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A direita goiana entre o palanque e o curto-circuito


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 05/07/2026 - 08:30

O PL saiu do evento do último sábado (27), em Goiânia, tentando vender largada, força e unidade. A presença do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto, no lançamento das pré-candidaturas bolsonaristas foi tratada como demonstração de musculatura. O também senador Wilder Morais, pré-candidato ao Palácio das Esmeraldas, ganhou palanque para se apresentar ao governo e prometeu ir para a rua em campanha aberta. Outras lideranças da direita reforçaram a ideia de uma linha de largada.

O curto-circuito apareceu ainda no ato. No próprio sábado, a deputada federal Magda Mofatto e o delegado Humberto Teófilo, pré-candidato ao Senado, entraram em rota de atrito com a organização do evento. O ruído não desmontou o palanque, mas expôs algo que a fotografia oficial tentava esconder: a direita goiana, assim como a nacional, carrega disputas e fissuras mal resolvidas.

Depois do ato em Goiás, a briga entre Flávio e Michelle Bolsonaro ganhou corpo, expôs fissuras no núcleo familiar e terminou com a saída da ex-primeira-dama da presidência do PL Mulher. Michelle é a ponte do bolsonarismo com o eleitorado feminino e evangélico. Quando acusa o enteado de desrespeito, o problema deixa de ser fofoca de Brasília e vira ruído político que resvala nas diferentes esferas do Partido Liberal.

Em Goiás, lideranças bolsonaristas tentam reduzir o estrago. O argumento é que o eleitor sabe separar projeto político de discussão pessoal. Faz sentido até certo ponto. O voto bolsonarista no Estado não nasceu de Flávio, nem depende apenas de Michelle. Tem raiz no antipetismo, na pauta de costumes, no discurso da segurança e na identificação com Jair Bolsonaro.

Mas há diferença entre perder voto e perder embalo. Nos bastidores, aliados admitem que a sequência de desgastes acendeu alerta. “O eleitor sabe diferenciar o projeto das discussões pessoais”, avalia uma liderança. A mesma fonte, porém, reconhece: “Há uma sucessão de desgastes que faz cada campanha ficar alerta”.

Campanha bolsonarista precisa de militância acesa, cabo eleitoral animado e grupo de WhatsApp operando. Quando a crise vem de fora, o modus operandi é apelar para a narrativa da perseguição. Quando nasce dentro de casa, a explicação fica mais torta.

Uma liderança resumiu o incômodo: “A imprensa também atrapalha ao explorar toda essa briga. Acaba que isso chega na militância e pode desmotivar alguns cabos eleitorais”.

Dias antes do evento, em entrevista a este colunista, o coronel Urzeda disse que Goiás “vai tremer” com a presença de Flávio e falou no “fenômeno do 22”. A frase traduzia o clima que o PL queria produzir. Menos de 72 horas depois, a direita goiana passou a trabalhar para que o barulho de Brasília não atravessasse a campanha local.

O bolsonarismo em Goiás tem votos e capilaridade. Mas carrega o custo de depender de uma marca nacional em permanente combustão. O sobrenome Bolsonaro ainda mobiliza, ao mesmo tempo, também cria problema. É a pré-campanha perder o comando da pauta. Em vez de falar de Goiás e oposição a Daniel Vilela, passam a responder sobre Flávio, Michelle e a crise familiar.

Irmão de Alexandre Baldy, o secretário de Indústria, Comércio e Serviços, Joel Sant’Anna Braga, avalia que outros pré-candidatos ao Senado podem repensar seus projetos até a convenção. Segundo ele, em declaração à coluna, Baldy “talvez fosse o último que poderia renunciar”, pela experiência e base política que tinha, mas recuou “em prol de uma coisa maior”: a candidatura de Gracinha Caiado ao Senado e a reeleição de Daniel Vilela ao governo. “Para ajudar o governador e simplificar a convenção, acredito que até o dia 4 as pessoas vão repensar”, afirmou. 

Última chamada
A frente progressista deve se reunir novamente nesta semana em busca de uma solução para a chapa majoritária. O clima é de limite. PDT e PSOL já avisaram que não aceitarão entrar apenas para bater palma. Se não houver espaço real, a ameaça de palanque paralelo deixa de ser pressão e vira hipótese concreta. Uma reunião está prevista para esta segunda-feira (6).

