O conselho de administração da Braskem autorizou a petroquímica a pedir recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas, o equivalente a R$ 56,2 bilhões. A decisão foi comunicada ao mercado nesta segunda-feira (24), depois de a companhia avançar em um acordo com seus principais credores.
A recuperação extrajudicial permite que uma empresa negocie diretamente com parte dos credores e, posteriormente, submeta o plano à homologação da Justiça. No comunicado em que anunciou o aval, a Braskem afirmou que os documentos ainda não haviam sido protocolados.
Segundo a companhia, o procedimento terá alcance “estritamente financeiro” e não incluirá obrigações mantidas com fornecedores, clientes e outros públicos relacionados à operação. A afirmação, porém, coloca sob atenção o tratamento dos compromissos socioambientais assumidos pela empresa em Maceió, onde a extração de sal-gema provocou o afundamento do solo e obrigou dezenas de milhares de pessoas a abandonar suas casas.
O desastre começou a se tornar visível em março de 2018, após um tremor de magnitude 2,4 e o aparecimento de rachaduras em imóveis, ruas e equipamentos públicos. Estudos do Serviço Geológico do Brasil relacionaram a instabilidade do terreno à exploração das minas subterrâneas. A Agência Nacional de Mineração reconhece que a mineração foi a causa mais relevante da subsidência e que a única maneira de evitar o fenômeno naquela proporção seria não realizar a lavra de sal no local.
A Braskem explorou 35 frentes de lavra na região. A atividade foi interrompida apenas em maio de 2019, mais de um ano depois dos primeiros sinais graves. Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol foram atingidos. Dados do Ministério Público Federal apontam que mais de 14 mil imóveis foram diretamente afetados e cerca de 60 mil pessoas tiveram de ser removidas.
Mesmo depois da paralisação da mineração, o risco permaneceu. Em novembro de 2023, a velocidade de afundamento aumentou nas proximidades da Mina 18. A cavidade rompeu em dezembro daquele ano, na região da Lagoa Mundaú, reforçando que as consequências do desastre se estenderiam por muitos anos.
Entre 2019 e 2024, acordos firmados com o Ministério Público e defensorias obrigaram a companhia a financiar a retirada dos moradores, pagar indenizações, fechar e estabilizar as minas, monitorar o solo e executar medidas de reparação ambiental e urbana. Em novembro de 2025, a Braskem também acertou o pagamento de R$ 1,2 bilhão ao governo de Alagoas, parcelado em dez anos. O montante foi contestado por movimentos de atingidos, diante de estimativas estaduais que apontavam danos superiores a R$ 30 bilhões.
O passivo de Maceió se somou à queda dos preços internacionais dos produtos petroquímicos, ao avanço das importações asiáticas e aos problemas da subsidiária mexicana Braskem Idesa. Embora a companhia tenha registrado lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, sua dívida total chegou a aproximadamente R$ 54 bilhões. A alavancagem alcançou 14,7 vezes o Ebitda, patamar considerado extremamente elevado pelo mercado.
A recuperação extrajudicial pode oferecer fôlego à Braskem perante os credores financeiros. Ela não elimina, contudo, a responsabilidade por um desastre que esvaziou bairros inteiros, destruiu vínculos comunitários e deixou uma extensa área da capital alagoana sem condições de ocupação. Os acordos socioambientais continuam submetidos ao acompanhamento das instituições públicas, independentemente da reorganização das dívidas da companhia.














