O coronel da reserva do Exército Rubens Pierrotti Jr., condenado na quinta-feira (6) pela Justiça Militar, é advogado e autor do livro “Diários da Caserna: Dossiê Smart: A História que o Exército Quer Riscar”. Lançado em 2024, o romance apresenta generais envolvidos em corrupção e outras irregularidades, além de narrar episódios que, segundo o próprio autor, são baseados em fatos reais, mas com os nomes dos personagens alterados. Pierrotti foi condenado por crítica indevida e ofensa às Forças Armadas. O julgamento foi realizado pelo Conselho Especial de Justiça da 1ª Auditoria da 1ª Circunscrição Judiciária Militar, no Rio de Janeiro, formado por um juiz federal e quatro generais.
O juiz Jorge Marcolino dos Santos votou pela absolvição nas duas acusações. Os quatro generais que integravam o conselho, entretanto, entenderam que o coronel deveria ser condenado, formando o placar de 4 votos a 1.
Como a pena aplicada foi inferior a dois anos, Pierrotti recebeu o chamado “sursis”, que permite a suspensão condicional da condenação mediante o cumprimento de determinadas exigências durante dois anos. A defesa informou que recorrerá ao Superior Tribunal Militar (STM) e, em caso de nova derrota, pretende levar o processo ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A trajetória do coronel inclui a passagem pelo comando do 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, entre 2015 e 2016. Ele está na reserva há dez anos e atualmente trabalha como advogado.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o livro escrito por Pierrotti concentra críticas sobre uma negociação envolvendo a compra de um simulador de apoio de fogo da empresa espanhola Tecnobit. O equipamento custou € 13,98 milhões, valor correspondente a aproximadamente R$ 32 milhões na época da assinatura do contrato, em 2010.
Pierrotti acusa antigos colegas de farda de terem compactuado com irregularidades na aquisição. Uma das figuras citadas indiretamente na obra seria o ex-vice-presidente e atual senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), representado no romance pelo personagem Simão.
O Exército e Mourão defendem a negociação e afirmam que a compra gerou economia para a corporação. As denúncias foram arquivadas pelo Ministério Público Militar. A área técnica do Tribunal de Contas da União apontou irregularidades após uma apuração que durou mais de três anos, mas o plenário do TCU também decidiu arquivar o caso, em 2021.
Durante entrevistas concedidas para divulgar o livro, Pierrotti criticou o comportamento do Exército diante da trama golpista relacionada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele afirmou que a tentativa de golpe não avançou por “inépcia dos próprios militares” e classificou como oportunista a atuação do comando e do Alto Comando do Exército.
O coronel também criticou os gastos e a produtividade do STM e afirmou que o Exército havia se transformado em uma “unidade politizada”. Para o Ministério Público Militar, as declarações ultrapassaram os limites da crítica e atingiram a dignidade e a credibilidade das Forças Armadas.
Pierrotti ainda responde a um Conselho de Justificação, procedimento administrativo conhecido como tribunal de honra. Caso seja condenado também nessa esfera, poderá ser declarado indigno do oficialato, perder o posto e a patente e ter os proventos da reserva cassados. O processo foi instaurado por determinação do comandante do Exército, general Tomás Paiva, e continua em fase de instrução.
A defesa classificou a condenação como uma afronta ao sistema de Justiça e sustentou que as declarações do coronel apenas repetiram fatos apurados por instituições como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o STF. O Exército informou que não comenta decisões judiciais nem processos administrativos em andamento.











