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Quando a família vem antes do Brasil: Flávio Bolsonaro apenas repete o roteiro


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 28/10/2026 - 14:35

A pergunta mais importante é: por que esse parece ser sempre o caminho escolhido quando a família Bolsonaro enfrenta uma derrota política ou uma pressão institucional? Jair Bolsonaro fez. Eduardo Bolsonaro fez. Agora Flávio faz.

Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil. E daí?

A pergunta pode parecer provocativa, mas é necessária. Porque a saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, depois da derrota eleitoral e em meio a uma determinação judicial para que entregasse seus passaportes, não deveria ser analisada apenas como mais um episódio da tumultuada trajetória política da família Bolsonaro. Ela precisa ser compreendida dentro de um roteiro que já conhecemos. Flávio não inventou esse roteiro. Apenas o está repetindo.

O bolsonarismo construiu, ao longo dos últimos anos, uma relação profundamente contraditória com a democracia brasileira. Ao mesmo tempo em que seus principais representantes disputam eleições, ocupam mandatos, utilizam as instituições e chegam ao poder pelo voto, frequentemente atacam as próprias instituições que garantem a existência desses mandatos. É uma contradição que não pode ser ignorada. A família Bolsonaro chegou ao Parlamento brasileiro, elegeu vereadores, deputados, senadores e presidente da República justamente porque existe democracia no Brasil. Em uma ditadura, não haveria urna livre, oposição organizada, imprensa independente, Supremo Tribunal Federal funcionando e muito menos uma família inteira disputando sucessivas eleições para ocupar as Casas legislativas.

Essa é uma constatação elementar. E talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores problemas do bolsonarismo: a democracia parece ser aceita quando produz o resultado desejado. Quando o resultado é desfavorável, passam a existir suspeitas sobre as urnas, sobre a Justiça, sobre o Parlamento, sobre a imprensa e sobre as próprias regras do jogo. Não é uma defesa da democracia. É uma democracia condicionada ao próprio interesse. E há algo ainda mais grave: a impressão que fica é de que, em momentos decisivos, os interesses da família acabam colocados acima dos interesses nacionais.

Vimos isso no episódio do 8 de Janeiro. Pessoas foram presas, condenadas e receberam penas severas por sua participação nos atos antidemocráticos. Agora, discute-se a dosimetria das penas e eventuais mecanismos de redução para determinados condenados. Tenho uma impressão incômoda: muitos daqueles que foram às ruas acreditando estar defendendo um projeto político acabaram pagando um preço enorme, enquanto aqueles que efetivamente ocupavam o centro da estrutura política desse movimento passaram a buscar alternativas para si mesmos. Não afirmo que cada preso tenha sido simplesmente abandonado por uma decisão jurídica específica. Mas é impossível não fazer a pergunta política: quantos daqueles seguidores acreditaram que estavam lutando por um líder que, no momento decisivo, não conseguiu — ou não quis — assumir integralmente a responsabilidade política pelo que aconteceu? Essa é uma reflexão que a própria direita democrática deveria fazer. Líder não pode ser aquele que convoca, mobiliza, inflama e, quando a pressão chega, procura uma saída individual. Isso não é liderança. É justamente o contrário.

Jair Bolsonaro fez algo semelhante depois da derrota eleitoral de 2022. Não reconheceu imediatamente a vitória de Lula, deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos antes da posse do adversário. Depois retornou ao país e passou a responder às investigações e aos processos que culminaram em sua condenação. E o episódio do julgamento da tentativa de golpe de Estado expôs, a meu ver, uma situação politicamente constrangedora. Quem se apresentou durante anos como um homem de coragem, disposto a enfrentar qualquer adversário, terminou diante da Justiça em uma posição muito diferente daquela imagem de força que cultivou perante seus seguidores. Não faço essa observação por satisfação pessoal. Faço porque existe uma diferença enorme entre liderar um movimento político e abandonar seus seguidores diante das consequências das próprias ações.

