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Pesquisa mostra que Saúde é maior problema para 35% dos eleitores em Goiás

Planos de governo de candidatos focam em reduzir filas e regionalizar serviços; conselheiro aponta que atenção primária deveria ser prioridade


Carla Borges Por Carla Borges em 23/08/2026 - 08:50

Atenção primária saúde Goiás
Atenção primária para prevenir agravamentos deveria receber mais investimentos. (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil (posto) Marcello Casal Jr./A)

A saúde é a maior preocupação de 35% dos eleitores de Goiás. É o que revela pesquisa Genial Quaest realizada entre 24 e 28 de julho, e divulgada no dia 30 do mesmo mês. Ela repete uma tendência que vem de sondagens realizadas nas eleições de 2024, quando 40% apontaram a saúde como prioridade. A Tribuna do Planalto analisou as propostas para essa área específica nos planos de governo dos seis candidatos a governador registrados no Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) e ouviu especialista para confrontar os projetos com a real necessidade dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

A regionalização da saúde é apontada como prioritária em praticamente todos os planos de governo dos candidatos, que apresentam outras semelhanças entre si. Políticas voltadas para a redução de filas, por meio de uma regulação mais eficiente, também. A prevenção do agravamento de doenças, por meio da atenção básica, é citada, mas sem destaque. Mais obras também estão entre os planos dos governadoriáveis. 

Propostas dissonantes aparecem no plano de Luis Cesar Bueno (PT): reestatização da rede estadual, passando a gestão dos hospitais públicos para o estado, em lugar das organizações sociais (OS) e realização de amplo concurso público, para pôr fim aos vínculos precários de trabalhadores. Wilder Morais quer criar uma tabela estadual destinada a complementar os valores pagos pelo governo federal por procedimentos realizados. Luciana Amorim (UP) incluiu em seu plano de governo a distribuição de absorventes em unidades de saúde, escolas e presídios. Danilo Pinheiro (PCO) listou a volta do programa Mais Médicos. Daniel Vilela (MDB) e Marconi Perillo (PSDB) apontam soluções digitais, entre outros compromissos (veja as principais propostas nesta página).

Prevenção

Integrante dos Conselhos Estadual e Municipal de Saúde como representante do segmento de usuários, Venerando Lemes de Jesus avalia que o principal flanco dessa política pública é o que menos recebe atenção, não só dos candidatos destas eleições, mas em ao longo dos anos: a atenção primária à saúde. “Temos um problema grave, sobretudo na Região Metropolitana de Goiânia, e venho alertando há tempos sobre isso”, diz o conselheiro. Ele diz que a cobertura de atenção básica em saúde em Goiânia é de pouco mais de 30% da população. “Os três maiores bairros da capital, Jardim América, Setor Pedro Ludovico e Jardim Novo Mundo, não têm unidade de saúde da família, e são bairros onde há muitas pessoas pobres, que dependem exclusivamente do SUS”, exemplifica.

Venerando explica que as ações de atenção primária incluem receber vacinas em tempo hábil, realizar consultas e disponibilizar medicamentos e exames. “Pacientes idosos, diabéticos, gestantes precisam dessa atenção, sob pena de o quadro clínico se agravar e precisarem de internação, de UTI”, pontua o conselheiro, para quem os governos têm o dever de olhar para as pessoas e oferecer esse cuidado. “Temos uma cobertura muito baixa e, com isso, aumentam as filas de pessoas indo para os serviços de urgência e emergência em decorrência do agravamento. Para conseguir consulta com um cardiologista, chega-se a esperar por dois anos. Depois da consulta, vêm seis, oito meses para um exame. Digo isso não por ouvir falar, mas por ver situações assim”, ressalta. 

Em ortopedia, por exemplo, Venerando cita que 90% das pessoas atendidas no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) com fratura e que precisam de cirurgia são mandadas para casa, para aguardar atendimento. “Já vi casos de pessoas que ficaram oito meses em casa aguardando e não são chamadas para a cirurgia”. Venerando observa ainda que a pandemia de Covid-19 agravou a desigualdade social, que já era muito acentuada em Goiás. Antes da pandemia, cerca de 70% dependiam apenas do SUS em Goiás; hoje são 80%. “Para completar, o governo Caiado privatizou o Ipasgo e o Imas, administrado pela Prefeitura de Goiânia, vai na mesma direção, o que significa mais pessoas no SUS”.

