Missão seria liderada por Riley Barnes e Samuel Samson, do Departamento de Estado. Diplomata brasileiro classifica iniciativa como manobra incompatível com a democracia. Governo brasileiro negou vistos aos dois funcionários.
O governo dos Estados Unidos planeja enviar dois altos funcionários do Departamento de Estado a Brasília para questionar a integridade das urnas eletrônicas brasileiras. A informação foi publicada pelo jornal americano The Washington Post em 25 de julho de 2026 e confirmada por veículos como G1, CNN Brasil e Agência Brasil.
A delegação seria composta por Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente. Ambos foram nomeados pelo presidente Donald Trump. A viagem estaria prevista para ocorrer poucas semanas antes das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para 4 de outubro.
O Departamento de Estado confirmou a viagem ao Washington Post, mas não detalhou o objetivo da missão nem respondeu sobre eventuais preocupações com o sistema eleitoral brasileiro.
Reação de diplomatas brasileiros
Nos bastidores, a iniciativa provocou reação imediata de diplomatas brasileiros. Eles classificaram a visita como ingerência e afirmaram que o governo atua para proteger o sistema de votação.
“É uma manobra totalmente incompatível com a democracia brasileira”, afirmou um diplomata, sob condição de anonimato. Segundo o jornal, a suspeita é de que Barnes e Samson busquem interlocução com críticos das urnas eletrônicas para produzir relatórios que possam ser usados para deslegitimar o sistema de votação.
Entre funcionários do próprio Departamento de Estado, houve críticas à estratégia. “É extremamente nocivo ver este secretário usar o poder americano para minar eleições confiáveis em outras nações por motivos ideológicos”, disse um integrante do órgão, também sob anonimato.
Itamaraty nega vistos aos funcionários
O Ministério das Relações Exteriores negou os pedidos de visto solicitados por Riley M. Barnes e Samuel Samson. A negativa foi formalizada em 24 de julho de 2026, quatro dias após o pedido ser protocolado em 20 de julho.
Os barrados ocupam cargos estratégicos no Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho. Barnes é secretário-assistente e também foi designado como Coordenador Especial para Questões Tibetanas e Embaixador para a Liberdade Religiosa Internacional. Samson é subsecretário-assistente e assumiu o cargo em maio de 2026.
O Itamaraty classificou o pedido como inusitado devido ao timing e afirmou que a decisão se baseou em evidências de uma tentativa renovada de explorar politicamente a situação.
Relatório da Abin aponta risco de interferência
A Agência Brasileira de Inteligência elaborou um relatório que aponta risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. O documento reservado foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça.
Segundo o relatório, a inteligência brasileira classifica a possibilidade de interferência externa com nível de criticidade. O documento contextualiza que a reafirmação da hegemonia dos Estados Unidos na América Latina é prioridade do governo Trump. O objetivo seria afastar rivais, como a China, de ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região.
Contexto de tensão diplomática
A movimentação ocorre em meio a uma escalada de tensões entre Brasil e Estados Unidos. O clima de atrito envolve divergências sobre os limites da liberdade de expressão, tarifas comerciais impostas pelos EUA a produtos brasileiros e o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
No plano doméstico, o tema das urnas voltou ao debate após o senador Flávio Bolsonaro defender a ampliação de observadores internacionais e repetir alegações que associam, sem provas, o sistema brasileiro à empresa Smartmatic. A tese já foi refutada reiteradamente pelo Tribunal Superior Eleitoral.
É importante lembrar que no Brasil já existe um sistema próprio de apuração eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral que é o órgão responsável por garantir a segurança e a auditabilidade das urnas eletrônicas, permite que os cidadãos identifiquem a divulgação de informações falsas sobre o sistema eleitoral e façam denuncias ao TSE por meio do Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral ou pelo aplicativo Pardal. O Ministério Público Eleitoral também recebe denúncias de irregularidades. Informações oficiais sobre o processo eleitoral estão disponíveis também no site do TSE, sem a necessidade de apuração ou validação externa.
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