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Lula x Flávio Bolsonaro: a derrota do herdeiro político marcaria o fim da era Bolsonaro?

Embora carregue o sobrenome Bolsonaro, Flávio jamais demonstrou possuir o mesmo poder de mobilização popular do pai


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 18/06/2026 - 13:13

Flávio Bolsonaro
Para Flávio Bolsonaro, a disputa teria contornos de tudo ou nada (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Poucos fenômenos políticos na história recente do Brasil foram tão rápidos e impactantes quanto a ascensão de Jair Bolsonaro. Depois de décadas ocupando espaço no chamado baixo clero da Câmara dos Deputados, o militar da reserva saiu dos corredores menos influentes do Congresso Nacional para chegar ao gabinete presidencial no Palácio do Planalto, tornando-se o principal líder de uma nova direita brasileira e o fundador de um movimento político que ultrapassou sua própria figura.

Bolsonaro, porém, não chegou sozinho ao topo do poder. Sua ascensão impulsionou toda a família para posições de destaque na política nacional. Flávio Bolsonaro consolidou-se no Senado Federal, Eduardo Bolsonaro ampliou sua projeção como deputado federal, Carlos Bolsonaro manteve-se como um dos principais articuladores políticos do grupo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e até Jair Renan Bolsonaro passou a ocupar espaço na vida pública, demonstrando como o bolsonarismo transformou uma família em um projeto político nacional.

Nesse cenário hipotético, após a saída de Jair Bolsonaro do centro da disputa eleitoral, coube ao patriarca escolher seu sucessor político. A indicação de Flávio Bolsonaro como candidato oficial do bolsonarismo representaria uma tentativa de preservar o legado do movimento e manter a família no comando da principal força de oposição ao lulismo.

O problema é que a transferência de capital político nem sempre acontece de forma automática. Embora carregue o sobrenome Bolsonaro, Flávio jamais demonstrou possuir o mesmo poder de mobilização popular do pai. Pesquisas e análises eleitorais frequentemente apontam que outros nomes da direita poderiam apresentar maior competitividade em uma eventual disputa presidencial contra Luiz Inácio Lula da Silva.

Do lado oposto, Lula chegaria à disputa apoiado por uma trajetória política construída ao longo de décadas. Sua história começa no movimento sindical do ABC paulista, passa pela resistência política ao regime militar, pela fundação do Partido dos Trabalhadores e pela participação nos debates que marcaram a redemocratização do país e a consolidação da Constituição de 1988.

Como presidente, Lula construiu uma imagem associada à ampliação de programas sociais, à redução da pobreza e ao fortalecimento da presença internacional do Brasil. Mesmo enfrentando críticas, dificuldades econômicas, polarização política e resistência de parcelas importantes do Congresso Nacional, permanece como uma das figuras mais influentes da história política brasileira.

A comparação entre Lula e Flávio evidencia uma diferença fundamental de trajetória. Enquanto Lula construiu sua liderança a partir dos movimentos sociais, dos sindicatos e da formação de um partido político de alcance nacional, Flávio desenvolveu sua carreira sob a influência direta do pai. Seus críticos argumentam que sua projeção eleitoral está profundamente vinculada ao fenômeno Bolsonaro, levantando dúvidas sobre sua capacidade de liderar um projeto político próprio.

Além disso, episódios controversos envolvendo o nome de Flávio Bolsonaro ao longo dos últimos anos continuariam sendo explorados por adversários durante uma campanha presidencial. Casos relacionados às investigações das chamadas “rachadinhas” e questionamentos sobre relações políticas com personagens ligados ao universo das milícias no Rio de Janeiro frequentemente retornariam ao debate público, aumentando o desgaste de sua imagem perante setores do eleitorado.

Em uma eleição dessa natureza, Lula entraria na disputa carregando não apenas a estrutura de governo e a visibilidade inerente ao cargo, mas também o peso simbólico de sua própria história. Para um líder político que construiu uma trajetória de mais de quatro décadas, uma derrota para o bolsonarismo representaria um desfecho extremamente adverso para seu legado.

Já para Flávio Bolsonaro, a disputa teria contornos de tudo ou nada. Uma vitória significaria a consolidação definitiva do bolsonarismo como força política duradoura, capaz de sobreviver ao seu fundador e transformar-se em um movimento permanente da política brasileira. Uma derrota, por outro lado, levantaria dúvidas profundas sobre a capacidade de sobrevivência do projeto político familiar sem a presença direta de Jair Bolsonaro no centro das decisões.

Por isso, mais do que uma disputa pelo Palácio do Planalto, uma eventual eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro seria também um confronto entre duas narrativas históricas. De um lado, o lulismo, movimento que marcou a esquerda brasileira contemporânea. Do outro, o bolsonarismo, fenômeno que reorganizou a direita nacional e redefiniu o debate político do país.

Naturalmente, a política é dinâmica. Novos fatos surgem diariamente, alianças são refeitas, crises aparecem e personagens inesperados podem alterar completamente o rumo dos acontecimentos. Ainda assim, considerando os elementos disponíveis nesse cenário hipotético, Lula iniciaria a disputa em posição mais favorável.

A questão central, portanto, não seria apenas quem venceria uma eleição presidencial. Seria compreender se uma eventual derrota do herdeiro político escolhido por Jair Bolsonaro representaria o encerramento de uma era ou apenas mais um capítulo de uma disputa que continuará moldando a política brasileira por muitos anos.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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