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Depois de 20 anos, volto à urna apenas como cidadão


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 02/10/2026 - 10:21

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Peço licença para falar um pouco sobre mim e sobre a maneira como enxergo a política e a sociedade. Normalmente, escrevo sobre a política e os políticos, seus movimentos, escolhas, alianças e contradições. Hoje, porém, quero falar sobre minha própria trajetória e sobre aquilo que, depois de tantos anos, ainda me faz acreditar na política.

Esta é a primeira eleição, desde que dei meus primeiros passos na política partidária em Goiás, da qual participo somente como eleitor. Sem coordenar campanha, sem criar movimento político ou social, sem participar de governo, sem disputar espaço e sem ser candidato a nada. Aliás, nunca fui candidato a nada.

Durante mais de duas décadas, vivi intensamente a política. Participei de campanhas municipais, estaduais e nacionais, tive experiências inclusive em Minas Gerais, participei de governos, ajudei a construir projetos e procurei, em cada lugar por onde passei, dar o melhor de mim. Sempre procurei viver essa trajetória com lealdade, honestidade e correção. Fiz companheiros e companheiras em diferentes momentos e preservo essas relações até hoje. Tenho amigos em diferentes campos políticos de Goiás, da direita à esquerda. Aprendi que é possível manter convicções e defender ideias sem transformar quem pensa diferente em inimigo.

Minha entrada na política aconteceu muito cedo, quando tinha pouco mais de 20 anos. Desde criança, acompanhava com curiosidade a vida política brasileira. Gostava de ler, observar os acontecimentos e tentar compreender aquele universo complexo, contraditório e, ao mesmo tempo, tão determinante para a vida das pessoas.

Não vim de uma família tradicional da política. Não tive herança política, estrutura financeira ou grupo de poder por trás de mim. Minha aproximação com a política nasceu de causas e de ideias. Fui influenciado pelo movimento de base da Igreja Católica, pela causa da fraternidade que conheci no movimento kardecista e também pelo movimento estudantil. Foram experiências diferentes, mas que ajudaram a formar em mim a compreensão de que a política poderia ser uma ferramenta de transformação da vida coletiva.

Foi nesse período que ingressei no PSDB, ainda muito jovem. E praticamente ao mesmo tempo comecei a construir minha trajetória no Governo de Goiás. Eu era estudante de Direito e entrei como estagiário, por meio de uma bolsa do IEL Goiás. Não cheguei ao governo pelas portas de um padrinho político. Comecei de baixo, trabalhando, aprendendo e conhecendo a administração pública por dentro. Essa origem é importante para mim: minha trajetória não começou em um gabinete de poder, mas como a de tantos jovens, estudando, trabalhando, aprendendo e tentando conquistar espaço pelo próprio esforço.

No PSDB, vivi uma parte fundamental da minha formação política. Fui secretário e dirigente do Diretório do partido em Goiás, participei da organização de encontros regionais, ajudei a estruturar bases municipais e a construir candidaturas em praticamente todas as regiões do Estado. Também participei da formulação de programas e projetos para o PSDB Nacional, especialmente aqueles voltados à valorização e à inclusão da juventude. Foi nesse período, sempre antes de 2018, que aprendi de maneira ainda mais concreta como funcionavam um partido, uma campanha, uma estrutura política e a construção de propostas.

Ao mesmo tempo, cresci dentro da administração pública. Passei por diferentes áreas até assumir funções de maior responsabilidade, chegando à Gerência de Mobilização Social, à Assessoria Especial do Governador e, posteriormente, à chefia de gabinete da Fapeg.

Ainda no Governo de Goiás, tive oportunidade de contribuir, ao lado de muitas pessoas, para a construção de projetos importantes em Goiás. Entre eles, o Passe Livre Estudantil, o Goiás Sem Fronteiras, a criação do Conselho Estadual da Juventude, a ampliação de bolsas de mestrado e doutorado, o apoio ao ecossistema de startups e a estruturação de Parques Tecnológicos, além da implantação e fortalecimento de laboratórios na EMATER, na UEG e na UFG. Nada disso foi obra de uma só pessoa: foram construções coletivas, fruto do trabalho de equipes, servidores, pesquisadores, estudantes e parceiros que acreditaram que investir em conhecimento, juventude e inovação era também investir no futuro de Goiás.

Minha atuação partidária também ganhou dimensão. Ajudei a estruturar uma das maiores e mais representativas juventudes partidárias que Goiás conheceu. Foi uma época de muita energia, participação e experimentação política. Queríamos que os jovens deixassem de ser apenas espectadores e passassem a participar da construção das decisões. Nos meus 20 e poucos anos, participei de movimentos como o TwittaçoMarconi e o Fala, Juventude, entre outras iniciativas de mobilização e debate. Eram experiências diferentes, mas tinham em comum a tentativa de aproximar a política das pessoas, especialmente dos jovens.

