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Queda de homicídios em Goiás não é acompanhada pelo Entorno do DF

Dados da segurança pública e do DataSUS apontam redução acentuada das mortes nas demais regiões do estado, mas Entorno segue na contramão


Carla Borges Por Carla Borges em 19/07/2026 - 08:31

Queda de homicídios em Goiás não é acompanhada pelo Entorno do DF

A desigualdade social em Goiás se revela também nos índices de segurança e saúde públicas. Enquanto as principais regiões do estado apresentam forte queda na criminalidade, o Entorno do Distrito Federal resiste com altas taxas de homicídios. O contraste é gritante. Espremida ao lado da capital federal, a região sofre com uma explosão populacional, que não veio acompanhada de políticas públicas na mesma velocidade. Por outro lado, o DF tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os estados brasileiros. Especificamente no quesito segurança pública, o custo é bancado pela União, que despejou cerca de R$ 25 bilhões somente em 2024, e boa parte disso paga a folha das polícias distritais.

Goiás experimentou, nos últimos cinco anos, uma das maiores quedas de homicídio que um estado brasileiro já registrou fora de época de pacto entre facções. Saiu de 1.470 assassinatos dolosos em 2020 para 756 em 2025 – praticamente metade. E não foi sorte de um ano bom: a linha desce firme, ano após ano, e a saúde confirma o que a segurança pública diz. Pelo DataSUS, que conta a morte pela porta do hospital e não pela do boletim, a queda é da mesma ordem (−53%). A queda é real, é grande, e chegou quase a todo lugar: das 22 cidades goianas com mais mortes em 2020, as 22 tiveram menos em 2025.

Já no Entorno do DF, essa maré simplesmente não subiu. Em Valparaíso, hoje a cidade mais violenta de Goiás, foi na direção contrária. As quatro cidades mais letais do estado hoje não são o interior violento que do imaginário popular, nem a capital: são Valparaíso de Goiás, Novo Gama, Luziânia e Planaltina, todas apertadas contra Brasília, todas com taxa perto de 20 mortes por 100 mil habitantes, o dobro de Goiânia. Valparaíso é o retrato mais incômodo: enquanto o estado cortava a violência pela metade, ela subiu 11% ali, e a cidade virou a mais letal de Goiás.

A pergunta sobre “por que esse cantinho resiste” não se explica olhando o mapa, mas entendendo o que existe embaixo dele, onde há uma linha invisível que muda tudo: a divisa entre Goiás e o Distrito Federal, a divisa que ninguém governa por inteiro. Os dados reunidos nesta reportagem são do Sistema Nacional de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e do DataSUS, do Ministério da Justiça, e foram compilados e analisados pela publicação independente Crime Brasil, especialmente para a Tribuna do Planalto.

Enquanto no DF a União custeia todo o aparato da segurança pública, Goiás tem dificuldade para replicar no Entorno a mesma estrutura de policiamento, por exemplo, da Região Metropolitana de Goiânia. “O efeito é que o DF ostenta a segunda melhor relação de policiais por habitante do país – 6,6 PMs para cada mil pessoas. Do lado goiano, na mesma conurbação, o estado opera com os postos policiais preenchidos abaixo da metade. Não é uma diferença de estilo de policiamento; é uma diferença de orçamento que muda de país no meio do quarteirão. O morador de Santa Maria, no DF, e o de Valparaíso, em Goiás, dividem a mesma avenida, mas um está protegido por um fundo bilionário da União e o outro, não”, aponta a nota técnica produzida pelo Crime Brasil para a Tribuna.

“A violência letal em Goiás não desapareceu, ela se retraiu para a faixa de território onde o Estado é estruturalmente mais fraco. As quatro maiores taxas de homicídio do estado em 2025 estão todas no Entorno do DF, numa região onde a renda é até três vezes menor que a do Distrito Federal e a população cresceu o dobro da média metropolitana, sem que os serviços acompanhassem”, define Alexandra Diniz, do Crime Brasil, acrescentando que “nenhum real desse fundo (Constitucional do DF) cruza a divisa”.

