Enquanto governo Lula endurece discurso contra Washington, Exército, Marinha e Aeronáutica seguem com agenda intensa de exercícios conjuntos, intercâmbios e pagamentos antecipados para formações em solo americano.
O governo brasileiro amplia o tom das críticas aos Estados Unidos na escalada da crise diplomática com Donald Trump, mas a cooperação militar entre os dois países segue inalterada. Levantamento do ICL Notícias mostra que, entre o segundo semestre de 2025 e julho de 2026, militares brasileiros participaram de cursos em escolas americanas, exercícios conjuntos, operações navais, treinamentos em defesa cibernética e espacial, além de reuniões de planejamento estratégico .
No mesmo período, o Exército autorizou pelo menos US$ 800 mil em novos pagamentos antecipados para cursos nos Estados Unidos e criou uma conta específica para financiar exercícios em centros de treinamento do Exército americano . A cronologia revela que a parceria militar prosseguiu em paralelo ao esfriamento diplomático:
- Em agosto de 2025, os EUA cancelaram a Conferência Espacial das Américas e suspenderam a participação na Operação Formosa e na CORE 2025, por questões logísticas e financeiras .
- Em setembro do mesmo ano, a Marinha enviou a fragata Independência para a UNITAS 2025, tradicional exercício naval liderado pelos americanos .
- Em novembro, o Exército autorizou novo aporte de US$ 400 mil ao programa FMS para cursos em escolas militares dos EUA .
- Em dezembro, criou a conta BR-B-OBY para financiar exercícios de tropas brasileiras em centros de treinamento de combate americanos .
- Em março de 2026, oficiais viajaram ao Texas para planejar a CORE 26, exercício que havia sido cancelado no ano anterior .
- Em maio, a Marinha realizou exercício com o porta-aviões nuclear USS Nimitz, e os comandantes do Exército e da Marinha embarcaram na embarcação .
- Em junho, o Exército autorizou novo pagamento de US$ 400 mil para cursos e representantes das duas marinhas se reuniram em Nova Orleans para discutir novas operações .
A continuidade da cooperação durante a crise expõe a profundidade dos laços militares. Para o antropólogo Piero Leirner, da UFSCar, a influência americana vai além dos exercícios conjuntos e se manifesta na formação doutrinária. “Os militares americanos sempre tiveram uma enorme confiança de que sabiam com quem tratavam quando chamavam os militares brasileiros”, afirma . O pesquisador Jorge Rodrigues avalia que essa dependência também se expressa na aquisição de equipamentos: “Ao exportar um armamento, exporta-se também a forma como aquela força compradora vai se organizar”.
As informações sobre os cursos, no entanto, permanecem sob sigilo. O Exército confirmou a realização das capacitações, mas recusou-se a informar quais serão oferecidas, quantos militares participarão e quais documentos embasaram os pagamentos antecipados .
O orçamento da Defesa e os gastos com cooperação militar internacional podem ser acompanhados por cidadãos por meio do Portal da Transparência do governo federal. Pagamentos ao programa Foreign Military Sales (FMS) e demais acordos de cooperação são registrados no Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). Denúncias sobre irregularidades no uso de recursos públicos podem ser encaminhadas à Controladoria-Geral da União (CGU) e ao Tribunal de Contas da União (TCU).
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