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Convenções em Goiás: discursos, ausências e os personagens que roubaram a cena


Por Rodrigo Zani em 06/08/2026 - 08:17

Reprodução
Convenções em Goiás: discursos, ausências e os personagens que roubaram a cena

Na semana passada, escrevi aqui no Tribuna do Planalto que as convenções partidárias em Goiás prometiam ser eletrizantes. E foram. Não apenas pela quantidade de lideranças presentes, pelos discursos inflamados ou pelas demonstrações de força, mas, principalmente, pelo que aconteceu nas entrelinhas. Na política, muitas vezes, as ausências dizem tanto quanto as presenças.

A convenção da base governista deu o tom do que pode ser a campanha de Daniel Vilela. Ao lado do governador Ronaldo Caiado, o emedebista reuniu, em um centro de convenções completamente lotado, aquilo que muitos chamam de “PIB político” de Goiás. Prefeitos, vereadores, deputados, lideranças regionais e representantes de praticamente todos os segmentos demonstraram a musculatura da aliança construída ao longo dos últimos anos. O ônibus da política estava lotado. Não havia espaço nem na janela.

Mas, justamente em um evento marcado pela demonstração de unidade, uma ausência chamou a atenção dos observadores mais atentos: Gustavo Mendanha. Ex-prefeito de Aparecida de Goiânia e um dos principais nomes da política goiana, Gustavo não discursou durante a convenção. Somente mais tarde, por meio de uma transmissão ao vivo nas redes sociais, reafirmou seu compromisso com o projeto político liderado por Daniel Vilela. A manifestação pública dissipou dúvidas quanto ao apoio, mas a ausência física naturalmente alimentou interpretações entre aqueles que acompanham os movimentos do tabuleiro político.

Outra ausência era amplamente esperada: a do presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner. Durante semanas, boa parte dos analistas políticos apontava seu nome como um dos mais consistentes para ocupar a vaga de vice na chapa de Daniel Vilela. A escolha, no entanto, recaiu sobre Luiz do Carmo.

Era natural, portanto, que José Mário não participasse de uma convenção em que seu nome não seria homologado. A definição do vice também provocou debates entre analistas políticos. Muitos defendiam que nomes como o próprio José Mário Schreiner ou Rocha Lima reuniam características técnicas e experiência administrativa que poderiam agregar à gestão do Executivo. São avaliações presentes no debate político, sem que isso represente qualquer juízo definitivo sobre a escolha feita pela chapa governista.

Se Daniel demonstrou a força de quem está no poder, Marconi Perillo mostrou que continua sendo um dos maiores ativos eleitorais da oposição em Goiás. Mesmo distante de cargos relevantes há alguns anos, reuniu uma multidão expressiva e mobilizou um verdadeiro exército político.

Seu discurso foi forte, inflamado e carregado de mensagens para a militância. Daqueles pronunciamentos que fazem os apoiadores deixarem o evento motivados para a disputa eleitoral.

Ainda assim, a definição de seu companheiro de chapa permanece cercada de expectativa. Diversos nomes circulam nos bastidores, mas, até o momento, não há qualquer confirmação oficial.

No entanto, um movimento passou a ser comentado nos corredores da política: uma eventual aproximação entre Marconi Perillo e José Mário Schreiner. Presidente da Faeg e uma das maiores lideranças do agronegócio brasileiro, José Mário é um nome respeitado dentro e fora de Goiás. Quem conhece o setor produtivo sabe da influência que exerce junto ao agro nacional.

Caso uma aliança dessa natureza viesse a se consolidar, teria potencial para alterar significativamente a narrativa de isolamento político frequentemente atribuída ao ex-governador. Mais do que ampliar alianças, representaria a aproximação com um segmento estratégico para a economia goiana.

O fato concreto é que José Mário Schreiner tornou-se uma peça importante no debate público em Goiás. Conhece profundamente a realidade do Estado, dialoga com diferentes setores da economia e mantém bom relacionamento com praticamente todos os grupos políticos. Independentemente do caminho que venha a seguir, sua participação na vida pública contribui para qualificar as discussões sobre o futuro de Goiás.

Na convenção do PL, dois momentos chamaram minha atenção.

O primeiro foi uma declaração do senador Wilder Morais ao afirmar que colocaria os interesses de Flávio Bolsonaro à frente dos interesses de Goiás. Em um ambiente eleitoral, uma frase dessa natureza inevitavelmente produz interpretações políticas e abre espaço para críticas de adversários. Se foi um erro de comunicação, um gesto de lealdade política ou uma estratégia calculada, somente o tempo dirá.

O segundo momento teve como protagonista Ana Paula Rezende. Em um discurso firme, ela cobrou respeito à memória de seu pai e também à sua própria trajetória política. A manifestação deixou evidente que antigas feridas da histórica rivalidade entre vilelistas e iristas permanecem presentes no cenário político goiano. Mais do que uma divergência partidária, trata-se de uma disputa marcada por componentes políticos, históricos e familiares.

Já a convenção dos partidos de esquerda teve um caráter mais protocolar. O foco pareceu estar na formalização das candidaturas e na organização da chapa proporcional para a disputa por vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Ainda assim, as lideranças deixaram claro que pretendem levar o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o centro do debate eleitoral e utilizá-lo como principal referência na campanha.

Agora, os partidos têm até o próximo dia 15 para registrar oficialmente suas atas e candidaturas junto à Justiça Eleitoral. Até lá, a política continuará produzindo especulações, articulações e movimentos de bastidores. Muita coisa ainda pode mudar. Inclusive, nada.

Enquanto isso, a nós, meros eleitores mortais, cabe acompanhar cada movimento desse grande jogo de xadrez, analisar os fatos, ouvir as propostas e decidir, no momento certo, qual projeto parece mais adequado para o futuro de Goiás.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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