A política brasileira descobriu uma nova forma de fabricar lideranças: a viralização. Jovens transformam popularidade digital em capital eleitoral e chegam ao Congresso Nacional. Mas estamos renovando a política ou convertendo o Parlamento em palco de entretenimento?
É preciso evitar generalizações. Existem influenciadores preparados e comprometidos com a democracia. O problema está em confundir audiência com conhecimento, polêmica com debate e engajamento com competência política.
Orçamento público, reforma tributária, saúde, educação, segurança e desenvolvimento exigem estudo. Já as guerras culturais, as provocações religiosas e os confrontos ideológicos cabem facilmente em vídeos curtos, despertam emoções e alimentam algoritmos.
Essas discussões podem abordar questões legítimas, mas se tornam um problema quando substituem o debate sobre a vida real. Enquanto as redes discutem quem representa melhor determinados valores, milhões de brasileiros continuam enfrentando dificuldades para acessar serviços públicos e oportunidades.
O problema não é a política entrar nas redes sociais. É a política deixar de existir para além delas.
Há, porém, uma questão ainda mais intrigante: será que essa batalha permanente entre TikTokers da direita e da esquerda é tão espontânea quanto parece? Não afirmo que exista combinação entre os lados, mas é legítimo questionar se adversários nas telas não acabam sendo parceiros involuntários — ou até convenientes — na disputa por audiência, seguidores, monetização e influência.
A política, como tantas vezes advertiu a velha escola de Brasília, não é para amadores. A Ulisses Guimarães é atribuída uma reflexão segundo a qual até as brigas políticas podem ser combinadas. Independentemente da formulação exata, a lição permanece atual: nem todo confronto público significa antagonismo real, e nem toda encenação revela o que acontece nos bastidores.
Afinal, se a polêmica rende visualizações, fortalece personagens e mantém seguidores mobilizados, quem teria interesse em encerrar o espetáculo? A rivalidade pode ser real, mas seus benefícios também podem ser compartilhados. Enquanto um lado ataca, o outro responde; ambos ganham alcance, e o debate público perde profundidade.
Uma vez eleitos, alguns influenciadores parecem continuar em campanha permanente. O plenário vira cenário, o adversário se transforma em personagem e o mandato produz cortes e provocações para alimentar as redes. Mas quanto desse espetáculo se converte em fiscalização, propostas consistentes e resultados para a população?
A produtividade parlamentar não se mede apenas pela quantidade de projetos apresentados, mas pela qualidade das iniciativas, pela fiscalização do Executivo e pelos resultados alcançados. Seguidores não substituem essas responsabilidades.
Enquanto isso, os operadores tradicionais do sistema conhecem os caminhos de Brasília. Negociam espaços, constroem maiorias e disputam recursos públicos. Com o Congresso exercendo influência decisiva sobre o orçamento, transparência, critérios de distribuição e efetividade dos gastos precisam estar no centro do debate.
É como deixar a raposa tomando conta do galinheiro.
Jovens que chegam ao poder sem experiência institucional ou autonomia crítica podem se tornar vulneráveis aos interesses de quem domina as engrenagens da República. Alguns prometem combater o sistema, mas correm o risco de ser absorvidos por ele. A revolução das telas pode terminar em acomodação nos corredores do poder.
Os partidos também têm responsabilidade. Em vez de priorizar apenas chapas competitivas e candidatos capazes de atrair votos, deveriam investir na formação política, no debate programático e na preparação de lideranças. A renovação sem qualidade não representa necessariamente avanço.
E o povo? Corre o risco de receber mais distração do que representação, enquanto decisões sobre orçamento e prioridades nacionais seguem seu curso. O cidadão acompanha a próxima polêmica, mas nem sempre percebe quem decide a aplicação dos recursos públicos.
A democracia não precisa escolher entre a experiência dos antigos e a energia dos novos. Precisa exigir responsabilidade de ambos. Um mandato não é propriedade de quem o conquistou: é um compromisso com o eleitor e a República.
Precisamos de uma reforma política que fortaleça os partidos, amplie a transparência e aproxime os mandatos das necessidades da população. Essa agenda não pode ser substituída por guerras culturais intermináveis, provocações digitais ou dancinhas de TikTok.
Enquanto os TikTokers disputam a atenção dos seguidores, os operadores do sistema disputam o poder e o orçamento. E fica a pergunta: quem está ganhando com esse espetáculo — e quem está pagando a conta?
Triste para o Brasil.