“E não é que ninguém tenha tentado costurar isso. A região é oficialmente integrada desde 1998, na chamada RIDE-DF, e os governos assinam pactos de segurança conjunta de tempos em tempos – 2016, 2021, e por aí vai”, pontua Alexandra. “O problema é justamente esse: pacto que precisa ser refeito a cada poucos anos é a prova de que nunca virou estrutura”. 

Para Alexandra Diniz, o fato de a taxa de homicídios de Valparaíso subir 11% enquanto a do estado caiu 49% não é acidente estatístico. “É o retrato de uma disputa ativa de mercado entre facções numa cidade-dormitório que cresceu 52% em doze anos. A política que derrubou o homicídio em Goiânia depende de instrumentos que param na divisa”, diz.

O Instituto de Políticas Econômicas Aplicadas (Ipea) classifica a governança dessa região metropolitana como fragmentada. “A palavra é exata. Segurança ‘de interesse comum’ existe no papel, mas nunca teve um orçamento próprio nem um comando único que mande na PM goiana e na do DF ao mesmo tempo”, observa. “Então o que acontece na prática é o pior dos dois mundos: um criminoso comete o crime em Valparaíso e dorme em Santa Maria; a polícia que investiga de um lado não é a que prende do outro; e a divisa, que para o Estado é o fim da jurisdição, para o crime é só uma rua. É uma costura frouxa no tecido do estado – e é exatamente por ela que a violência não escorreu para fora quando o resto de Goiás secou”, conclui a analista.

Bomba demográfica

Sobre essa fratura institucional, empilhou-se uma bomba demográfica. O Entorno é feito de cidades-dormitório que incharam à sombra de Brasília em enorme velocidade. Valparaíso cresceu 51,7% entre os dois últimos Censos e está entre as cidades que mais crescem no Brasil inteiro. Águas Lindas passou de 225 mil habitantes; Luziânia, de 208 mil. A periferia metropolitana cresceu quase três vezes mais rápido que o próprio DF. A desigualdade da região é grande, maior se comparada à vizinha rica, Brasília, mas ainda muito grande se comparada ao restante de Goiás.

De acordo com a nota técnica do Crime Brasil, sete organizações criminosas disputam o DF e o Entorno: do PCC e do Comando Vermelho a facções locais como a ADE, os Amigos do Estado, apontada por investigações como responsável por parte relevante dos homicídios em cidades como Luziânia e Cristalina. A nota aponta prova recente de que o crime enxerga essa metrópole como um território só. Em dezembro de 2025, a Operação Mosaico desarticulou uma estrutura de facção que operava, ao mesmo tempo, em oito regiões administrativas do DF e nos municípios goianos de Águas Lindas e Cidade Ocidental. Uma quadrilha só, dos dois lados da linha. 

Duas cidades responderam por um terço de toda a queda

Goiânia saiu de 236 homicídios em 2020 para 116 em 2025 (-51%). Aparecida de Goiânia despencou de 161 para 47 (-71%). Juntas, as duas maiores cidades do estado tiraram 234 mortes da conta, cerca de um terço de toda a redução de Goiás no período. Quando as metrópoles melhoram, o estado inteiro melhora junto.

Mas o interior guarda as quedas mais impressionantes em proporção. Aparecida derrubou 71% das suas mortes. Trindade caiu de 44 para 11 (-75%). Senador Canedo, de 46 para 14 (-70%). Santo Antônio do Descoberto, de 28 para 6 (-79%). Caldas Novas  saiu de 36 para apenas 3,  embora, por ser município turístico e de base pequena, oscile mais de um ano pro outro e mereça um olhar com cautela.

Entre as 22 cidades goianas com mais de 20 homicídios em 2020, todas as 22 registraram menos mortes em 2024–2025. Alargando o corte para as 59 cidades com base relevante, 53 caíram. De acordo com o Crime Brasil, “é raro ver uma melhora tão espalhada: quase não sobrou município grande na contramão”.

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