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Como criar o hábito de leitura? 5 dicas para voltar a ler de vez

Com brasileiros passando mais de cinco horas por dia conectados à internet pelo celular, recuperar espaço para os livros pode parecer difícil; pequenas mudanças ajudam a transformar a leitura em parte da rotina.


Danilo Santana Por Danilo Santana em 24/08/2026 - 12:31

Muitas pessoas optam por fazerem suas leituras no transporte publico (Foto: Unsplash)

Esta não vai ser uma leitura rápida, mas vai te ajudar a finalmente a se tornar um leitor.

Reacender — ou começar do zero — o hábito de leitura aparece com frequência entre aquelas promessas que fazemos para nós mesmos seja nos aniversário, ou nos votos de ano novo. Assim como voltar a praticar exercícios físicos, ler mais parece relativamente simples quando estabelecemos a meta. O problema costuma aparecer algumas semanas depois, quando a rotina retoma seu espaço.

Trabalho, estudos, compromissos e tarefas domésticas disputam uma parte considerável do dia. Além disso, há um concorrente particularmente eficiente pela nossa atenção: o celular. Entre mensagens, vídeos curtos, redes sociais e notificações, encontrar meia hora para permanecer diante de um livro pode parecer mais difícil do que deveria.

Quem disputa nosso tempo e atenção?

Os números ajudam a dimensionar essa disputa. Dados referentes ao terceiro trimestre de 2024 apontam que os brasileiros passavam, em média, 9 horas e 9 minutos por dia conectados à internet. Desse período, 5 horas e 12 minutos eram de acesso pelo celular. Já o IBGE mostrou que, em 2025, 95,6% dos brasileiros que utilizavam a internet tinham o hábito de acessá-la todos os dias e 84,9% usavam redes sociais.

Isso não significa que o celular esteja simplesmente “destruindo nossa capacidade de concentração”. A questão é menos categórica. A atenção é um recurso limitado e precisa selecionar estímulos enquanto controla distrações; por isso, um ambiente que exige alternância frequente entre tarefas e informações concorre diretamente com atividades que dependem de atenção sustentada. E poucas atividades exigem tanto essa permanência quanto sentar, abrir um livro e acompanhar dezenas de páginas sem trocar de estímulo.

Ainda assim, voltar a ler não exige transformar a rotina inteira. Algumas mudanças pequenas ajudam a recuperar a intimidade com os livros — e talvez terminar o ano lendo muito mais do que você imaginava.

1. Separe um tempo para ler, mesmo que sejam dez minutos

Não comece prometendo uma hora de leitura diária se você dificilmente encontra uma hora livre. Dez ou quinze minutos já servem.

Faça assim. Definido seu seu período do dia de preferência, deixe seu celular e computador longe. Pode ser antes de dormir, depois do almoço, no transporte público ou durante o café da manhã. Mais importante do que a duração, nesse primeiro momento, é a regularidade. Faça isso por dias seguidos.

Você também pode estabelecer a meta por páginas: cinco ou dez por dia, por exemplo. Parece pouco, mas dez páginas por dia são 300 páginas em um mês. Ou seja, o suficiente para terminar muitos romances sem precisar reorganizar radicalmente a rotina.

Durante esse período, tente fazer apenas uma coisa: ler. Não é necessário responder uma mensagem, atender uma ligação ou checar o Instagram, essas coisas podem esperar dez minutos.

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2. Escolha alguma coisa que realmente desperte seu interesse

Pode parecer óbvio, mas a leitura também foi contaminada pela lógica da produtividade. Nas redes sociais, não faltam listas de livros que você “precisa ler”, obras que prometem transformar sua carreira e títulos apresentados como atalhos para enriquecer, melhorar relacionamentos ou aumentar a performance profissional.

Talvez seu primeiro livro não precise resolver absolutamente nada.

Experimente começar por uma história. Há séculos encontramos nos personagens fictícios e nos relatos de pessoas reais maneiras de compreender problemas que também fazem parte da nossa vida. Romance, terror, aventura, ficção científica, biografia, investigação, fantasia ou história: vale aquilo que fizer você querer virar a página.

Antes de procurar um título, portanto, faça perguntas mais simples: que tipo de história me prende? Sobre o que tenho curiosidade? Qual filme, série ou acontecimento histórico gostaria de conhecer melhor?

A própria pesquisa Retratos da Leitura no Brasil dá uma pista importante. O tema ou assunto da obra é o principal fator de escolha de um livro para 33% dos leitores brasileiros.

