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A oposição em disputa

Marconi, Wilder e Luis Cesar enfrentam desafios distintos para transformar a vantagem de Daniel Vilela numa disputa efetivamente aberta pelo Governo de Goiás


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 23/08/2026 - 08:56

luis-marconi-e-wilder Oposição
(Fotos: Divulgação)

O governador Daniel Vilela escolheu o medo como provocação. No estacionamento do Serra Dourada, durante o adesivaço que marcou o início de sua campanha de rua em Goiânia, na última terça-feira (18), o emedebista disse enxergar pouca reação de quem pretende tirá-lo do Palácio das Esmeraldas. A fala devolvia uma provocação feita dias antes, quando Marconi Perillo havia usado a mesma palavra para questionar a ausência de Daniel no primeiro debate eleitoral. Em pouco mais de uma semana, governo e oposição passaram a disputar até o direito de dizer quem está com receio de quem.

Por trás da troca de acusações existe uma questão mais importante. A campanha começou, Daniel largou na frente e seus três principais adversários enfrentam problemas diferentes para transformar a eleição numa disputa aberta.

Marconi precisa provar que ainda é a principal referência da oposição. Wilder Morais tenta demonstrar que já tomou esse lugar. Luis Cesar Bueno enfrenta uma etapa anterior: provar que a candidatura do PT será competitiva e não apenas um palanque estadual para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Marconi precisa provar que ainda é

Por quase duas décadas, governo e oposição em Goiás foram conceitos organizados ao redor de Marconi. Primeiro como governador e principal liderança do grupo que controlou o Palácio das Esmeraldas. Depois, com a vitória de Ronaldo Caiado em 2018, como referência mais conhecida do campo derrotado.

O tempo alterou essa configuração. Marconi perdeu duas eleições consecutivas para o Senado, viu antigos aliados migrarem para Caiado e assistiu ao PSDB perder prefeitos, deputados e parte da estrutura acumulada durante seus governos. Em 2026, voltou ao interior, recuperou o discurso de comparação entre gestões e tenta reconstruir uma candidatura a partir das marcas deixadas pelos quatro mandatos.

Ainda possui uma vantagem sobre os demais oposicionistas: não precisa ser apresentado como adversário do grupo governista. Carrega também o preço disso.

A Paraná Pesquisas divulgada nesta semana colocou Marconi em segundo lugar, com 24,9% das intenções de voto. Daniel apareceu com 45,8%. O mesmo levantamento mostrou uma dificuldade adicional para o tucano: 40,8% dos entrevistados disseram que não votariam nele de jeito nenhum.

A fotografia coloca Marconi à frente na disputa pela segunda posição, mas expõe seu limite mais evidente. Ser reconhecido como oposição não significa necessariamente ser aceito novamente como alternativa. O desafio não é apenas recordar o que fez. É convencer o eleitor de que os quatro governos constituem uma razão para voltar, e não parte de um ciclo encerrado.

Wilder precisa provar que já é

O problema de Wilder é quase o inverso. O senador tem o PL, um mandato, recursos partidários e uma identidade conservadora alimentada pelo bolsonarismo. Derrotou Marconi para o Senado em 2022 e tenta repetir a ultrapassagem em uma disputa diferente.

Só que uma eleição para governador exige mais. Wilder precisa transformar a força nacional da legenda numa candidatura estadual. O voto em Flávio Bolsonaro não se transfere automaticamente para o candidato ao governo, assim como a identificação com o número 22 não resolve questões de saúde, educação, estradas ou desenvolvimento regional.

Para ocupar a liderança da oposição, o senador precisa ser reconhecido por algo além do campo político ao qual pertence. E nem isso tem conquistado, haja vista, a perda de apoios relevantes como o caso do prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, que vai caminhar com Daniel Vilela.

E há pesquisa indicando que a ultrapassagem é possível. Quatro dias antes do levantamento da Paraná Pesquisas, o Goiás Pesquisas/Mais Goiás apresentou outra fotografia. Wilder tinha 18,9% e Marconi, 18,8%. Um décimo separava os dois. Daniel liderava com 37,2%.

Os levantamentos possuem metodologias próprias e não formam uma mesma série. Politicamente, porém, a divergência revela que a hierarquia entre tucanos e bolsonaristas ainda não está estabilizada. Em uma pesquisa, Marconi abre vantagem. Na outra, Wilder aparece numericamente à frente.

E o PT precisa provar que está no jogo

Luis César Bueno enfrenta outra eleição. O candidato do PT não disputa, por enquanto, a segunda colocação com Marconi e Wilder. Na Paraná Pesquisas, aparece com 2,3%. No cenário espontâneo, quando o entrevistador não apresenta os nomes, é citado por 0,6%.

Os números colocam uma pergunta incômoda para o partido: Luis será efetivamente candidato ao Governo de Goiás ou funcionará principalmente como instrumento para oferecer um palanque a Lula no Estado?

A dúvida acompanha sua candidatura desde antes da convenção. A direção estadual escolheu Luis Cesar, mas a própria cúpula nacional buscou alternativas consideradas mais competitivas. Lula chegou a defender a entrada de Adriana Accorsi na disputa. A deputada recusou e manteve o projeto de reeleição à Câmara. Somente depois desse processo o PT chegou à candidatura que está hoje nas ruas.

O partido decidiu transformar a defesa do governo Lula e a concentração do voto progressista em eixos da campanha estadual. O raciocínio tem lógica, mas esbarra numa questão conhecida: voto presidencial não é automaticamente voto para governador. Luis César precisa construir uma candidatura que sobreviva quando Lula não estiver na frase.

Tem a seu favor um campo político que não é ocupado da mesma forma por Daniel, Marconi ou Wilder e uma frente partidária organizada em torno da reeleição presidencial. A dificuldade é transformar essa identidade numérica e ideológica em voto para o Palácio das Esmeraldas.

Se não conseguir, poderá passar a campanha falando para um eleitor já convencido sobre Lula sem convencê-lo a votar também no candidato do PT ao governo. É a diferença entre ter um palanque e ter uma candidatura.

O problema das oposições

As três candidaturas criam dificuldades distintas para Daniel.

Marconi é o adversário com maior recall e melhor posição nas pesquisas, mas também carrega a maior rejeição. Wilder possui uma base conservadora menos resistente ao seu nome, mas ainda não consolidou a força do PL numa candidatura estadual. Luis Cesar tem a possibilidade de mobilizar o eleitor petista, mas parte de um patamar muito inferior aos demais.

Eles também competem em terrenos diferentes.

Marconi procura fazer oposição pela comparação entre governos. Wilder trabalha principalmente a identidade política e ideológica. Luis Cesar tenta organizar o contraponto pela esquerda e associar a eleição estadual ao projeto nacional de Lula.

Essa divisão interessa ao governador. Quanto mais fragmentados estiverem os votos contrários à continuidade do grupo caiadista, mais difícil será para um adversário transformar a campanha num plebiscito entre Daniel e uma única alternativa.

 

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