Skip to content

O retorno do 01: O Brasil não pode dar marcha à ré na civilidade pública


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 19/10/2026 - 10:50

TSE restabelece filiação de Flávio Bolsonaro ao PL após fraude; caso vai à PF
Flávio Bolsonaro, candidato do PL à presidência do Brasil.

Há momentos na vida pública em que precisamos deixar de lado as conveniências políticas e olhar para a história com um pouco mais de honestidade. Escrevo este artigo a partir de uma posição que talvez incomode amigos dos dois lados do espectro político. Foram cerca de duas décadas de dedicação à política, tendo a social-democracia como campo de formação e atuação. Fui presidente da Juventude do PSDB em Goiás, membro da Executiva Estadual do partido e participei de diferentes momentos da construção política do PSDB goiano. Foi nesse ambiente que aprendi que democracia não é apenas ganhar eleição. É também respeitar instituições, aceitar resultados, conviver com quem pensa diferente, construir consensos e compreender que o Estado pertence à sociedade, e não a um partido.

Também foi nesse caminho que cheguei ao Governo de Goiás. Entrei no Estado ainda como estudante de Direito, como estagiário, sem padrinhos políticos. Fui trabalhando, aprendendo e, pouco a pouco, conquistando espaços até chegar à Gerência de Mobilização Social da Secretaria de Articulação Institucional. Depois, fui Assessor Especial do Governador e Chefe de Gabinete da FAPEG. Não faço disso uma narrativa de heroísmo. Longe disso. Fui colaborador de equipes, governos e projetos dos quais participaram muitas pessoas. Mas tive a oportunidade de contribuir, dentro das minhas possibilidades, para iniciativas que considero importantes, como o Passe Livre Estudantil, a recriação do Conselho Estadual da Juventude, o Goiás Sem Fronteiras, políticas de apoio e subvenção econômica para startups, parques tecnológicos, incubadoras e aceleradoras de empresas, além do fortalecimento de programas de mestrado e doutorado. Foi uma escola política e administrativa que me ensinou, acima de tudo, que a política pública precisa produzir resultado concreto na vida das pessoas.

Talvez justamente por ter vindo dessa escola eu tenha dificuldade de aceitar a transformação da política brasileira em uma guerra permanente. O Brasil atravessou, nos últimos anos, uma verdadeira hecatombe política e democrática. Não acredito que exista um único responsável por tudo o que aconteceu. A história é mais complexa do que isso. Mas é impossível negar que a crise iniciada com o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, produziu consequências profundas sobre a vida política, econômica e institucional brasileira. Depois, a prisão de Lula aprofundou ainda mais a ruptura política e social. Também é preciso fazer uma autocrítica à esquerda. A intransigência do PT em abrir espaços para uma frente ampla em 2018, que poderia ter sido liderada por Ciro Gomes, somada à completa falta de orientação política do PSDB naquele momento, ajudou a abrir um espaço enorme para o crescimento eleitoral de Jair Bolsonaro. Não podemos colocar toda a responsabilidade nas costas do PT ou do PSDB. Bolsonaro também chegou à Presidência impulsionado por uma campanha marcada por fake news, manipulações, ausência de debates mais profundos sobre propostas e uma narrativa eleitoral que encontrou no episódio da facada um poderoso elemento de mobilização emocional. O resultado foi a eleição de Jair Bolsonaro.

E o que veio depois deveria servir como lição. Foram quatro anos de tensão permanente, uma pandemia que deixou centenas de milhares de brasileiros mortos, ataques recorrentes às universidades, à ciência e às instituições de pesquisa, confrontos permanentes com o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, a imprensa e diferentes instituições da República. Houve também, na minha avaliação, um processo preocupante de desconstrução cultural do próprio Brasil, como se tudo aquilo que representasse pluralidade, conhecimento, diversidade e pensamento crítico precisasse ser tratado como inimigo. Na política ambiental, o país enfrentou enorme desgaste internacional. Na política externa, adotou-se uma postura de alinhamento excessivo com determinados setores da extrema direita internacional, especialmente nos Estados Unidos. Foi um governo que produziu muita tensão e, na minha avaliação, entregou menos resultados do que poderia ter entregue.

