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Acervos de hospitais psiquiátricos revelam internações indevidas em Goiás e em outros estados

Acervos de antigos manicômios em Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo mostram que mulheres, homossexuais e perseguidos políticos foram internados sem diagnóstico clínico


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 08/06/2026 - 18:10

Acervos de hospitais psiquiátricos revelam internações indevidas em Goiás e em outros estados
Acervos de hospitais psiquiátricos revelam internações indevidas em Goiás e em outros estados - Foto: Divulgação

Documentos mostram que mães solteiras, homossexuais e perseguidos políticos foram internados sem diagnóstico clínico; pesquisa resgata memória do Hospital Adauto Botelho, em Goiânia

Acervos de hospitais psiquiátricos brasileiros revelam um histórico de internações arbitrárias ocorridas ao longo do século XX. Os documentos mostram que pessoas sem diagnóstico de doença mental foram internadas por razões sociais, morais ou políticas. Entre os casos estão mães solteiras, homossexuais, perseguidos políticos e pessoas em situação de rua .

O trabalho acadêmico do professor Éder Mendes de Paula, da Universidade Federal de Jataí (UFJ), em Goiás, integra um esforço de resgate da memória dessas instituições. Ele explica que muitas cartas escritas por pacientes internados eram usadas como prova de doença mental, em vez de ajudar na libertação .

Em Goiânia, pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) criaram o Museu Virtual da Saúde Mental. O acervo digitalizado inclui o Memorial Adauto Botelho, com dados do antigo hospital psiquiátrico de mesmo nome .

A professora e pesquisadora Larissa Arbués coordena o museu e o projeto Memória da Saúde Mental em Goiás. Ela relata que a equipe e o Ministério Público de Goiás estiveram há duas semanas no Pronto Socorro Psiquiátrico Wassily Chuc, em Goiânia, que guarda o acervo dos pacientes .

“Estamos em busca de um local ideal para acomodar o material. Há conversas com o arquivo público do estado. A proposta é dar acesso às informações para a população do que é permitido pela legislação e aos prontuários a familiares e pesquisadores”, explica Larissa .

Caso de perseguição política em Goiás

Maior hospital psiquiátrico de Goiás, o Adauto Botelho internou o imigrante polonês Pawel Gutko durante a ditadura militar. Perseguido pelo regime, ele chegou ao local com diagnóstico de esquizofrenia paranoide .

As pesquisas apontam que Gutko teria sido usado para dar início ao processo de cassação do governador de Goiás Mauro Borges, contrário ao regime militar. A repressão teria creditado ao imigrante a informação de que Teixeira era comunista .

Éder Mendes de Paula, que pesquisou o caso, conta que Gutko foi vítima de tortura física e psicológica “a partir de uma trama criada pelos militares de que a embaixada chinesa enviava dinheiro para Mauro Borges fazer um levante comunista no estado” .

Reforma manicomial e apagão histórico

Os grandes manicômios foram fechados após a reforma manicomial, iniciada nos anos 1970 e oficializada em 2001. Em alguns hospitais, apontam as pesquisas, apenas 30% dos internos tinham efetivamente problemas mentais .

Pesquisadores de antigos manicômios de Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo encontraram evidências de internações sem diagnóstico clínico. Entre os casos estão mulheres que perderam a virgindade antes do casamento, mães solteiras, prostitutas, homossexuais e pessoas consideradas “rebeldes” pelas famílias .

Museu Virtual da Saúde Mental

O Museu Virtual da Saúde Mental de Goiás reúne documentos históricos do Hospital Adauto Botelho. O acervo permite que familiares e pesquisadores tenham acesso a informações sobre o funcionamento da unidade ao longo de sua trajetória .

O projeto segue em andamento, com articulação entre universidade e Ministério Público para garantir a preservação e o acesso aos prontuários ainda sob guarda de instituições públicas .

Serviço

Museu Virtual da Saúde Mental de Goiás
Acesso: plataforma digital da UFG
Acervo: Memorial Adauto Botelho e documentos históricos
Informações: site da Universidade Federal de Goiás (UFG)

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