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Entre o passado e o futuro: o que está realmente em jogo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro

Caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, o desafio será demonstrar que o bolsonarismo é capaz de governar dentro das regras democráticas, respeitando a Constituição, o resultado das urnas, a independência entre os Poderes e as instituições da República


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 08/10/2026 - 10:13

Flávio lidera parcial na votação no exterior com 33.716 votos; Lula soma 15.516

A campanha presidencial de 2026 chegou ao segundo turno marcada, de maneira geral, por uma certa apatia. Faltaram debates capazes de confrontar projetos de país, faltaram discussões mais profundas sobre propostas e, em muitos momentos, faltou mobilização política. A eleição pareceu acontecer mais nos algoritmos das redes sociais do que nas ruas, nas praças, nos sindicatos, nas universidades, nas comunidades e nos grandes debates nacionais.

E talvez esse seja um dos fenômenos mais importantes desta eleição.

As redes sociais deixaram definitivamente de ser apenas instrumentos de comunicação política para se transformarem em espaços de construção de lideranças. Jovens de direita e de esquerda compreenderam melhor a linguagem desses ambientes, produziram conteúdo, criaram comunidades e, em alguns casos, chegaram às urnas com votações surpreendentes. Uma nova geração ocupou espaços relevantes no debate público brasileiro e demonstrou que a política tradicional já não possui o monopólio da comunicação com o eleitor.

É nesse ambiente que chegamos ao segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

O resultado do primeiro turno foi, sob vários aspectos, inesperado para o campo petista. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença não foi apenas numérica: ela produziu um efeito político importante e obrigou o PT a fazer uma autocrítica sobre sua própria campanha.

O próprio Lula classificou sua campanha como a menos organizada desde 1989. Entre as críticas internas apareceram problemas de comunicação, logística, pouca presença digital e a necessidade de ampliar o protagonismo de lideranças como Geraldo Alckmin e Camilo Santana. Também houve questionamentos sobre a influência da primeira-dama Janja na comunicação e sobre o distanciamento entre a campanha presidencial e setores importantes do campo progressista.

Há, portanto, algo novo no PT: uma autocrítica mais explícita diante de um resultado eleitoral que não correspondia às expectativas construídas durante a campanha.

O partido agora tenta recuperar aquilo que foi fundamental para a vitória de Lula em 2022: uma frente política mais ampla, maior capacidade de diálogo e uma comunicação capaz de ultrapassar os limites de sua militância tradicional. O desafio é enorme porque, desta vez, o adversário chega ao segundo turno não apenas com uma candidatura, mas com uma estrutura partidária ampliada.

Do outro lado está Flávio Bolsonaro, a quem Jair Bolsonaro conferiu a missão de representar eleitoralmente a continuidade do projeto político bolsonarista.

Na minha percepção, um dos grandes trunfos do PL nesta eleição foi ter conseguido construir uma nova geração de lideranças que domina a linguagem das redes sociais. Jovens políticos de direita transformaram audiência digital em votos e ajudaram a ampliar a presença do bolsonarismo no Congresso Nacional e nos estados.

Flávio, durante boa parte da campanha, procurou apresentar uma imagem menos confrontacional que a de seu pai. Essa tentativa de moderação faz parte da estratégia política da candidatura, embora permaneça em aberto até que ponto ela representa uma mudança efetiva em relação ao bolsonarismo construído por Jair Bolsonaro.

O dado objetivo, entretanto, é incontestável: o PL cresceu no Congresso. Na Câmara dos Deputados, o partido passou de 97 eleitos em 2022 para 121 em 2026, enquanto a federação formada por PT, PCdoB e PV passou de 82 para 88 deputados.

Isso significa que qualquer que seja o resultado presidencial, o próximo governo encontrará um Congresso profundamente influenciado pela agenda da direita e, especialmente, pelo crescimento do PL.

É uma transformação política que não pode ser ignorada.

O PT, por sua vez, preservou uma parcela importante de sua representação, mas não conseguiu, nesta eleição, produzir uma expansão equivalente de suas bases parlamentares e territoriais. O problema não é apenas eleitoral. É estratégico. Um partido que pretende continuar sendo protagonista nacional precisa constantemente renovar suas lideranças, interiorizar sua presença, dialogar com novas gerações e ocupar espaços para além de suas bases históricas.

Esse talvez seja um dos maiores desafios do PT para os próximos anos: promover uma renovação política real.

Nenhum partido pode depender indefinidamente das mesmas lideranças, das mesmas estruturas e das mesmas formas de comunicação. A alternância de poder, aliás, não é uma ameaça à democracia. É um de seus princípios fundamentais. Democracia pressupõe a possibilidade de que diferentes forças políticas disputem, vençam, percam, retornem e sejam novamente submetidas à avaliação popular.

E esse princípio também precisa ser observado pelo bolsonarismo.

Caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, o desafio será demonstrar que o bolsonarismo é capaz de governar dentro das regras democráticas, respeitando a Constituição, o resultado das urnas, a independência entre os Poderes e as instituições da República.