Também vivi intensamente as campanhas eleitorais. Participei de disputas municipais, estaduais e nacionais, atuei em coordenações e tive a oportunidade de conhecer realidades políticas diferentes, inclusive em Minas Gerais. Foram anos de muito trabalho e aprendizado. Conheci pessoas extraordinárias e também as dificuldades, as vaidades, as disputas e as contradições que fazem parte da vida pública.

Naquele período, fui formando convicções que continuam comigo: democracia, liberdade, pluralismo, participação social, respeito às diferenças, instituições fortes, responsabilidade social e formação de novas lideranças. Acredito também que a social-democracia, em sua essência, procura combinar liberdade, desenvolvimento econômico e justiça social.

Então chegou 2018.

O Brasil atravessava uma profunda ruptura política. O impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula, a derrocada eleitoral do PSDB e a ascensão de Jair Bolsonaro mudaram profundamente o ambiente político brasileiro.

Eu também mudei.

Depois daquele ciclo, fui para a roça. Passei a trabalhar como pequeno agricultor e mergulhei de verdade no universo da agricultura familiar. Saí dos gabinetes, dos palácios, das reuniões partidárias e dos corredores do poder. Passei a enxergar a política também a partir de quem planta, produz, trabalha e enfrenta diariamente as dificuldades da vida no campo.

Foi uma mudança de vida, mas não uma desistência da política. Talvez tenha sido apenas uma mudança de perspectiva. Aprendi que é possível se afastar do poder sem se afastar da democracia. É possível deixar os partidos sem deixar de acreditar na política. É possível trocar um gabinete pela roça e continuar entendendo que a política é um dos instrumentos mais poderosos que uma sociedade possui para transformar a vida das pessoas.

Foi justamente essa nova experiência que, alguns anos depois, acabou me levando de volta ao debate institucional por um caminho que eu jamais havia imaginado.

Durante a campanha de 2022, participei da construção e articulação do Agro pela Democracia, movimento que reuniu produtores rurais em defesa da democracia, do diálogo e de uma participação mais plural do campo no debate político. O movimento ganhou repercussão e passou a organizar demandas e propostas relacionadas ao setor, tornando-se também um espaço de diálogo entre produtores e pessoas envolvidas na formulação de políticas públicas.

Foi por esse caminho que cheguei ao Governo de Transição entre os governos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. A experiência acumulada durante mais de duas décadas na política e no serviço público encontrou, naquele momento, a experiência que eu havia adquirido desde 2018 como produtor rural. De um lado, alguém que conhecia as instituições por dentro; de outro, alguém que agora conhecia mais de perto a realidade de quem produz no campo.

Foi uma experiência especialmente significativa porque não voltei à política por uma disputa partidária, por um cargo ou por uma candidatura. Voltei porque a realidade que passei a viver na roça me levou novamente para dentro do debate público.

Depois da transição, minha atuação em defesa da agricultura familiar ganhou uma dimensão mais institucional. Passei a desenvolver e participar de projetos envolvendo municípios, órgãos gestores da agricultura em Goiás, órgãos do Governo Federal, entidades e universidades. Ajudei a formular propostas e procurei aproximar as necessidades de quem vive da agricultura das instituições responsáveis por formular e executar políticas públicas.

A agricultura familiar passou a ocupar um espaço ainda maior na minha vida, não apenas como atividade econômica, mas como uma causa que reúne produção, segurança alimentar, geração de renda, permanência das famílias no campo e desenvolvimento dos municípios. Poderia ter feito mais. Certamente poderia. Mas fico feliz por ter podido colaborar, ainda que modestamente, com um setor que considero estratégico para Goiás e para o Brasil.

Também passei a compreender ainda mais que o campo precisava participar do debate democrático. Agricultura familiar e agronegócio podem ter realidades, interesses e necessidades diferentes, mas não precisam estar separados pelo ódio político. Quem planta, cria, produz e trabalha também tem direito de defender suas ideias, suas instituições e o futuro do país.

Depois disso, voltei para a roça. E segui minha vida.

Naquele momento, senti que havia cumprido meu dever cívico. Foram mais de 20 anos dedicados às causas sociais, à política e à vida pública. Muitas vezes perdi na minha vida privada tentando fazer alguma coisa pelo coletivo: perdi tempo, oportunidades, dinheiro e tranquilidade. Em algumas ocasiões, talvez tenha deixado de estar presente onde deveria. Mas fiz isso porque sempre enxerguei a política como uma missão de vida.

