Skip to content

Eleições 2026: “Igreja por igreja”

Escolha de Luiz do Carmo para a vice de Daniel Vilela leva o eleitorado evangélico ao centro da chapa, mas influência religiosa não significa transferência automática de votos


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 08/08/2026 - 10:06

luiz do carmo convencao 2 igreja eleições
(Foto: Reprodução)

“Só Deus para fazer isso na minha vida”. Ainda sob o impacto de uma disputa que atravessou meses de bastidores, Luiz do Carmo (PSD) pegou o microfone no palco do Centro de Convenções de Goiânia já como candidato a vice-governador. Ao lado do governador Daniel Vilela (MDB), do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) e de dezenas de aliados, falou por menos de dois minutos. Deus apareceu primeiro. Depois vieram o currículo, a promessa de resultado e o roteiro que pretende seguir até outubro: “cidade por cidade, igreja por igreja, rua por rua”.

Luiz chegou à chapa depois de uma pré-campanha marcada por tensão, sobretudo nas últimas semanas. No páreo estavam José Mário Schreiner, presidente licenciado da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), e Adriano Rocha Lima, ex-secretário-geral da Governadoria, primo de Caiado e integrante do núcleo mais próximo do ex-governador.

Na reta final, Luiz carregava um ativo que os demais não ofereciam da mesma maneira: uma ligação orgânica com uma das estruturas religiosas mais capilarizadas de Goiás, além da garantia de lealdade que trataria a função como “missão”, garantindo que não iria à reeleição em 2030.

Um terço do eleitorado

Evangélico, o ex-senador é irmão do bispo Oídes José do Carmo, presidente da Convenção Estadual dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus em Goiás, a Conemad-GO, e integrante da direção nacional do Ministério de Madureira. Oídes também comanda o campo de Campinas, em Goiânia, e mantém trânsito político antigo.

Os números ajudam a explicar o cálculo. Segundo o Censo de 2022, 32,6% dos goianos com 10 anos ou mais se declaram evangélicos, percentual superior à média brasileira. Não significa voto uniforme, mas coloca o segmento no centro de qualquer estratégia majoritária competitiva em Goiás.

Foi sobre esse contingente que Luiz falou meses antes de ser escolhido vice. Em entrevista à Tribuna do Planalto, ainda durante a movimentação interna pela vaga, fez questão de separar igreja e eleitor. “Nós somos trinta e poucos por cento da população. Nós podemos votar e ser votados. Eu não estou falando de igreja, estou falando de cidadão evangélico.”

Logo depois, porém, reconheceu a força que enxerga quando há convergência: “Hoje na majoritária nós temos muita força. Se nós unirmos realmente, nós mudamos uma eleição majoritária.”

A palavra decisiva é “se”. O eleitor evangélico tem peso numérico, presença territorial e estruturas capazes de levar uma mensagem da capital aos menores municípios. Mas não constitui um partido e tampouco se comporta como bloco homogêneo.

Ninguém é dono do voto

A eleição deste ano já oferece um exemplo. Oséias Varão, vereador por Goiânia, pastor e candidato ao Senado pelo PL, pertence à Assembleia de Deus e reconhece o peso do segmento na escolha de Luiz. “O voto evangélico hoje é fundamental, tanto que o Daniel escolheu um vice porque é do segmento evangélico, da minha igreja inclusive, Assembleia de Deus”, disse à Tribuna.

Ao mesmo tempo que congrega na mesma igreja que o vice de Daniel, vai apoiar o principal adversário do emedebista: o senador Wilder Morais (PL). Na mesma conversa, estabeleceu o limite dessa influência. “Ninguém é dono de ninguém.” Para Varão, os pastores possuem respeito entre os membros, mas isso não significa capacidade de determinar o voto de cada fiel.

Igreja organizada oferece rede, linguagem comum, confiança entre lideranças e presença territorial onde partidos muitas vezes não chegam com a mesma eficiência. Isso é capilaridade. Não é propriedade sobre o voto.