Essa preocupação não nasce do vazio. Há decisões judiciais e investigações que apontaram para uma tentativa de ruptura institucional relacionada ao processo posterior às eleições de 2022. Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em 2025, por tentativa de golpe de Estado, juntamente com integrantes do chamado Núcleo 1 da ação penal. A própria investigação da Polícia Federal descreveu uma estrutura destinada a questionar o resultado eleitoral e criar condições para uma intervenção.

Por isso, uma eventual vitória eleitoral do bolsonarismo não poderia significar autorização para qualquer ruptura com a ordem constitucional. Vencer uma eleição significa receber um mandato para governar; não significa receber autorização para alterar as regras democráticas por vontade própria.

Da mesma forma, é preciso olhar para o outro lado.

O PT também terá de compreender que a democracia não pertence a um partido, a uma geração ou a um grupo político. O poder precisa ser permanentemente renovado. O lulismo foi capaz de atravessar décadas, mas a política brasileira está produzindo novas gerações que querem ocupar espaço e formular seus próprios projetos.

É justamente nesse ponto que a reforma política deveria entrar definitivamente no debate do segundo turno.

Os dois candidatos já falaram, em diferentes momentos, sobre mudanças institucionais e constitucionais. Lula incluiu a reforma política entre as prioridades de seu programa de governo, enquanto Flávio Bolsonaro passou a defender alterações constitucionais em temas como regras para o Judiciário, reeleição e maioridade penal.

Mas ainda é pouco.

O Brasil precisa discutir de maneira mais profunda como seus partidos são organizados, como as campanhas são financiadas, como se constrói a representação política, como se renovam as lideranças, como funcionam as instituições e quais mecanismos podem aproximar novamente eleitor e eleito.

Essa agenda não pode aparecer apenas como uma promessa genérica de campanha. Ela precisa ser debatida.

Outro capítulo importante desta eleição é o papel do Supremo Tribunal Federal.

Durante boa parte do primeiro turno, o STF esteve no centro do debate político nacional. Agora, diante da aproximação entre setores do bolsonarismo e instituições que anteriormente estiveram em forte confronto com esse campo político, começam a aparecer sinais de uma nova fase de interlocução.

É possível interpretar esse movimento como uma tentativa de pacificação institucional. Também é possível enxergá-lo como parte da dinâmica política de acomodação entre os Poderes. O que não deveria acontecer é que decisões de uma Corte Constitucional fossem percebidas como resultado de cálculos de sobrevivência política de seus integrantes.

Em uma democracia madura, o Supremo deve ser respeitado justamente porque suas decisões precisam estar acima das circunstâncias eleitorais.

O segundo turno começa, ainda, com uma movimentação política importante em torno de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado e Romeu Zema já declararam apoio ao candidato do PL, enquanto União Brasil e Progressistas formalizaram apoio à candidatura, e o Novo também anunciou adesão.

Isso demonstra a capacidade de articulação do campo político que chega ao segundo turno ao lado de Flávio.

O PT, por sua vez, tenta reconstruir alianças, recuperar setores do centro político e mobilizar sua militância histórica. A disputa tende, portanto, a se intensificar nos próximos dias.

A apatia observada no primeiro turno pode dar lugar a uma participação mais intensa do eleitor. A abstenção foi significativa: 21,08% do eleitorado nacional deixou de comparecer às urnas, segundo dados analisados após a votação.

A pergunta agora é outra: quanto dessa energia eleitoral será recuperada no segundo turno?

Não sabemos.

E talvez seja justamente essa incerteza que faça desta eleição uma das mais importantes da nossa história recente.

Na minha modesta percepção, 2026 já deixou uma marca política que não pode ser ignorada. De um lado, temos um PT que carrega décadas de história, experiência de governo e uma liderança ainda centralizada em Lula, mas que enfrenta o desafio de renovar suas estruturas, suas linguagens e suas lideranças.

Do outro, temos Flávio Bolsonaro, uma liderança mais jovem, mas herdeira de um movimento político que carrega consigo uma forte identidade construída por Jair Bolsonaro e que agora terá de responder a uma questão essencial: é possível transformar o bolsonarismo eleitoral em um projeto de governo plenamente submetido às regras democráticas?

Essa talvez seja a grande questão deste segundo turno.

Porque o Brasil não precisa escolher apenas entre duas candidaturas.

Precisa discutir que democracia pretende construir para as próximas décadas.

A democracia brasileira não pode ser propriedade nem do PT, nem do bolsonarismo. Não pode depender de Lula, de Bolsonaro, de Flávio ou de qualquer outra liderança individual.

Partidos passam. Líderes passam. Governos passam.

As instituições precisam permanecer.

Por isso, talvez esta eleição seja muito maior do que uma simples disputa pelo Palácio do Planalto.

No fundo, o que está em jogo é a capacidade do Brasil de renovar sua política sem destruir sua democracia; de alternar o poder sem romper suas instituições; de produzir novas lideranças sem abandonar sua história; e de fazer da política novamente um espaço de diálogo, disputa de ideias e construção de futuro.

O segundo turno ainda não nos dará todas essas respostas.

Mas certamente nos obrigará a fazer essas perguntas.

E talvez essa seja a principal razão pela qual esta eleição não terminará no dia 25 de outubro.

Ela apenas começará ali.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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