Adriana põe panos quentes
Adriana Accorsi tenta conter a fervura. A presidente estadual do PT elogia Cíntia Dias, do PSOL, e diz acreditar que tudo será resolvido na mesa. A esta coluna, destaca que o campo progressista pode montar a “maior frente desde 2002” em Goiás. Especialmente ao Senado, há muitos postulantes para duas candidaturas.

Trégua na vice
Na disputa pela vice de Daniel Vilela, José Mário Schreiner e Luiz do Carmo seguem costurando apoios, mas entraram em uma espécie de trégua informal. Os dois perceberam que a guerra aberta poderia contaminar a base e criar resistência justamente onde precisam somar. Agora, tentam mostrar força sem parecer problema.

Sobrevivência política
Como esta coluna alertou, se a fervura continuasse, havia risco de os dois serem preteridos. A lógica no Palácio é pragmática: vice precisa agregar, não produzir incêndio. Zé Mário tenta mostrar densidade no setor produtivo. Luiz do Carmo aposta em lealdade, experiência e trânsito político.

Marconi espera a janela
O ex-governador Marconi Perillo (PSDB) acompanha a reorganização da base e evita queimar largada. O tucano sabe que a eleição só ganha temperatura quando Daniel definir vice, a frente progressista fechar a conta e o bolsonarismo superar o próprio curto-circuito. Até lá, a estratégia é deixar os adversários produzirem ruído.

Ex-tucano próximo a Wilder
O especialista em marketing político Marcelo Vitorino, que estava à frente da campanha do ex-governador Marconi Perillo, deixou o projeto tucano e abriu conversas com o senador Wilder Morais na disputa ao Palácio das Esmeraldas. O contrato com o Instituto Teotônio Vilela (ITV) também se encerrou. À coluna, ele faz questão de pregar respeito a Perillo e frisar que os contatos com Wilder se deram apenas após sua saída da campanha tucana ser divulgada pela imprensa.

Segurança sob disputa
A segurança pública seguirá como uma das principais pautas da campanha. A base vai insistir nos números de redução da criminalidade. A oposição quer questionar até que ponto há resultado concreto e até que ponto há propaganda. O deputado estadual Mauro Rubem, do PT, tem martelado essa tecla e deve puxar a cobrança na Assembleia.

Mapa do dinheiro
Levantamento feito pela coluna a partir do Portal da Transparência mostra que a bancada federal de Goiás teve R$ 1,57 bilhão em emendas pagas entre 2023 e 2026. O número é mais do que contabilidade. Em ano eleitoral, mostra quem conseguiu transformar mandato em recurso efetivamente entregue na ponta.

José Nelto lidera
José Nelto aparece no topo do ranking, com R$ 131,9 milhões pagos. Em seguida vêm Flávia Morais, Professor Alcides, Magda Mofatto e Zacharias Calil. A lista ajuda a entender por que alguns deputados entram na campanha com discurso municipalista mais robusto do que outros.

Saúde manda
A saúde concentra a maior fatia das emendas da bancada goiana. Foram R$ 857,7 milhões pagos na área entre 2023 e 2026. O dado explica a preferência dos parlamentares: saúde é demanda permanente, tem capilaridade municipal e aparece rápido para prefeito, vereador e eleitor.

Execução também conta
O levantamento mostra que 83,33% do valor empenhado pela bancada virou pagamento. Silvye Alves, Célio Silveira, José Nelto, Flávia Morais e Glaustin da Fokus aparecem com execução superior a 90%. Na prática, é o dinheiro que saiu do papel.

Na outra ponta
Delegada Adriana Accorsi, do PT, e Gustavo Gayer, do PL, aparecem com percentuais abaixo de 60% de pagamento em relação ao valor empenhado. O dado tende a entrar no debate eleitoral, especialmente porque ambos têm forte atuação ideológica e presença digital.

Mabel contra a chuva
Sandro Mabel vai iniciar a contratação da obra do piscinão do Jardim Botânico nos próximos dias. O projeto é técnico, mas o efeito é político. Alagamento é um dos temas que mais desgastam os prefeitos em Goiânia. Se a obra andar antes do período chuvoso, Mabel ganha argumento de gestão.

Drenagem dá voto
Piscinão não tem glamour, mas conversa com quem perde carro, mercadoria e casa quando chove forte. Mabel mira a Bacia do Botafogo, uma das dores antigas da capital. Se entregar resultado, transforma um problema crônico em ativo. Se atrasar, a cobrança vem com a primeira enxurrada.

 

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