As férias escolares costumam aumentar o tempo que crianças e adolescentes passam em frente às telas. Embora a tecnologia faça parte da rotina das famílias, o uso excessivo de celulares, tablets, computadores e videogames favorece o sedentarismo, reduz a prática de atividades físicas, prejudica o sono e pode contribuir para o excesso de peso. Esses fatores aumentam o risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares ao longo da vida, com reflexos que podem começar ainda na infância, conforme especialistas.
O cenário acende um alerta. De acordo com o levantamento “Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida”, realizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, crianças de 0 a 2 anos ficam em média 2 horas por dia usando telas. A pesquisa mostrou ainda que 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas diariamente às telas. Esse número é ainda maior entre 4 a 6 anos, chegando a 94% com exposição diária às telas.
E esse padrão de comportamento também traz impactos para a saúde. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 6,4 milhões de crianças brasileiras apresentam excesso de peso. Essa condição aumenta o risco de hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares ao longo da vida.
Em 2025, mais de 3 milhões de crianças e adolescentes de até 19 anos acompanhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) apresentavam excesso de peso, segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan).
Esses dados chamam a atenção para problemas relacionados ao estilo de vida, como alimentação inadequada, sedentarismo e sono insuficiente.
A cardiopediatra Mirna de Sousa, que é membro da Sociedade Goiana de Pediatria, destaca que é necessário estabelecer limites para o uso de telas e incentivar hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida. “Esse comportamento pode contribuir para o desenvolvimento de obesidade, aumento da pressão arterial, alterações nos níveis de colesterol e glicemia, fatores que comprometem a saúde cardiovascular.”
Como forma de reduzir esses riscos, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que as telas sejam evitadas até os dois anos de idade; de 2 a 5 anos, o tempo de tela deve ser limitado a até uma hora por dia; de 6 a 10 anos, até três horas por dia, evitando o uso durante a madrugada.
Outro ponto que merece atenção é a qualidade do sono. O uso de celulares, tablets e outros dispositivos nas horas que antecedem o descanso pode interferir na produção de melatonina, hormônio responsável pela indução do sono. “A exposição prolongada à luz emitida pelas telas compromete o descanso e o desenvolvimento infantil”, afirma Mirna de Sousa.
Papel do responsável
Durante as férias, os pais e responsáveis desempenham um papel fundamental na construção de uma rotina equilibrada. Além de respeitar os limites para o uso de telas de acordo com a faixa etária, é importante incentivar brincadeiras ao ar livre, a prática regular de atividades físicas e momentos de convivência em família. Também é recomendado manter uma alimentação equilibrada e horários adequados para o sono, fatores essenciais para o desenvolvimento saudável e a prevenção de doenças cardiovasculares.
“As férias podem ser uma excelente oportunidade para fortalecer hábitos saudáveis que beneficiam toda a família e reduzem as chances de desenvolver problemas cardíacos no futuro”, conclui a cardiopediatra.















