Durante décadas, o debate político brasileiro foi construído sobre uma lógica quase religiosa: de um lado, os “puros”; do outro, os “corruptos”. A cada eleição, a narrativa se repetia com novos protagonistas, mas com o mesmo roteiro.
A esquerda acusava a direita de representar os interesses das elites, do autoritarismo, da perseguição a minorias e da instrumentalização da religião. A direita respondia apontando a esquerda como sinônimo de corrupção sistêmica, aparelhamento estatal, ameaça comunista e ataque aos valores tradicionais da família e da liberdade religiosa.
O eleitor escolhia, muitas vezes, não entre projetos de governo, mas entre narrativas morais cuidadosamente construídas por experientes marketeiros.
Agora, porém, o Brasil parece aproximar-se de um verdadeiro ponto de inflexão.
Na matemática, um ponto de inflexão é o instante em que uma curva muda sua concavidade. Em termos sociais e políticos, representa o momento em que um processo deixa de seguir a lógica anterior e passa a desenvolver-se sob uma dinâmica completamente diferente. Não significa necessariamente melhora ou piora; significa mudança estrutural.
É exatamente esse o desafio colocado pelo escândalo envolvendo o Banco Master.
As investigações e os fatos que vêm sendo divulgados sugerem um cenário muito mais complexo do que o habitual embate entre “nós” e “eles”. Diferentemente de outros episódios que rapidamente foram apropriados por um único campo ideológico, o Caso Master passou a atingir personagens distribuídos por praticamente todo o espectro político e institucional brasileiro, envolvendo agentes ligados ao Executivo, ao Legislativo, ao Judiciário e diferentes grupos partidários. As investigações seguem em andamento, e diversas pessoas citadas negam qualquer irregularidade ou sustentam que suas relações com o banco eram lícitas e profissionais.
Essa circunstância produz um fenômeno raro na política nacional. Pela primeira vez em muitos anos, torna-se mais difícil sustentar que a corrupção pertence exclusivamente ao adversário ideológico.
A narrativa tradicional começa a perder força. Quando integrantes de diferentes correntes políticas aparecem, em maior ou menor medida, relacionados ao mesmo escândalo, ainda que sob naturezas distintas de envolvimento e sempre respeitada a presunção de inocência, o discurso simplista entra em colapso.
E é justamente aqui que reside o verdadeiro ponto de inflexão. A grande questão talvez já não seja descobrir qual partido seria mais corrupto. A pergunta passa a ser muito mais desconfortável: o eleitor brasileiro continuará aceitando a corrupção desde que praticada pelo seu próprio lado?
Essa pergunta desnuda um problema cultural. Ao longo das últimas décadas, consolidou-se um comportamento recorrente no eleitorado: exigir rigor absoluto quando o investigado pertence ao campo adversário e relativizar os mesmos fatos quando envolvem figuras politicamente simpáticas.
A indignação tornou-se seletiva. Os princípios passaram a variar conforme a fotografia do investigado. A ética transformou-se em instrumento eleitoral.
Nesse ambiente, o combate à corrupção deixa de ser um valor republicano e converte-se apenas em arma retórica. O resultado é devastador. A sociedade perde sua capacidade de distinguir instituições de pessoas, políticas públicas de paixões ideológicas e responsabilidade pública de idolatria política.
Enquanto isso, a corrupção prospera exatamente porque encontra um ambiente dividido, incapaz de produzir consenso mínimo sobre aquilo que deveria ser absolutamente intolerável. Talvez o maior legado desse escândalo não esteja nos processos judiciais que poderão surgir. Talvez esteja na oportunidade histórica oferecida ao próprio eleitor.
Pela primeira vez, parcela significativa da população é confrontada com uma realidade incômoda: a de que redes de influência, relações de poder e interesses econômicos podem atravessar fronteiras partidárias e ideológicas. Essa realidade desafia as narrativas simplificadoras que historicamente dividiram o debate político brasileiro e evidencia que eventuais responsabilidades devem ser apuradas de forma individualizada, com estrita observância do devido processo legal, do contraditório e da presunção de inocência. Aliás, essa foi a postura adotada pelo pré-candidato à Presidência da República e ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao ser confrontado com a repercussão do caso, defendendo que qualquer juízo de responsabilidade somente pode decorrer da regular apuração dos fatos.
Se essa percepção produzir maturidade política, o Brasil poderá finalmente abandonar o culto às personalidades e passar a exigir programas, resultados, transparência e responsabilidade institucional.
Mas existe um caminho alternativo. O eleitor pode simplesmente adaptar sua narrativa. Pode continuar justificando o injustificável. Pode escolher um novo herói. Pode substituir um discurso por outro. Pode transformar mais um escândalo em combustível para a guerra ideológica.
Se isso ocorrer, o ponto de inflexão terá sido desperdiçado.
Continuaremos presos ao mesmo ciclo que atravessa gerações: corrupção denunciada, indignação seletiva, eleições polarizadas, promessas de renovação e novas decepções. A verdadeira mudança talvez não dependa da operação policial, do julgamento criminal ou das próximas eleições.
Talvez tudo dependa, em última análise, do comportamento do cidadão diante da urna eletrônica. A democracia, por si só, não é capaz de produzir governantes moralmente superiores ao eleitorado que os escolhe. Os representantes políticos tendem a refletir as virtudes, os vícios, as prioridades e as concessões da própria sociedade. Se o eleitor relativiza princípios, tolera desvios éticos ou transforma a honestidade em requisito secundário diante de preferências ideológicas, dificilmente poderá exigir daqueles que elege um padrão de conduta diferente daquele que ele próprio aceitou ao votar.
Se o eleitor continuar premiando quem considera “corrupto, mas do meu lado”, pouco importará qual seja a bandeira partidária vencedora. A mediocridade política deixará de ser atributo dos governantes para tornar-se responsabilidade compartilhada por toda a sociedade.
E essa talvez seja a reflexão mais incômoda de todas. Não se trata mais de perguntar quem é o corrupto. A pergunta que permanece é outra: o Brasil finalmente despertará para exigir integridade como requisito mínimo da vida pública, independentemente da ideologia, ou continuará tratando a corrupção como um defeito tolerável quando praticada por aqueles com quem se identifica?
Essa resposta não será dada pelos tribunais. Será dada, silenciosamente, por milhões de eleitores diante da urna eletrônica.



Por Luciano Cardoso em 26/06/2026 - 13:34