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Foto: Pexels

3. Vá a uma biblioteca ou livraria

Saia de casa para caçar seu próximo livro.

Comprar pela internet é conveniente e, muitas vezes, mais barato. Entretanto, uma livraria permite encontrar aquilo que você nem sabia que estava procurando. Percorrer estantes, ler contracapas e abrir livros aleatoriamente tira um pouco da escolha das mãos dos algoritmos.

Também vale conversar com um livreiro. Dizer “gosto de histórias policiais, mas nunca li um romance policial” pode render recomendações muito melhores do que pesquisar simplesmente “melhores livros policiais” na internet. Uma vez que um título chama sua atenção na livraria você pode, por exemplo, tirar uma foto para buscar uma oferta melhor na internet.

Bibliotecas oferecem outra vantagem: experimentar sem precisar comprar. Você pode levar um livro para casa e descobrir, cinquenta páginas depois, que ele simplesmente não era para você. Tudo bem. Devolva e procure outro.

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4. Seja humilde: deixe os calhamaços para depois

Grande Sertão: Veredas, Moby Dick, Cem Anos de Solidão ou os volumes de As Crônicas de Gelo e Fogo podem proporcionar experiências extraordinárias. Mas talvez não sejam a melhor porta de entrada para alguém que atualmente encontra dificuldade para terminar cinquenta páginas.

No começo, terminar livros ajuda a criar ritmo e te estimula a ir para o próximo. Por isso, procure obras entre aproximadamente 150 e 250 páginas, especialmente histórias com capítulos menores e uma narrativa que avance rapidamente.

Há opções bastante diferentes entre si. A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, Bom Dia, Inverno, de Tamara Klink, Cem Dias Entre Céu e Mar, de Amyr Klink, e Nunca Minta, de Freida McFadden, são alguns caminhos possíveis. Mas são apenas sugestões. Se nenhuma delas despertar sua curiosidade, ignore todas. Um livro de 180 páginas que você não quer ler pode parecer muito maior do que um de 400 que não consegue largar.

E existe outra regra que merece ser normalizada: você pode abandonar um livro. Ler por prazer não é uma prova de resistência. Se não está gostando, abandone e procure outro que te chame mais atenção.

Cabeceira: um aplicativo para organizar e criar metas de leitura

5. Use aplicativos para organizar suas leituras

Curiosamente, o próprio celular pode ajudar a criar alguma disciplina.

Com a popularização de criadores de conteúdo literário, surgiram ferramentas para registrar livros, montar listas, acompanhar páginas lidas e estabelecer metas. Uma das opções brasileiras é o Skoob, que funciona como uma rede social para leitores. É possível catalogar obras, atribuir notas, escrever resenhas e acompanhar outros usuários.

O Goodreads oferece uma proposta semelhante e reúne uma comunidade internacional de leitores. Foi deste aplicativo a inspiração para criação do brasileiro Skoob.

Para quem não está interessado no aspecto de rede social, o Cabeceira adota uma abordagem mais voltada ao acompanhamento pessoal. O aplicativo permite organizar os títulos de acordo com o estágio da leitura, estabelecer metas e calcular o ritmo necessário para terminar uma obra dentro do período escolhido.

O importante é não transformar a ferramenta em uma nova obrigação.

Ficheiro:Livros plano nacional de leitura.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Seja gentil com você mesmo, não crie metas impossíveis

O cenário brasileiro mostra que criar esse hábito está longe de ser uma dificuldade individual.

Novamente, a edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil constatou que 53% dos brasileiros não se enquadravam mais na definição de leitores adotada pelo levantamento. A média anual também caiu: passou de 4,95 livros em 2019 para 3,96 livros em 2024, considerando obras lidas integralmente ou em partes — o menor resultado da série histórica.

Talvez seja justamente por isso que uma meta inicial não precise ser “ler 30 livros neste ano”. Se você atualmente não lê nenhum, terminar quatro já significa praticamente um livro a cada três meses — e coloca sua rotina próxima da média nacional. Depois vêm o quinto, o sexto e aquele primeiro livro grande que antes parecia impossível.

O hábito dificilmente nasce da quantidade acumulada na estante; começa quando abrir um livro deixa de parecer uma tarefa e passa a ser uma parte comum do seu dia.

Confira as pesquisas Retratos da Leitura no Brasil: Clique aqui

Danilo Santana

Jornalista e produtor audiovisual baseado em São Paulo. Escreve sobre cultura e esporte.

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