Não digo isso com vaidade. Quem conhece a vida pública sabe que ela cobra um preço. Fiz escolhas acreditando que poderia contribuir de alguma maneira para Goiás e para o Brasil. Talvez tenha errado muitas vezes. Certamente poderia ter feito melhor em algumas delas. Mas nunca deixei de fazer aquilo em que acreditava.

Hoje, pela primeira vez, estou vivendo uma eleição de outro lugar.

Sou apenas eleitor.

Não pertenço mais à classe política tradicional. E isso não significa que tenha apagado a esperança que sempre existiu dentro de mim. Acho, inclusive, que ela continuará existindo enquanto eu viver.

Continuo querendo um Brasil melhor: mais justo, mais democrático, mais desenvolvido, mais educado, mais solidário, menos desigual, mais soberano e capaz de oferecer oportunidades para quem trabalha e quer construir sua própria história.

Mas confesso que existe também uma certa apatia. É a apatia de quem conheceu a política por dentro, viu alianças, rupturas, interesses, vaidades e disputas, mas também conheceu boas pessoas tentando fazer o certo em meio a tudo isso.

Talvez por isso eu tenha decidido, desta vez, simplesmente observar. Quero olhar os candidatos, ouvir o que estão dizendo, conhecer suas propostas, observar suas trajetórias e formar minha própria decisão diante da urna.

Não vou votar em partidos simplesmente porque são partidos. Minha relação com eles mudou. Acho que o sistema partidário brasileiro perdeu parte de sua identidade e de sua capacidade de representar verdadeiramente a sociedade.

Isso não significa que eu considere os partidos desnecessários. Muito pelo contrário. Partidos políticos são fundamentais para a democracia, mas deveriam ser muito mais do que máquinas eleitorais. Deveriam representar a sociedade, organizar ideias, formar líderes, preparar pessoas para a vida pública, produzir propostas e construir projetos de país. Um partido deveria ser uma escola de cidadania e de liderança, com identidade, causa, valores e compromisso com determinados setores da sociedade, e não existir apenas para disputar uma eleição ou acomodar interesses.

Por isso, continuo defendendo uma reforma política que vá muito além da mudança de regras eleitorais. Precisamos discutir novamente qual é o papel dos partidos, dos representantes e das próprias instituições diante da sociedade.

E talvez essa discussão também passe pela renovação. A juventude ficou para trás em muitos espaços da política brasileira, e eu sinto que chegou a hora de apoiar os jovens de hoje, não apenas para renovar pessoas, mas principalmente para renovar ideias.

Tenho orgulho da minha geração e de tantos líderes que ocuparam espaços importantes e fizeram diferença na vida do nosso povo. A nossa geração veio para ficar: não para apagar quem veio antes, mas para dar continuidade a uma história, trazendo novas ideias, novos desafios e novas formas de fazer política. As gerações que nos antecederam têm muito a nos ensinar e podem transmitir valores, experiências e aprendizados, ao mesmo tempo em que abrem caminhos e espaços para que as novas gerações também possam chegar, contribuir e assumir seu papel na construção do futuro.

Eu aposto na rapaziada.

Aposto nos jovens que querem participar, estudar, trabalhar, construir ideias e ocupar espaços sem precisar reproduzir os mesmos vícios de sempre. Não é necessário destruir uma geração para construir outra. É possível fazer essa transição com respeito, experiência e renovação.

Talvez seja esse um dos maiores desafios da política brasileira.

Também continuo fazendo política de outra maneira. Escrevo para jornais desde muito jovem e, nos últimos anos, intensifiquei minha participação pública por meio de artigos, debates em rádio e televisão e análises sobre a política, a agricultura e os caminhos de Goiás e do Brasil. É a forma que encontrei para continuar participando do debate público e transmitindo os valores em que acredito.

Não tenho mandato. Não tenho estrutura política. Não tenho grupo econômico. Não tenho uma máquina partidária. Tenho uma opinião, uma caneta, um espaço para escrever e vontade de participar. Não é muito. Mas é o que tenho. E talvez seja suficiente para continuar tentando.

Não é difícil entender o desânimo de muita gente. O brasileiro trabalha, acorda cedo, enfrenta dificuldades, paga impostos, cria os filhos, empreende, produz, perde emprego, encontra outro, recomeça e segue em frente. É um povo trabalhador, criativo, resiliente, solidário e que, apesar de tudo, não desiste.