Depois veio Eduardo Bolsonaro. Desde 2025 nos Estados Unidos, Eduardo passou a atuar politicamente junto ao governo Trump e buscou apoio internacional para pressionar as instituições brasileiras e interferir no processo envolvendo seu pai. Essa atuação chegou a produzir medidas norte-americanas contra o Brasil, inclusive tarifas e sanções, em uma estratégia que fracassou em alcançar seus principais objetivos. Mais grave ainda foi a disposição demonstrada por Eduardo de admitir, em diferentes momentos, a possibilidade de uma pressão externa contra o próprio Brasil. Isso, para mim, ultrapassa a disputa política. Quando um brasileiro passa a apostar em pressão estrangeira contra seu próprio país para tentar resolver uma disputa política interna, alguma coisa saiu profundamente errada. O interesse nacional deveria estar acima do interesse partidário, acima do interesse eleitoral e, sobretudo, acima do interesse de uma família.

Agora Flávio Bolsonaro repete o roteiro. Derrotado nas eleições presidenciais de 2026, deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos. A saída ocorreu depois de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes para que entregasse seus passaportes e não deixasse o país. Segundo informações divulgadas pela Reuters e por outros veículos, o governo norte-americano autorizou sua entrada. Não se trata, portanto, apenas de perguntar se Flávio fugiu ou viajou. A pergunta mais importante é: por que esse parece ser sempre o caminho escolhido quando a família Bolsonaro enfrenta uma derrota política ou uma pressão institucional? Jair Bolsonaro fez. Eduardo Bolsonaro fez. Agora Flávio faz.

E não deixa de ser simbólico que uma família tão numerosa politicamente — com filhos e outros parentes ocupando ou tendo ocupado sucessivos mandatos — dependa agora de proteção política fora do Brasil. Aliás, existe uma ironia histórica que precisa ser lembrada: a mesma família que frequentemente questiona a democracia brasileira só conseguiu construir uma carreira política tão extensa porque vive em uma democracia. Em uma ditadura como a que existiu no Brasil depois de 1964, não haveria liberdade política para que os Bolsonaro construíssem essa trajetória eleitoral. A ditadura que parte desse grupo insiste em relativizar perseguiu adversários, cassou mandatos, censurou, torturou e matou. A democracia de 1988 fez exatamente o contrário: permitiu que inclusive aqueles que defendem ideias antidemocráticas disputassem eleições, fossem eleitos e ocupassem o Parlamento. Essa é a grande diferença. A Constituição de 1988 não precisa ser perfeita para ser defendida. Ela precisa ser aperfeiçoada. E é justamente isso que nós, democratas, devemos fazer.

Agora temos uma nova questão: quanto tempo a extrema direita norte-americana estará disposta a dedicar à proteção política de uma família brasileira derrotada nas urnas? As próximas eleições presidenciais dos Estados Unidos estão marcadas para 7 de novembro de 2028, ou seja, estamos a pouco mais de dois anos daquele processo eleitoral. Donald Trump é um político pragmático. Pode fazer barulho, pode produzir declarações, pode explorar politicamente o caso Bolsonaro, mas uma coisa é apoiar aliados ideológicos; outra é comprar indefinidamente um desgaste internacional para proteger uma família política brasileira derrotada. Trump também precisa olhar para sua própria sobrevivência política nos Estados Unidos. E não podemos ignorar que, mesmo diante das divergências, o próprio Lula já afirmou que Trump o trata com respeito e que ele também trata o presidente norte-americano com respeito. Isso é diplomacia. É diferente de submissão. É diferente também de transformar o Brasil em instrumento de uma disputa ideológica internacional.

E aqui está, talvez, a maior diferença entre os dois projetos que se enfrentaram nas eleições brasileiras. Lula venceu. E venceu novamente pelo voto. A mobilização popular em torno de sua candidatura mostrou que existe uma parcela majoritária da sociedade brasileira que não aceita retrocessos democráticos. Foi por isso que defendi o voto em Lula e Alckmin. Não por acreditar que o governo será perfeito — nenhum governo é —, mas porque acredito em democracia, estabilidade institucional, responsabilidade social, educação, agricultura familiar, oportunidades, desenvolvimento econômico, equilíbrio fiscal, respeito às instituições e capacidade de diálogo. Defendi porque acredito que o Brasil precisa pacificar suas relações políticas sem abrir mão da democracia.

