O uso das chamadas canetas emagrecedoras cresceu entre pessoas sem obesidade, diabetes ou outra indicação médica registrada. O cenário foi identificado por um estudo publicado na revista científica Obesity, que analisou prontuários de 92,4 milhões de adultos dos Estados Unidos entre 2021 e 2025.
No período, 1,13 milhão de pessoas recebeu prescrições de liraglutida, semaglutida ou tirzepatida sem que houvesse justificativa aparente nos registros. A proporção subiu de 0,1% para 1,5%, um crescimento de 15 vezes. Entre esses usuários, 35,1% apresentavam índice de massa corporal considerado normal.
Para o médico nutrólogo e intensivista José Israel Sánchez Robles, o resultado reforça a necessidade de separar o tratamento médico do uso exclusivamente estético. “As chamadas canetas emagrecedoras representam um avanço importante no tratamento da obesidade e do diabetes. Isso, porém, não significa que devam ser usadas como um atalho por quem deseja perder apenas alguns quilos”, afirma.
Os medicamentos imitam a ação de hormônios produzidos pelo organismo, reduzem o apetite e retardam o esvaziamento do estômago. “Em pessoas sem excesso de peso, uma diminuição acentuada da ingestão alimentar pode favorecer quadros de desnutrição, deficiências vitamínicas e perda de massa muscular”, alerta José Israel.
O estudo também constatou maior frequência de transtornos alimentares entre usuários sem indicação aparente: 1,8%, diante de 0,3% entre os que não utilizavam as substâncias. “Uma prescrição responsável exige uma avaliação prévia da relação do paciente com a comida, incluindo possíveis episódios de compulsão, restrição alimentar excessiva e insatisfação corporal”, explica o nutrólogo.
Os pesquisadores ressaltam que a falta de informações nos prontuários não comprova, isoladamente, uma prescrição inadequada. “Embora o uso fora da bula possa ser justificado em situações específicas, a decisão deve ser individualizada, devidamente documentada e acompanhada de perto”, afirma José Israel.
No Brasil, a venda desses medicamentos exige retenção da receita. “O medicamento não substitui o diagnóstico adequado, uma alimentação equilibrada, a prática de atividade física nem o acompanhamento periódico da composição corporal”, conclui o médico.