Em 2022, a vitória de Lula exigiu uma frente ampla e democrática. E Geraldo Alckmin foi talvez o símbolo mais evidente de que aquela eleição não poderia ser tratada simplesmente como uma disputa entre PT e Bolsonaro. O antigo adversário de Lula tornou-se seu vice-presidente e ajudou a representar uma construção política que precisava reunir diferentes setores da sociedade em torno da defesa da democracia. Tenho críticas ao PT, muitas. A frente ampla, que foi fundamental durante a eleição, acabou sendo muito mais limitada dentro do governo do que eu esperava. O PT continuou ocupando os principais espaços do debate nacional e, em vários momentos, pareceu voltar à lógica tradicional de seu campo político. Mas isso não apaga alguns méritos importantes do atual governo. Lula ajudou a restabelecer relações republicanas internas, reduziu a tensão permanente entre Poderes e reposicionou o Brasil no cenário internacional. Também retomou políticas sociais e tentou corrigir distorções deixadas pelo governo anterior. É preciso reconhecer essas coisas sem transformar reconhecimento em adesão incondicional.

É justamente por isso que o resultado do primeiro turno de 2026 acendeu um enorme sinal de alerta. Flávio Bolsonaro, o 01 da família Bolsonaro, terminou o primeiro turno à frente de Lula e colocou novamente no centro do debate nacional a possibilidade de retorno do bolsonarismo ao comando do Governo Federal. E aqui está o ponto central deste artigo: uma eventual volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto não seria apenas uma mudança de presidente. Seria a possibilidade concreta de retorno de um projeto político que, na minha leitura, tensionou profundamente as instituições brasileiras. E isso precisa ser discutido sem ódio e sem caricaturas. Também não podemos ignorar o que aconteceu fora do Brasil. Eduardo Bolsonaro atuou politicamente nos Estados Unidos durante o período de maior tensão entre o governo brasileiro e o governo Donald Trump. O debate político recente colocou no centro da discussão o tarifaço americano, as relações entre Brasil e Estados Unidos e até a questão estratégica das terras raras brasileiras. Isso deveria preocupar qualquer brasileiro que tenha alguma preocupação com soberania nacional. Não porque devemos ser contra os Estados Unidos, muito pelo contrário. O Brasil deve ter boas relações com os Estados Unidos, com a China, com a Europa, com nossos vizinhos sul-americanos e com o mundo inteiro. Mas uma coisa é ter relações internacionais fortes; outra é subordinar os interesses estratégicos do Brasil a uma determinada orientação política internacional.

Terras raras não são apenas minério. São soberania. Ciência não é apenas universidade. É soberania. Tecnologia não é apenas inovação. É soberania. Amazônia, energia, alimentos, água, biodiversidade, indústria e agricultura também são soberania. O Brasil precisa de uma política externa que compreenda isso. Não podemos transformar o país em satélite de Washington, de Pequim, de Moscou ou de qualquer outro centro de poder. O Brasil precisa ser Brasil. É também por isso que uma eventual eleição de um Bolsonaro para novamente comandar o Governo Federal representaria, na minha visão, um enorme retrocesso para a ciência, para a cultura, para os direitos das minorias, para a democracia e para a soberania nacional, além de representar um risco para a própria economia brasileira, que depende de relações comerciais amplas, previsibilidade, multilateralismo e capacidade de conversar com diferentes mercados. Uma política de alinhamento irrestrito com Trump e com a extrema direita internacional não necessariamente protege os interesses econômicos brasileiros. Pode fazer exatamente o contrário.