Para o professor e especialista em marketing político Marcos Marinho, esse foi um dos cálculos centrais da escolha. Embora o voto evangélico não caminhe em uníssono, a estrutura formada por igrejas, congregações, células e grupos facilita a circulação da mensagem política. “Você tem condição de fazer volume, principalmente pela capilaridade”, avalia. Na leitura dele, Daniel e Caiado também podem ter considerado que o agronegócio, principal ativo de José Mário, já estava mais próximo da base e poderia ser reforçado pela própria candidatura presidencial de Caiado.

Marinho enxerga ainda uma segunda camada: 2030. Luiz do Carmo tem repetido que não pretende usar a vice como trampolim para uma candidatura ao governo daqui a quatro anos. Trata o posto como uma “missão” e garante que não disputará a sucessão. A declaração conversa com um bastidor recorrente na base: o de que Caiado pode querer preservar espaço para um eventual retorno ao Palácio das Esmeraldas.

O professor, doutor e pesquisador de ciências políticas e da religião Mackchwell Coimbra também vê uma decisão de caráter pragmático. Para ele, movimentos em direção a grupos específicos não servem apenas para conquistar novos apoios, mas para evitar distanciamento de segmentos já consolidados. “Isso não significa que o voto evangélico seja automaticamente transferido por uma liderança religiosa”, pondera.

Coimbra lembra que o eleitor evangélico também decide a partir da economia, segurança, avaliação de governo e identificação ideológica. A diferença está na capacidade de mobilização. Em uma disputa equilibrada, uma rede com forte presença social e institucional pode fazer diferença sem controlar a totalidade dos votos.

Uma escolha de cálculo

No caso de Luiz, a identidade religiosa se soma a uma trajetória construída muito antes da atual composição. Foi deputado estadual por dois mandatos e chegou ao Senado como suplente de Caiado, assumindo a cadeira após a eleição do então senador ao Governo de Goiás.

Ao discursar na convenção, fez questão de lembrar esse caminho. “Eu fui deputado estadual por dois mandatos e continuei o mandato de senador do Ronaldo Caiado”, afirmou, antes de se definir como “homem de resultados”. Mas foi a igreja que apareceu no roteiro de campanha.

Daniel lidera uma aliança ampla, sustentada por prefeitos, parlamentares e partidos, mas disputa uma eleição em que o campo conservador também é cobiçado pelo PL. Ter na vice um nome com entrada na Assembleia de Deus amplia a capacidade da chapa de disputar um eleitor que poderia gravitar com mais intensidade em torno do bolsonarismo.

Isso não significa que Luiz carregará consigo o voto assembleiano. Significa que Daniel e Caiado colocaram na chapa um interlocutor com legitimidade para disputar esse espaço.

A escolha encerrou também uma pré-campanha pessoal iniciada meses antes. Luiz visitou lideranças, defendeu sua capacidade de agregar o segmento religioso e apresentou o voto evangélico como elemento de uma equação majoritária. Venceu uma disputa que não foi decidida apenas pela religião, mas seria difícil explicar o resultado ignorando-a.

A conta que vai além do altar

A unidade, porém, não está garantida. Oséias está no PL. Luiz está com Daniel. Outras lideranças estarão espalhadas por diferentes candidaturas, inclusive a de Marconi Perillo. Dentro dos templos haverá eleitores de direita, centro e esquerda, além daqueles que ouvirão suas lideranças e votarão de maneira diferente.

A influência religiosa não precisa produzir unanimidade para ser eleitoralmente relevante. Em uma eleição equilibrada, organização, acesso e capacidade de mobilização podem representar um diferencial.

No palco da convenção, a euforia transformou meses de articulação numa frase curta. “Só Deus para fazer isso na minha vida”, disse. Politicamente, porém, a escolha passou por uma conta bem mais terrena. A engenharia da fé pesa, amplia capilaridade e abre portas, mas não controla a urna. Entre o púlpito e o voto, ainda existe o eleitor.

Redação Tribuna do Planalto

O Tribuna do Planalto, um portal comprometido com o jornalismo sério, ágil e confiável. Aqui, você encontra análises profundas, cobertura política de bastidores, atualizações em tempo real sobre saúde, educação, economia, cultura e tudo o que impacta sua vida. Com linguagem acessível e conteúdo verificado, a Tribuna entrega informação de qualidade, sem perder a agilidade que o seu dia exige.

Pesquisa