Antes das novelas diárias, do videotape, dos grandes estúdios e da televisão em cores, Laura Cardoso já era atriz. Quando chegou à TV, em 1952, o veículo tinha apenas dois anos de existência no Brasil. Nas oito décadas seguintes, ela atravessaria praticamente todas as fases da dramaturgia nacional até se tornar uma das artistas mais longevas do país.
Laura morreu aos 98 anos, em São Paulo, nesta terça-feira (18). Deixou mais de uma centena de trabalhos entre rádio, televisão, teatro e cinema e uma biografia que acompanha a própria formação da indústria audiovisual brasileira.
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, era filha de imigrantes portugueses vindos da região de Trás-os-Montes. Cresceu na Bela Vista, região do Bixiga, em uma família de poucos recursos e chegou a morar em um cortiço durante a infância.
A vontade de representar apareceu antes mesmo de qualquer contato profissional com o palco. Ainda criança, improvisava apresentações sobre caixotes de madeira e tinha a avó como plateia. Também gostava de ler para os pais, que tinham pouca familiaridade com a leitura, e mais tarde passou a recitar textos no colégio.
O rádio abriu a primeira porta
A carreira profissional começou em 1942, quando Laura tinha 15 anos. O rádio era então o principal veículo de comunicação de massa do país e as radionovelas ocupavam o espaço que décadas depois seria dominado pela televisão.
Laura chegou a fazer um teste na Rádio São Paulo, diante de Oduvaldo Vianna, mas desistiu. Pouco depois, encontrou coragem para tentar novamente e entrou na Rádio Cosmos, onde passou por programas de auditório, humorísticos e radionovelas.
Foi nesse período que Laurinda passou definitivamente a ser Laura Cardoso. Nos anos seguintes, trabalhou em algumas das principais emissoras paulistas, entre elas Tupi, Bandeirantes e Cultura. Em 1946, na Rádio Tupi, conheceu o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, com quem se casaria e teria duas filhas, Fernanda e Fátima.
Em 1948, ganhou projeção no rádio ao interpretar a menina Laurinha no programa Ciranda, Cirandinha, da Rádio Cultura. Depois retornou à Tupi, onde integrou radionovelas dirigidas por nomes como Otávio Gabus Mendes.
A televisão brasileira havia começado oficialmente em setembro de 1950. Dois anos depois, Laura Cardoso já estava diante das câmeras da TV Tupi.
Sua estreia ocorreu em 1952, no programa Tribunal do Coração, escrito por Vida Alves. A televisão daquele período tinha pouco em comum com o modelo que se consolidaria nas décadas seguintes. Não havia a estrutura de gravação e edição de hoje. Boa parte da dramaturgia era transmitida ao vivo.
Laura passou cerca de 15 anos no elenco dos teleteatros da Tupi. Participou de produções como TV de Vanguarda, TV de Comédia e Grande Teatro Tupi, que adaptavam obras da literatura e do teatro para um veículo ainda em formação.
Era uma televisão sem margem confortável para erro. Cenários, trocas de figurino, movimentação dos atores e diálogos precisavam funcionar diante das câmeras praticamente como em um palco. Laura se formou profissionalmente nesse ambiente.
Ao longo das décadas seguintes, passou também pelas TVs Rio, Excelsior, Bandeirantes, Record e novamente pela Tupi. Fez novelas como As Pupilas do Senhor Reitor, na Record, e trabalhos como Os Inocentes e Ídolo de Pano na fase final da emissora que havia aberto as portas para sua carreira televisiva.
A chegada à Globo e os papéis que ficaram na memória
Laura Cardoso já tinha quase quatro décadas de carreira quando estreou na TV Globo. O primeiro trabalho na emissora foi Brilhante, novela de Gilberto Braga exibida em 1981. Interpretou Alda e, a partir dali, iniciou uma sequência de participações que a tornaria presença recorrente na teledramaturgia da Globo.
Vieram depois Pão-Pão, Beijo-Beijo, Livre para Voar, Fera Radical, Rainha da Sucata, Felicidade e dezenas de outras produções. Para uma nova geração de telespectadores, entretanto, alguns personagens dos anos 1990 ajudaram a fixar definitivamente o rosto de Laura Cardoso na memória popular.
Em Mulheres de Areia, de 1993, interpretou Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel. No ano seguinte, esteve em A Viagem como Guiomar. Em 1995, interpretou Sinhana no remake de Irmãos Coragem, trabalho pelo qual recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, a APCA.
Mais tarde, participou de produções como Explode Coração, Hoje É Dia de Maria e Caminho das Índias. Nesta última, exibida em 2009, interpretou Laksmi Ananda, matriarca de uma família indiana e mãe do personagem vivido por Tony Ramos.
A parceria entre Laura e Tony atravessou mais de seis décadas, desde os tempos da TV Tupi. Após a morte da atriz, ele a definiu como a “rainha da TV”.
Teatro e cinema nunca ficaram em segundo plano
Embora tenha se tornado nacionalmente conhecida pela televisão, Laura Cardoso manteve uma carreira paralela no teatro.
Sua estreia no teatro adulto ocorreu em 1959, em Plantão 21, de Sidney Kingsley, com direção de Antunes Filho. Décadas depois, voltaria a trabalhar com Antunes em Vereda da Salvação.
Nos palcos, construiu uma trajetória própria e recebeu duas vezes o Prêmio Shell. Atuou ainda, até 2016, em A Última Sessão, peça de Odilon Wagner na qual interpretava uma psicanalista.
No cinema, participou de mais de 20 produções. Esteve em títulos como Terra Estrangeira, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, Através da Janela e O Outro Lado da Rua. Por Através da Janela, recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Miami. Laura também trabalhou como dubladora. Nos anos 1960, emprestou a voz à personagem Betty, de Os Flintstones.
A atriz que não aceitava aposentadoria
Nem a idade interrompeu a relação de Laura Cardoso com o trabalho. A atriz continuou fazendo televisão depois dos 90 anos. Sua última novela foi A Dona do Pedaço, em 2019, quando interpretou Matilde Azevedo.
Em 2025, aos 97 anos, voltou às telas no curta-metragem Dona Rosinha. No filme, interpretou uma idosa abandonada pela própria filha em um ponto de ônibus. Mesmo com dificuldades de locomoção, participou do lançamento da produção e concedeu entrevistas.
No mesmo ano, ganhou uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo e participou da tradicional mensagem de fim de ano da emissora.
Laura tratava a continuidade profissional quase como princípio de vida. Em uma frase repetida ao longo dos anos, resumiu sua resistência à aposentadoria: “A gente se aposenta quando vai embora”.
Foi assim que sua carreira chegou a mais de 80 anos. Do rádio dos anos 1940 à televisão em streaming, Laura Cardoso atravessou mudanças de linguagem, tecnologia e hábitos do público sem abandonar o ofício que escolheu ainda adolescente. Mais do que acumular personagens, esteve presente na construção de diferentes etapas da dramaturgia brasileira.