Eu tenho muito orgulho do nosso povo. Tenho orgulho do Brasil.

Mas também entendo o desencanto. O brasileiro olha para a política e vê escândalos, denúncias, investigações, disputas pelo poder e uma distância enorme entre o discurso de muitos políticos e a vida real das pessoas. Os episódios recentes envolvendo descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS, as discussões sobre transparência e controle das emendas parlamentares, as investigações envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro e os conflitos públicos entre ministros do Supremo, muitas vezes interpretados no debate político como parte de uma guerra político-eleitoral, ajudam a alimentar essa desconfiança. Não cabe a mim condenar ninguém antes que os fatos sejam devidamente apurados. Mas cabe a mim reconhecer que a confiança da sociedade na política está machucada. E isso deveria preocupar todos nós.
Lamento o grau de degradação do debate público brasileiro. Lamento a falta de propostas, os ataques grosseiros, as mentiras, as acusações irresponsáveis e essa necessidade permanente de transformar o adversário em inimigo.

Mas ainda tenho fé.

Tenho fé porque não consigo imaginar outro caminho melhor do que a democracia. É por isso que continuo defendendo algumas agendas que considero fundamentais: reforma política, educação inclusiva e de qualidade, ciência, tecnologia e inovação, agricultura familiar, reforma agrária, redução das desigualdades sociais, educação política e cívica, fortalecimento das instituições e uma política feita com verdade.

Quero uma política sem mentira como método. Sem manipulação como estratégia. Sem o interesse pessoal ou de grupos acima do interesse público. Quero uma política que volte a ser missão de vida.

É a partir disso que vou votar. Vou votar em projetos e candidatos que, na minha avaliação, melhor representem o pensamento político e filosófico que fui construindo ao longo da vida. Não porque alguém mandou, não porque pertenço a um grupo e nem porque tenho alguma obrigação com uma legenda.

Vou votar porque ainda acredito.

Acredito em Goiás. Acredito no Brasil. Acredito no nosso povo. E acredito que a política pode, sim, melhorar a vida das pessoas.

Depois de tantos anos, talvez esta seja a primeira vez que vou para uma eleição sem precisar defender ninguém além da minha própria consciência. Não sou candidato. Não coordeno campanha. Não represento partido.

Sou apenas Rodrigo.

Um cidadão goiano, brasileiro e agricultor que passou mais de duas décadas olhando a política de dentro, conheceu seus encantos e seus desencantos e agora tem a oportunidade de olhar para tudo isso de outro lugar: o lugar do cidadão.

Talvez seja justamente por isso que consiga enxergar a política hoje com um pouco mais de distância, mas sem perder a esperança que me trouxe até aqui.

Como diria Raul Seixas, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. E talvez essa frase ajude a explicar muito do que aconteceu comigo. Depois de tantos anos, fico me perguntando: fui eu que mudei ou foi a própria dinâmica da política que mudou? Talvez tenham acontecido as duas coisas. Eu mudei porque a vida, as experiências e os caminhos que percorri me transformaram. Mas também sinto que o ambiente político mudou, e nem sempre para melhor. O debate político ficou mais pobre, mais concentrado em interesses pessoais, disputas de poder e conveniências, e menos voltado para aquilo que deveria estar no centro de tudo: as pessoas.

Talvez seja por isso que hoje eu consiga olhar para a política com menos certezas e, ao mesmo tempo, com mais humanidade. Não quero ter uma velha opinião formada sobre tudo. Quero continuar aprendendo, ouvindo, mudando quando for necessário e preservando aquilo que considero essencial: a democracia, a liberdade, o respeito às diferenças e a ideia de que a política deve existir para servir às pessoas.

Por isso, desejo sorte aos candidatos. Espero que tenham ética, honestidade, capacidade e compromisso verdadeiro com o povo. Espero que entendam que um mandato não pertence ao político. O mandato pertence, ainda que temporariamente, à sociedade que o concedeu.

Esta eleição vai definir os rumos diretos do Brasil para os próximos anos. Mas não é apenas sobre os próximos anos. As decisões tomadas agora terão consequências reais sobre as próximas gerações.

Talvez essa seja a maior responsabilidade que todos nós temos diante da urna.

Eu, desta vez, quero apenas fazer a minha parte.

Votar.

Com consciência, com esperança, com patriotismo e com amor por Goiás e pelo Brasil.

E, depois de tudo que vivi, continuo acreditando naquilo que me fez entrar na política ainda tão jovem: a esperança de que a política pode ser uma das mais poderosas formas de servir às pessoas e construir um país melhor.

Essa esperança, apesar de tudo, eu ainda não perdi.

 

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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