Tenho críticas ao PT porque acredito que o PT precisa se renovar. O Brasil não toca uma nota só. O país é muito maior do que o PT, muito maior do que o PSDB, muito maior do que o PL, muito maior do que Lula ou Bolsonaro. Mas existe uma realidade que não podemos ignorar: até aqui, foi o PT quem conseguiu reunir força social e eleitoral suficiente para enfrentar o bolsonarismo. Outros campos políticos não conseguiram. E isso também precisa ser reconhecido. Lula caminha para seu último mandato. Depois dele, o campo progressista, juntamente com o centro democrático, terá necessariamente que oxigenar suas forças, formar novas lideranças e apresentar novas ideias para as próximas gerações. Não podemos viver eternamente de Lula contra Bolsonaro. O Brasil precisa superar essa etapa. Flávio Bolsonaro é jovem na idade, mas representa, politicamente, a continuidade de um projeto que nasceu com Jair Bolsonaro e que ainda carrega consigo muitas das distorções introduzidas pelo bolsonarismo na política brasileira. Uma eventual eleição de Flávio significaria, na minha leitura, muito mais do que a eleição de um novo presidente. Seria a legitimação eleitoral para que aquele projeto político pudesse retornar ao centro do poder.

Faço, entretanto, uma distinção que considero fundamental. Não considero que todo eleitor de direita seja bolsonarista. Muito menos considero que o bolsonarismo represente todos os sentimentos legítimos da direita democrática brasileira. Para mim, são coisas diferentes. Conheço gente de direita democrática. Tenho amigos de direita. Convivo com pessoas que pensam completamente diferente de mim. E isso é normal. A democracia foi feita para isso. O problema começa quando a política deixa de ser uma disputa entre projetos e passa a ser uma guerra contra o outro. É aí que a civilidade pública começa a desaparecer. E é exatamente por isso que acredito que o voto em Lula, neste segundo turno, é necessário. Não é um cheque em branco para o PT. Não é uma autorização para fazer qualquer coisa. Não é uma renúncia às minhas críticas. É uma escolha pela manutenção da democracia, pela soberania nacional, pela justiça social e pela reconstrução das relações republicanas. Ao mesmo tempo, é uma cobrança: o próximo governo Lula precisa fazer reformas profundas, consolidar a democracia, reconstruir pontes e renovar o campo democrático brasileiro. Precisa compreender que a frente democrática não pode existir apenas quando há eleição. Ela precisa existir também para governar.

Eu digo isso sem ódio, sem ataques e respeitando quem pensa diferente. Somos todos brasileiros. E este cidadão que escreve aqui é apenas um cara comum, da roça, que ama este país, que não está preso a nenhuma bolha política e que tem amigos nos dois campos. Tenho amigos na direita. Tenho amigos na esquerda. Tenho críticas aos dois lados. E, justamente por isso, faço uma escolha consciente. Voto em Lula. Voto em Lula e Alckmin porque acredito que, neste momento, eles representam uma possibilidade maior de pacificação nacional, de respeito às instituições e de reconstrução da democracia brasileira. E espero deles uma postura de estadistas, uma postura que ultrapasse a próxima eleição e ajude o Brasil a sair dessa guerra permanente. Porque o país está cansado. E eu também estou. Não quero mais viver em um Brasil onde cada eleição parece uma batalha final entre o bem e o mal. Quero voltar a discutir escola, saúde, segurança, emprego, agricultura, tecnologia, ciência, desenvolvimento, equilíbrio fiscal, oportunidades e futuro. Quero voltar a discutir política. Não guerra política.

Talvez seja exatamente por isso que, para mim, o retorno do 01 ao Palácio do Planalto seria uma marcha à ré na civilidade pública brasileira. Não porque Flávio Bolsonaro seja simplesmente mais um adversário político, mas porque acredito que o Brasil já experimentou esse caminho e não precisa experimentar novamente para saber onde ele pode nos levar. O Brasil precisa andar para frente. Com democracia, soberania, justiça social, responsabilidade e respeito. Porque antes de sermos petistas, tucanos, bolsonaristas, progressistas, conservadores ou qualquer outra coisa, somos brasileiros. E este país precisa voltar a ser maior do que as suas bolhas políticas.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

Pesquisa
Eleições 2026
Resultados oficiais a partir das 17h de Brasília1º turno · resultados oficiais a partir das 17h
00dias 00horas 00min 00seg
Presidente
Aguardando dados…
Governador
Aguardando dados…
Senador
Aguardando dados…
Acompanhar apuração completa