como “sequestro” e “detenção ilegal”. Em transmissão ao vivo pelas redes sociais da instituição, a chefe de comunicação, Claudia Pardo, denunciou que policiais encapuzados ingressaram ilegalmente na sede em Sucre e detiveram funcionários. “Desconhecemos o motivo do sequestro de nosso procurador-geral do Estado e denunciamos que pessoal policial está realizando uma busca ilegal”, declarou Pardo.

O que diz o governo boliviano

O ministro do Governo (Interior), Marco Antonio Oviedo, afirmou em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (1º) que a detenção desmontou uma organização criminosa infiltrada na Justiça. Segundo ele, a estrutura era destinada a proteger e incentivar o narcotráfico no país.

Oviedo declarou que Mariaca é investigado por lavagem de dinheiro, narcotráfico e organização criminosa. A acusação dos Estados Unidos é de que o procurador teria recebido propinas para facilitar o tráfico de drogas e ajudar criminosos violentos a evadir a Justiça.

No total, 14 pessoas foram detidas em Santa Cruz. Entre elas estão o procurador Zeballos, um procurador superior, um major da Polícia e seis funcionários da Procuradoria acusados de tentar retirar documentação da casa de Mariaca.

Alerta de golpe de estado

O ex-presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou nesta quinta-feira (1º) que há um golpe de estado em curso na Bolívia. Segundo ele, a operação nas dependências do Ministério Público boliviano estaria relacionada às investigações conduzidas por Mariaca contra o estrategista argentino Fernando Cerimedo.

“Na Bolívia há um golpe de Estado contra a democracia”, afirmou Petro. O colombiano associou o episódio a uma estratégia mais ampla de interferência política de Washington no continente. As acusações de Petro não foram comprovadas de forma independente, mas aparecem em meio ao endurecimento da atuação norte-americana na região.

Conexão com o Brasil

A prisão de Mariaca e o alerta de golpe na Bolívia têm conexão direta com o Brasil. Mariaca conduzia a investigação contra Fernando Cerimedo, consultor político argentino que atuou na campanha de Jair Bolsonaro em 2022 e participou de uma transmissão que levantou, sem provas, suspeitas de fraude nas urnas brasileiras.

Cerimedo é investigado na Bolívia por tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira Nadia Beller, além de enriquecimento ilícito e tráfico de drogas. Ele foi preso na Bolívia em agosto deste ano.

A operação contra Mariaca também ocorre em meio à escalada da pressão dos EUA sobre o Brasil. Na semana passada, o governo Trump destinou US$ 1 milhão a um projeto que contesta a atuação do Supremo Tribunal Federal e alega combater censura no país. A AGU classificou a medida como interferência estrangeira inadmissível.

Além disso, a Abin classificou como “crítico” o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O relatório reservado foi encaminhado à Presidência da República, ao TSE e ao Ministério da Justiça.

Escudo das Américas e interferência regional

A ação contra Mariaca ocorre no âmbito da iniciativa Escudo das Américas, aliança regional de governos conservadores impulsionada por Donald Trump para combater organizações criminosas e pessoas que as respaldam dentro das instituições.

A Bolívia é o país com mais cidadãos sancionados na lista publicada pelo Departamento de Estado americano, que inclui Mariaca e Zeballos. Washington acusa os listados de corrupção, vínculos com o narcotráfico ou conspiração contra seus respectivos governos.

O governo boliviano, presidido por Rodrigo Paz, de centro-direita, aderiu ao Escudo das Américas em março de 2026 e busca estreitar laços com Washington. A cooperação com a DEA foi retomada após duas décadas de suspensão.

O presidente colombiano associou o episódio a uma estratégia mais ampla de interferência política de Washington no continente. “A pressão violenta à Justiça para roubar as provas na Bolívia, que mostram como na América Latina se impuseram presidentes ilegítimos desde Washington, deve ser respondida com um grande movimento de juízes do mundo”, afirmou Petro.

Reação de Mariaca

Antes de ser preso, Mariaca havia classificado a decisão americana de cancelar seu visto como uma clara “interferência” em seu trabalho como investigador. “Me surpreendeu a decisão, mas a respeito como uma decisão que cada nação adota dentro de suas próprias competências e jurisdição”, declarou em coletiva nesta terça-feira.

“Espero o mesmo respeito para com nosso país, suas instituições e suas autoridades”, acrescentou. O procurador também vinculou a decisão de Washington às “implicações” que tiveram dentro e fora da Bolívia algumas investigações que o Ministério Público conduz, incluídos os casos penais contra Fernando Cerimedo.

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