O governo eleito precisa agora fazer aquilo que se propôs a fazer: governar, com menos amarras políticas internas e capacidade de diálogo, responsabilidade fiscal, políticas sociais que produzam oportunidades e não apenas dependência, investimento em educação, fortalecimento da agricultura familiar e do setor produtivo, respeito ao agronegócio e, ao mesmo tempo, atenção aos pequenos produtores, desenvolvimento econômico, segurança jurídica, profissionalização do Estado e, principalmente, democracia. É preciso transformar a vitória eleitoral em capacidade de governo e fazer com que o país avance para além da polarização permanente.

Também acredito que chegou a hora de a direita brasileira sair do cativeiro bolsonarista. A direita democrática brasileira tem muito mais a oferecer ao país do que culto à personalidade, guerra cultural permanente e ataques às instituições. Existe uma direita que pode defender responsabilidade fiscal, liberdade econômica, empreendedorismo, segurança pública, eficiência administrativa, descentralização, meritocracia, inovação, equilíbrio das contas públicas e respeito à propriedade. Mas tudo isso precisa caber dentro da democracia. Uma direita democrática não precisa defender golpe, atacar o Supremo, pedir intervenção estrangeira, relativizar ditadura, transformar adversário político em inimigo nacional ou carregar a família Bolsonaro para sempre. A direita brasileira precisa recuperar sua autonomia intelectual e olhar para frente.

O Brasil não pode ficar eternamente preso à disputa Bolsonaro versus Lula. Esse ciclo precisa ser superado. Bolsonaro não é o Brasil. Lula também não é o Brasil. O Brasil é muito maior do que seus líderes políticos. E é justamente por isso que acredito que os próximos anos podem ser de reconstrução. Os irmãos Bolsonaro que estão fora do país terão de responder às questões que dizem respeito à Justiça brasileira pelos caminhos institucionais adequados. Jair Bolsonaro já cumpre pena; Eduardo Bolsonaro permanece nos Estados Unidos sob as consequências de seus próprios problemas com a Justiça; e Flávio agora se junta ao irmão fora do Brasil, depois de uma derrota eleitoral e em meio a questões judiciais que precisam ser tratadas pelas instituições competentes.

O que podemos esperar nos próximos dias? Provavelmente muitas lives, vídeos nas redes sociais, declarações inflamadas, teorias conspiratórias, afirmações duvidosas e uma parcela radicalizada defendendo intervenção dos Estados Unidos no Brasil. Mas é preciso separar o barulho da realidade. Esse movimento pode gerar tensão política e alimentar radicalismos, mas não significa que a democracia brasileira esteja prestes a ser derrubada ou que a vida cotidiana do cidadão brasileiro vá mudar por causa de vídeos produzidos nos Estados Unidos. O Brasil é maior. As instituições são maiores. A sociedade brasileira é maior. E a democracia brasileira é muito mais forte do que a família Bolsonaro imaginou.

Não acredito que os Bolsonaro vão desaparecer. Eles continuarão presentes na sociedade brasileira, terão seguidores, terão espaço político, continuarão produzindo conteúdo e tentando reorganizar sua força. Mas isso é diferente de permanecerem como o centro da política brasileira. O que precisamos construir é justamente isso: uma democracia na qual nenhuma família tenha força suficiente para colocar seus interesses acima dos interesses do país.

Os Bolsonaro agora são, sobretudo, assunto para a Justiça e para a política — cada uma em seu devido lugar. À política cabe disputar projetos. À Justiça cabe julgar fatos e responsabilidades. À sociedade cabe escolher, livremente, seus representantes. E a mim, como cidadão e democrata, cabe continuar defendendo aquilo em que acredito: um Brasil mais justo, democrático, socialmente responsável, economicamente desenvolvido e capaz de conviver em paz com suas diferenças.

Talvez essa seja a grande tarefa que temos pela frente: não eliminar quem pensa diferente, mas retirar da extrema direita antidemocrática a capacidade de sequestrar o futuro do Brasil. E fazer com que a política brasileira volte a discutir o que realmente importa: o país. Não uma família. Não um líder. Não uma ideologia estrangeira. O Brasil.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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