“Não há regionalização da saúde em Goiás”

Venerando Lemes de Jesus avalia que a tão mencionada regionalização da saúde em Goiás não é realidade. “O governo estadualizou alguns hospitais que eram municipais e diz que houve regionalização, mas isso não vai resolver, não há regionalização”, entende o conselheiro, que cita a Região Nordeste do Estado, onde há uma policlínica, em Posse. Já na Região Oeste, há duas policlínicas, mas o único hospital é filantrópico (São Pedro D’Alcântara, na cidade de Goiás).

Outro aspecto que deve ser considerado é o do financiamento da saúde. Venerando vê um avanço na iniciativa da Prefeitura de Goiânia, que está destinando verbas diretamente às unidades de saúde para a solução de pequenas demandas, mas pondera que é preciso avançar. Com as emendas impositivas, ele aponta que os parlamentares enviam recursos para investimentos (aquisição de veículos e obras, por exemplo) e não para custeio, que não dá visibilidade. “Essas emendas, da forma como vem acontecendo, estão promovendo um ‘desfinanciamento’ da saúde”, entende.

Veja as principais propostas dos planos de governo dos candidatos a Governador de Goiás

Daniel Vilela

  • Ampliar a regionalização da saúde e a capacidade dos hospitais estaduais
  • Expansão das policlínicas estaduais, com entrega de novas unidades e serviços especializados
  • Fortalecer a atenção primária em cooperação com os municípios
  • Aprimorar sistemas de regulação regional 
  • Expandir o uso de ferramentas digitais e telessaúde
  • Fortalecer a Rede Estadual de Atenção Psicossocial e Reabilitação
  • Fortalecer a Rede Estadual de Doação e Transplantes
  • Aperfeiçoar e regionalizar a Rede Estadual de Combate ao Câncer

Danilo Pinheiro

  • Mais verbas para a saúde pública
  • Plano de emergência para construção de hospitais e postos de saúde em todo o País
  • Volta do programa Mais Médicos e validação imediata de todos os diplomas de médicos brasileiros e estrangeiros residentes no País
  • Abertura imediata de centenas de cursos de medicina e outros da área com livre acesso (sem vestibular)
  • Piso salarial de R$8 mil para os profissionais da saúde

Luciana Amorim

  • Construção de Centros Regionais de Saúde de Especialização Médica
  • Interiorização das unidades de pronto atendimento (UPA)
  • Implementação de rede de centros de saúde da família em todo o estado
  • Distribuição de absorventes nas unidades básicas de saúde, escolas e unidades prisionais
  • Em defesa do SUS, pelo fim das organizações sociais na saúde do estado
  • Garantir o acesso ao pré-natal de qualidade

Luis Cesar Bueno

  • Reestatização da gestão estadual hospitalar, com transição planejada
  • Concurso público amplo e regular, com revisão de distorções e fim da pejotização
  • Universalização da cobertura da estratégia de saúde da família, fortalecimento da medicina de família e comunidade
  • Usar a regionalização como ferramenta de equidade entre as diferentes regiões do estado
  • Retomar obras paralisadas e na conclusão de unidades estratégicas 
  • Plano estadual de redução das filas de regulação, com transparência
  • Plano estadual de expansão da rede de atenção psicossocial

Marconi Perillo

  • Implantar uma política permanente para acabar com as filas e a espera prolongada para consultas, exames e cirurgias
  • Fortalecer a rede regional de saúde para o atendimento na própria região
  • Profunda reorganização da regulação estadual e regional, integrando consultas, exames, internações, cirurgias e demais procedimentos
  • Ampliar o uso de telessaúde, teleconsultas, telelaudos e outras soluções digitais
  • Fortalecer a prevenção e organizar linhas prioritárias de cuidado para os principais desafios de saúde da população
  • Valorizar e qualificar os profissionais de saúde

Wilder Morais

  • Unificar as filas estaduais de consultas, exames, cirurgias e terapias
  • Implantar a regra Data na Guia: o encaminhamento regulado terá prazo de referência, canal de acompanhamento e alternativa assistencial quando houver atraso relevante
  • Criar uma tabela estadual que complementa os valores federais para pagar pelo procedimento realizado 
  • Criar política regional de fixação e formação em serviço para médico, enfermagem e demais profissionais nas especialidades em falta no interior
  • Organizar caminhos completos, com prazo entre etapas, para câncer, saúde da mulher, gestação e parto, autismo, saúde mental, reabilitação, doenças raras e saúde bucal

Fonte: TSE

Pesquisa