A redução da taxa básica de juros para 14% ao ano não significa que o Banco Central esteja diante de um ciclo prolongado de cortes da Selic. A avaliação de especialistas consultados após a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) é de que o ambiente ainda exige cautela, principalmente diante das expectativas de inflação acima da meta, da resistência dos preços de serviços e de um mercado de trabalho ainda aquecido.
A expectativa de inflação para 2026 está em 5,02%, segundo os dados citados pelos especialistas, nível que supera em 0,52 ponto percentual o teto da meta. Para 2027, a projeção está em 4,22%, enquanto a estimativa para 2028 é de 3,8%. O cenário reforça a preocupação do Banco Central com a desancoragem das expectativas.
Para José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, a ata apresentou um tom mais duro e indica que o Copom ainda não considera consolidada a convergência da inflação. Segundo ele, as expectativas para os prazos mais longos continuam sendo um dos principais pontos de preocupação da autoridade monetária.
O economista destaca três fatores que dificultam uma aceleração do processo de flexibilização: expectativas de inflação desancoradas, mercado de trabalho apertado e estímulos recorrentes à demanda por meio da política fiscal. Nesse cenário, novas melhoras nos indicadores serão necessárias para que o ciclo de cortes tenha continuidade.
IPCA será decisivo para próximos passos
A divulgação do IPCA também é apontada como um dos principais indicadores para a próxima decisão do Banco Central. Para André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, uma inflação abaixo do esperado, especialmente acompanhada por melhora nos núcleos e nos preços de serviços, poderia abrir espaço para uma nova redução da Selic.
Ainda assim, um único resultado não seria suficiente para alterar a postura do Copom. Segundo Caruso, o Banco Central deverá observar a evolução conjunta da inflação corrente, das expectativas e do mercado de trabalho antes de acelerar o ritmo de cortes.
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, também considera que o comportamento do IPCA será importante para determinar os próximos passos. Para ele, uma desaceleração concentrada em alimentos teria impacto menor sobre a decisão de setembro. O sinal mais favorável viria de uma redução mais disseminada, especialmente em serviços, núcleos e índice de difusão, acompanhada por moderação salarial.
“O corte da Selic pode vir primeiro; o crédito ficará mais barato apenas quando inflação, inadimplência e risco convergirem na mesma direção”, afirma Friggi.
Juros menores não significam crédito mais barato imediatamente
A relação entre a Selic e o custo efetivo do crédito também exige cautela. Segundo Gabriel Barca, head de relacionamento com investidores da Ouro Preto Investimentos, a redução da taxa básica pode aliviar despesas financeiras e melhorar as condições de refinanciamento das empresas, mas a desaceleração da economia pode reduzir receitas e a capacidade de geração de caixa.
Nesse ambiente, bancos e investidores podem manter spreads elevados mesmo diante de uma Selic menor, especialmente se o risco de inadimplência continuar elevado.
Barca avalia que a qualidade da seleção dos tomadores será determinante para transformar a redução dos juros em melhora efetiva do crédito. Entre os fatores que precisam ser considerados estão garantias, concentração, histórico de pagamentos e capacidade de recuperação.
A mesma preocupação aparece na avaliação de Letícia Moschioni, sócia da Finscale. Segundo ela, a Selic de 14% ainda pesa sobre estoques, vendas parceladas, financiamento de fornecedores e antecipação de recebíveis.
Para a especialista, existe uma defasagem entre o aumento ou a redução do custo financeiro e os efeitos sobre a atividade econômica. A autoridade monetária precisa, portanto, equilibrar o risco de cortar juros cedo demais, reacendendo a demanda, e o de manter a restrição monetária por tempo excessivo, prejudicando o caixa e os investimentos das empresas.
Inflação também afeta investimentos
O cenário de juros elevados continua influenciando as decisões de investimento. Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, calcula que, com a Selic em 14% e o IPCA projetado em 5,02%, o juro real ex-ante permanece próximo de 9%.
Para o mercado de venture capital, uma melhora consistente da inflação de serviços poderia reduzir as taxas utilizadas para descontar os fluxos de caixa das startups e melhorar os valuations. Por outro lado, uma inflação ainda disseminada mantém a renda fixa mais atrativa e aumenta a exigência sobre negócios de maior risco.
Nesse ambiente, segundo Patrus, investidores tendem a priorizar empresas com receita recorrente, margem, eficiência e menor dependência de novas rodadas de capital.
Gustavo Assis, CEO da Asset, também destaca a resistência das expectativas de médio prazo. Para ele, a curva de juros continuará reagindo ao equilíbrio entre uma inflação corrente mais favorável e projeções que ainda permanecem acima da meta.
A avaliação é que uma desaceleração dos núcleos e dos serviços poderia permitir novos cortes de 0,25 ponto percentual. Já uma queda concentrada em alimentos ou preços administrados teria menor peso para a política monetária.
Mercado de trabalho e cenário fiscal entram no radar
Outro fator de atenção para o Banco Central é o mercado de trabalho. André Matos, CEO da MA7 Capital, observa que o desemprego permanece historicamente baixo e que o rendimento real continua crescendo acima da produtividade do trabalho, cenário que pode manter pressão sobre os preços.
Na avaliação do executivo, a ata mostra que o BC considera os riscos inflacionários ainda relevantes e que o corte da Selic não deve ser interpretado como o início automático de uma longa trajetória de redução dos juros.
O cenário fiscal também aparece entre os fatores de preocupação, especialmente pelo potencial de aumentar o chamado juro neutro e dificultar a convergência da inflação.
Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike, resume a postura do Banco Central como de serenidade e cautela. Segundo ele, a autoridade monetária busca reconduzir a inflação para perto da meta ao mesmo tempo em que tenta suavizar os efeitos da política monetária sobre a atividade e o emprego.
Com a atividade desacelerando gradualmente e o mercado de trabalho ainda aquecido, o ritmo dos próximos cortes dependerá da evolução dos indicadores econômicos.
Cenário externo pode dificultar queda dos juros
Além dos fatores domésticos, o comportamento da economia internacional também pode limitar o espaço para novos cortes.
Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, chama atenção para a alta do petróleo e para os juros americanos. Segundo ele, o Brent voltou à região de US$ 88, enquanto os Treasuries de dez anos se aproximaram de 4,7%.
Uma combinação de petróleo elevado e juros americanos mais altos pode pressionar a inflação brasileira e reduzir a atratividade dos ativos domésticos. O impacto pode chegar ao consumidor por meio dos combustíveis, fretes, equipamentos e insumos importados.
Nesse cenário, mesmo um IPCA abaixo do esperado não garantiria automaticamente uma nova redução da Selic. Para Murad, seria necessário observar uma melhora nos componentes mais persistentes da inflação e expectativas mais próximas da meta.
Corte de juros será gradual
As avaliações dos especialistas convergem para um cenário de queda gradual dos juros, mas sem garantia de uma sequência rápida de cortes.
O Banco Central terá de acompanhar principalmente o comportamento dos serviços, dos núcleos de inflação, das expectativas, do mercado de trabalho e das condições fiscais e externas. A leitura desses indicadores deverá determinar se haverá espaço para uma nova redução de 0,25 ponto percentual ou se o Copom terá de manter a Selic em patamar elevado por mais tempo.
O cenário, portanto, combina sinais de desaceleração da atividade econômica com uma inflação que ainda não está plenamente controlada. Para o mercado, o corte já realizado representa um primeiro movimento de flexibilização, mas não significa que o ciclo de redução dos juros esteja garantido.
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