O Brasil convive com uma tragédia silenciosa que se repete diariamente atrás de portas fechadas, longe dos holofotes e da indignação pública. A explosão dos casos de violência contra crianças e adolescentes registrada nos últimos anos não pode ser tratada apenas como uma estatística alarmante. Ela é o retrato de uma sociedade que ainda falha em proteger seus cidadãos mais vulneráveis.
Os números são contundentes. As denúncias cresceram mais de 120% no país e, em Goiás, o avanço foi ainda mais expressivo. Mas a realidade é provavelmente muito pior. Autoridades, pesquisadores e profissionais da rede de proteção concordam que os casos conhecidos representam apenas uma parcela do problema. A violência contra crianças e adolescentes continua amplamente subnotificada porque acontece, em grande medida, dentro de casa, praticada justamente por aqueles que deveriam garantir cuidado, segurança e afeto.
É impossível ignorar a gravidade desse cenário. Quando mães e pais aparecem com frequência entre os autores das agressões, o problema deixa de ser apenas policial e revela uma crise social profunda. O lar, que deveria ser um espaço de acolhimento, transforma-se em ambiente de medo, sofrimento e violação de direitos. Enquanto isso, muitas vítimas permanecem em silêncio por dependência emocional, por não compreenderem que estão sendo violentadas ou simplesmente porque não encontram adultos dispostos a ouvi-las.
Os casos que chocaram Goiás recentemente demonstram uma verdade incômoda: muitas vidas só foram salvas porque alguém decidiu denunciar. Um vizinho atento, um professor preocupado ou um cidadão inconformado podem representar a diferença entre a proteção e a continuidade da violência. Quando a sociedade escolhe não se envolver sob o argumento de que se trata de um problema familiar, abre espaço para que os abusos continuem.
Romper essa cultura do silêncio é uma obrigação moral. Não basta punir os agressores depois que a violência se torna pública. É necessário fortalecer os mecanismos de prevenção, ampliar campanhas de conscientização, garantir recursos à rede de proteção e estimular a denúncia responsável. Nenhuma criança deve depender da sorte para ser resgatada de uma situação de violência.
A omissão protege o agressor. A denúncia protege a vítima. Entre uma escolha e outra, não pode haver neutralidade.
















